A ópera infame contra o Mundo Cão

O show de Zeca Baleiro, último sábado, na Praça Verde, do Centro Dragão do Mar, marcará o ano de 2005. Seja pela sonoridade, extremamente orgânica ao se valer de recursos eletrônicos para a mistura de ritmos populares, referências culturais e industriais, elementos éticos e estéticos. Seja pelo conteúdo, instigante a todo instante, levando às últimas conseqüências temas bem baleirianos, como as relações entre arte e dinheiro, notoriedade e anonimato; o cotidiano das grandes cidades entre outdoors, neons, Internet, TV a cabo, modas e costumes que artificializam e tornam impessoal até o mais simples dos atos

Sempre fui ferrenho defensor da tese de que, qualquer que seja a carreira profissional abraçada por um indivíduo, o aspecto lúdico nunca pode deixar de estar presente - senão por completo, conforme sonharíamos em associação com o sociólogo italiano Domenico de Masi, pelo menos convivendo, tanto quanto possível, com o aspecto lúcido que nossa educação ocidental cedo nos impõe. Quando o trabalho, essa interminável sucessão de dias a “robotar” (para citar a mais recente tradução brasileira para o clássico “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess), perde por completo a capacidade de despertar criatividade, entusiasmo, cooperação, não tardam a se manifestar sintomas bastante claros. Um desses mais explícitos elementos de diagnóstico costuma se dar aos fins de tarde de domingo, quando se torna inevitável certa melancolia, diante da perspectiva de no dia seguinte encarar mais uma tenebrosa segunda-feira, em um meio de vida que, como assinalariam, cada um a seu modo, Marx, Freud, Sartre e os sábios orientais (“Trabalha no que queres, e não trabalharás um dia sequer”), quase sempre diverge de nossa autêntica essência.

Toda essa digressão, absolutamente condenável segundo os manuais do bom jornalismo, vem a propósito do show de Zeca Baleiro, noite de sábado último, na Praça Verde do Centro Dragão do Mar. Daqueles dignos de furar uma das derradeiras benesses ainda asseguradas pela CLT: o direito a merecidas férias. Gozando-as de maneira bem mais tumultuada do que gostaria, fui ter com os acordes, emboladas e enxertos de Baleiro, apostando que valeria a pena. E como valeu! No caso do jornalismo cultural, sempre advoguei (talvez também em causa própria, mas não somente) um acréscimo qualitativo a partir de um caráter mais informal e reflexivo, menos premido pela racionalidade e pela exigüidade do modo de produção do dia-a-dia. Tecer alguns comentários sobre o que o maranhense e seus colegas aprontaram no palco surgiu como aquelas iniciativas que se impõem por si, sem planejamento, pauta, prazo ou obrigação. Tão espontânea quanto inevitável.

Mas isto aqui é para ser uma resenha, não um esboço mambembe de dissertação acadêmica ou um reles expor de lamentos de botequim. À frente, veremos, tal raciocínio de certo modo se coaduna com o show de sábado último e, mais do que isso, com o penúltimo trabalho de Baleiro (antes do bom disco em parceria com o cearense Raimundo Fagner), o brilhante “Pet shop mundo cão”. Por ora, a tarefa de contextualizar alguns fatos torna necessário dizer que o trovador maranhense se apresentou, naquele sábado de calor em Fortaleza, por ocasião do 20º aniversário da Free Lancer Produções, empresa tocada por Liége Xavier e Gabriel Espanhol; que um telão ao lado do palco reproduzia interessantes cenas dessa trajetória, com destaque para cartazes antigos de shows, registrando o portfólio de concertos e peças de artistas como Lulu Santos, Dercy Gonçalves, Hermeto Pascoal, Aracy Balabanian, Legião Urbana, Marisa Monte e os nossos Manassés, Kátia Freitas, Isaac Cândido e Raimundo Fagner e Fausto Nilo (estes dois, ao lado de Baleiro); que mesmo com ingresso de inteira a R$ 30,00 o público compareceu em bom numero à Praça Verde, mais uma vez confirmando a imensa carência de opções musicais de qualidade; que a apresentação teve início uma hora e meia depois do horário anunciado (22h), período durante o qual muitos reclamaram, outros curtiram o som dos DJs Guga de Castro e Luciano Almeida; que, dada a impaciência já flagrante no público, o radialista Ari Coreoni, mestre de cerimônias da noite, chegou a enfrentar vaias ao distribuir brindes para a platéia e fazer breve discurso sobre as mudanças no Brasil nessas últimas duas décadas.

Isso posto, o mais importante: o show em si, que desde a abertura com “Pagode russo” fez valer a espera. As características musicais e performáticas de Baleiro já são bem conhecidas, desde que o moço despontou para os holofotes midiáticos, em meados dos anos 90, abrindo uma trincheira na indústria fonográfica após trilhar uma caminhada independente de participações em festivais e gravações de obras suas por outros intérpretes. No palco, porém, a musicalidade do maranhense parece encontrar seu “locus” perfeito. Ao contrário da oportunidade anterior, quando no anfiteatro do mesmo Dragão mostrou certa apatia em um show solo, desta feita Zeca trouxe sua turma. Uma banda enxuta, mas suficiente para formar uma notável massa sonora durante a maior parte do show, sob o comando daquela figura esguia, nordestino-nortista, às vezes rapper, às vezes brega, empunhando ora uma bela guitarra Epiphone Cassino branca, ora um violão de aço, ora nada mais além de seus pulos, maneios, gestos e voz tão grave quanto sarcástica, ou sensível, em outros instantes.

Pela primeira vez o público da capital cearense pôde conferir ao vivo, pelo menos em parte, o citado disco “Pet shop...”, subintitulado pelo autor, inclusive no registro em DVD, como “A Ópera Infame”. Aqui cabe novo parênteses, para dizer de como esse trabalho se destaca na bem sucedida discografia do músico até aqui. Seja pela sonoridade, extremamente orgânica ao se valer de recursos eletrônicos para a mistura de ritmos populares, referências culturais e industriais, elementos éticos e estéticos. Seja pelo conteúdo, instigante a todo instante, levando às últimas conseqüências temas bem baleirianos, como as relações entre arte e dinheiro, notoriedade e anonimato; o cotidiano das grandes cidades entre outdoors, neons, Internet, TV a cabo, modas e costumes que artificializam e tornam impessoal até o mais simples dos atos; os prós e contras da aldeia global e a sempre complicada relação entre o indivíduo e o trabalho, sem o qual, diria saudoso compositor, um homem não tem honra. A ópera infame de Baleiro é uma paulada na cabeça, um grito no ouvido a lembrar que todos nós, cada um a seu modo, fazemos parte desse impressionante e nem sempre admirável mundo novo. Resta saber de que modo e até que ponto se pode nele abrir espaço para o indivíduo, o pessoal, o humano, em meio ao embotamento dos sentidos e à frenética, enclausurante sensação do tempo. É justamente nesse ponto que a digressão do início do texto talvez encontre alguma conexão.

Zeca dá a cara a tapa, ao processar suas respostas - ou novas perguntas - no habitual liquidificador sonoro. Depois de passear pela sonoridade maranhense, manda ver “Eu despedi o meu patrão”, deslocando os que passaram incólumes pelo disco, mas botando pra pular quem já visitou a ópera do maranhense. “Mande embora, agora, sem demora, o seu patrão”, conclama o cantor de um país de milhões de desempregados, entre efeitos de voz, recursos eletrônicos, a guitarra de Tuco Marcondes, o baixo de Fernando Nunes e os dois sets percussivos que garantem o peso do show, apesar das dificuldades de reprodução de “Pet shop...” ao vivo. “Filho da véia” e “Guru da galera”, logo em seguida, mantêm o pique, com Zeca se arriscando na sanfoninha “pé-de-bode” de oito baixos, antes de puxar “Semba”, na mesma dinâmica de ativação.

O embalo só é quebrado pela fraca “Telegrama”, paradoxalmente na boca do público, tendo em vista a escolha como faixa de trabalho inicial do disco. A percussão-bateria, como em muitos momentos, faz as vezes de loop. E o santista Zeca ainda brinca, alterando um dos versos da canção para profetizar que os dólares iranianos do Timão paulistano não hão de dar bom resultado: “Eu tava só, sozinho (...) Mais iludido que um corintiano”. Vem, então, um dos melhores momentos da noite, quando Zeca pega o cavaquinho para cantar uma criação do grupo paraibano Totonho e os Cabras, que ele vem apadrinhando. “Bota som nessa p... de cavaco”, reclama, sem perder o rebolado da história de alguém que “tinha tudo pra ser feliz, segundo grau completo, curso de datilografia”, mas sofre pela falta do amor “daquela” mulher. Mais bate-cabeça, dada que “Tudo para ser feliz” conquista à primeira audição.

Só então o show dá uma respirada, mesmo assim com as reflexões poético-materiais de “Babylon” e todo o lirismo de “Bandeira”, esta prejudicada menos pelos problemas técnicos no violão de Tuco Marcondes que pelo equivocado arranjo com banda (o intimismo da canção já diz tudo). Bem melhor foram “Quase nada” (voltando a incendiar a platéia, na parceria do maranhense com a curitibana Alice Ruiz) e a balada “Palavras e silêncio”, de Zeca e Fausto Nilo. A essa altura, uma fã mais atenta leva às mãos do ídolo uma cédula de um real, querendo ouvir “Um real de amor”, do disco de Baleiro e Fagner. Zeca faz charme, mas se rende à originalidade do pedido e manda, somente ao lado de Marcondes, o irrepreensível samba-choro de Fagner e Brandão: “O real de amor que tu me dás generoso se faz em minha mão / Mata minha fome e multiplica o pão”. Vitória do improviso, reconhecido pela platéia. O set acústico tem ainda “Balada de agosto” e a charlebrowniana “Proibida pra mim”.

É, o texto já vai longe, mas (perdão, meu editor José Anderson Sandes!) é que o show, de fato, valeu o ingresso. Disposto e assumidamente “de bom humor”, Zeca e seus asseclas ainda mandaram ver “Mamãe Oxum” e “A serpente (Outra lenda)”, antes de mais um momento alto, transformando “Piercing” em uma (ainda mais) longa mistura de rap e coco, solos de guitarra e percussão, um vasto balaio de influências e referências capaz de incluir o “Terral” de Ednardo e “Pão e poesia”, de Fausto e Moraes Moreira, cortejando os anfitriões, e ainda Lacraia e Red Hot Chilli Peppers. “Vocês acabam com o nosso fôlego”, brinca o artista, antes de finalizar o tempo regulamentar puxando o “Heavy metal do senhor”. Teve bis, claro, com Zeca já poupando a voz em “Lenha” e voltando à sonoridade mais encorpada na derradeira “Vô imbolá”. Quase duas da manhã. Fim de noite e de matéria e mais uma tentativa de alguns dias de menos sobressalto. Mas, pra shows como este, bem que vale quebrar o protocolo, suspender por um instante o pretenso “far niente” (ah, se fosse...) e pensar que todo trabalho, enquanto produção e criação, bem que poderia ser assim, como o de Zeca Baleiro, transpirando em favor da inspiração. Talvez em dias por vir, num mundo menos cão, mais perto de nós.

SERVIÇO: “Pet Shop Mundo Cão” está disponível em CD (preço médio: R$ 30,00) e DVD (preço médio: R$ 50,00), inclusive nas videolocadoras

Dalwton Moura