A outra face de que se veste a verdade histórica

Ler
Acontecimentos históricos e ações decorrentes da imaginação fundem-se numa narrativa eletrizante e envolvente

Uma das temáticas mais recorrentes na ficção de nossa contemporaneidade reside nas narrativas que, partindo de fatos reais, em geral presentes intensamente na memória coletiva, constroem uma atmosfera na qual a realidade sofre a intervenção da fantasia, da invenção. É o que sustenta a trama deste romance, "Anoitece no Iraque", de Patrick Ericson, uma vez que tanto o episódio do 11 de Setembro quanto a invasão ao território iraquiano entrelaçam-se para a sua construção: "A esta altura da história, não escapa a ninguém que o mundo vive um antes e um depois do 11 de Setembro. Todos lembram onde estavam e o que faziam em torno das 3 horas da tarde, hora local na Espanha, daquele 11 de setembro de 2001." Reconhece, neste prólogo, Juan Gálvez, que o autor não se encontra sozinho na empreitada da recuperação dessas cenas, mas aponta determinadas singularidades que fazem desse romance uma composição única, dentre as inúmeras expressões que se debruçaram sobre esse tema.

Detalhe da capa do romance "Anoitece no Iraque", de Patrick Ericson. A narrativa tem como ponto de partida o atentado de 11 de setembro de 2001, acontecimento que é banhado pela imaginação do narrador em terceira pessoa

O mote

O ponto de partida para o enredo é o fato de o tenente norte-americano, Jack Parsons, haver perdido a esposa quando do atentado de 11 de setembro, sendo, então, tomado por um inexorável sentimento de vingança, destilado por sobre o terrorismo: "Sentado diante da televisão, Jack Parsons revivia muitas vezes o drama de sua vida. Na tela de plasma, podia ver os edifícios fumegantes do World Trade Center depois dos impactos dos aviões suicidas: o voo 11 da América Airlines e o voo 175 da United Airlines, ambos sequestrados por fundamentalistas islâmicos militantes da cédula terrorista Al Qaeda; jiradistas a serviço do homem mais temido e caçado do mundo: Osama bin Laden". Não conseguia desgrudar os olhos da tela porque a sua esposa estava lá em meio à fumaça e aos destroços. Agora, ele não passava de um fantasma, sem coração nem espírito, alimentado apenas pelo sentimento de vingança. Acreditava nas palavras do presidente; todos aqueles horrores precisavam de uma resposta imediata, um consolo aos que perderam parentes e amigos.

A trama

O romance é conduzido sob o ponto de vista externo, isto é, a terceira pessoa, sendo o narrador onisciente e onipresente, uma vez que sabe tudo acerca não só dos acontecimentos mas, e sobretudo, do que se passa na subjetividade pastosa de suas personagens. O protagonista Jack Parsons, após uma sucessão de dias mergulhado em desespero e profunda melancolia, participa da subsequente invasão que os Estados Unidos realizaram ao território do Iraque. No entanto, o que, antes, era movido por intenso sentimento de vingança sofre, à medida que a guerra avança, uma reviravolta, pois tudo vai se descortinando como algo ilógico e sem qualquer fundamento. Jack, pouco a pouco, vê-se como marionete movidos por falsos cordões; sente-se, portanto, manipulado, pois vai se convencendo de que as razões da guerra passam longe do que sustenta o discurso oficial. A narrativa reveste-se de momentos de intensa dramaticidade, pois os horrores da guerra são despidos: o desrespeito aos direitos humanos, a crueldade dos norte-americanos, civis mortos com marcas de sadismo.

Considerações finais

Pouco antes de ser ferido em combate, o protagonista é testemunha da venda de uma informação confidencial por um arqueólogo iraquiano a um jornalista inglês. O teor desses documentos é responsável pelo novo rumo a ser tomado pela trama. Isto que faz a leitura desse romance algo motivador, pois a capacidade inventiva do autor ganha relevo.

Livro

Anoitece no Iraque
Patrick Ericson
Geração 2013, 472 Páginas
R$ 39,90

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR