A música do mestre

ZÉ MENEZES: vida corrida entre arranjos, composições, gravações e concertos
ZÉ MENEZES: vida corrida entre arranjos, composições, gravações e concertos Divulgação
Com uma trajetória no meio musical só comparável a seu amor pelo que faz, o arranjador e multiinstrumentista cearense Zé Menezes, 83 anos vividos entre acordes e melodias, se apresenta esta noite, no Teatro do Centro Dragão do Mar, lançando seu novo CD, “Regional de Choro”, apenas com composições próprias, executadas por ele e outros bambas. Antes, o autor do famoso tema dos Trapalhões fala ao Caderno 3, compartilhando memórias e reflexões sobre diversas facetas da música brasileira, na qual se insere como protagonista. Com a autoridade de quem tem sete décadas de carreira, e ainda quer fazer muito mais

O que têm em comum o pequeno município de Jardim, na região do Cariri, interior sul cearense, e grandes nomes da música popular universal, como Garoto, Radamés Gnattali, Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, Les Paul e Nat King Cole? A chave para a resposta se encontra na história de vida de José Menezes de França, nascido na dita cidadezinha, aos seis dias de setembro de 1921. Entre quatro e cinco anos, mal saído dos cueiros, descobriu no cavaquinho do primo um brinquedo difícil de largar. Aos oito, já em Juazeiro do Norte, “na cidade grande”, o talento explícito do menino de calças curtas motivou os comerciantes locais a se cotizarem, com o intuito de lhe comprar o próprio cavaco. “Foi o primeiro instrumento que eu pude dizer que era meu”, registra hoje, em entrevista por telefone, desde o Rio de Janeiro que o adotou há várias décadas.

Era 1930 quando, com aquele mesmo presente, o menino foi levado à maior autoridade existente na região. Isso mesmo: o Padre Cícero Romão Batista teve a oportunidade de abençoar o talento da criança, que ainda recorda o polêmico religioso como “uma figura serena, calma”. “Pra mim, era o mesmo que estar diante de um santo”, faz questão de ressaltar, lembrando as idas e vindas entre vários instrumentos de corda e também os trocados amealhados ao quebrar a mudez do cineminha de então. “Tocando no cinema, eu ganhei ali meus primeiros dois mil-réis. Foi o início da minha carreira profissional”, considera.

Do Cariri para Fortaleza, onde a PRE-9, a Ceará Rádio Clube - “ainda no tempo das Damas” -, foi o palco para sua musicalidade ganhar contornos de um profissionalismo mais definido. Ali ele conviveu com intérpretes e instrumentistas da música cearense de então, acompanhando também os grandes nomes que, não raro, aportavam do Rio de Janeiro, depois de seus nomes e vozes aqui chegarem, pelas ondas do rádio. “Eu já era diretor do regional, quando uma vez veio o Orlando Silva cantar, com nosso acompanhamento. Foi aí que conheci o César Ladeira, que me perguntou quanto eu ganhava aqui e me convidou pra ir pro Rio de Janeiro, substituir o Garoto”, conta Zé Menezes, com impressionantes naturalidade, lucidez e riqueza de detalhes. “Preciso falar também de Lauro Maia, que já fazia sucesso no Rio e me ajudou muito quando eu fui pra lá”, apressa-se em acrescentar, sentindo-se homenageado por uma das mais conhecidas criações de Lauro. E prometendo devolver a reverência, no show de logo mais.

Na capital federal, a destreza com diversos instrumentos e a sensibilidade musical de um auto-didata que passara a estudar cada vez mais cuidaram de fazer o nome do violonista cearense, ainda na casa dos 20 anos. Do primeiro emprego, na rádio Mayrink Veiga, passou para a grande Rádio Nacional, atendendo a convite do próprio Garoto. Na maior emissora, cujas ondas varriam o país disseminando saberes e sabores das noites cariocas, Zé Menezes conheceu o maestro Radamés Gnatalli, responsável por uma verdadeira escola do arranjo musical brasileiro, só encontrando paralelo, mais tarde, em um tal Antonio Carlos Jobim. “Passei 25 anos na Rádio Nacional e toquei com Radamés durante 30 anos, viajando por Paris, Frankfurt, Lisboa...”, detalha, afirmando ter ótima convivência com o maestro. E entrosamento musical melhor ainda.

Entre outras honrarias na década de 50, um encontro curioso com o guitarrista norte-americano Les Paul (cujo nome batiza um modelo clássico de guitarra elétrica, do qual Zé Menezes ainda conserva, orgulhoso, um exemplar presenteado pelo próprio instrumentista) e o convite para tocar em gravações de ninguém menos que Nat King Cole. E mais: a gravação, como solista, de peças de Radamés (“Concerto Carioca”, para guitarra elétrica dedilhada, com a Orquestra Sinfônica Continental) e de Villa-Lobos (“Introdução aos Choros”, com a Orquestra da Rádio Nacional). “Gravei com o maestro Villa-Lobos presente, regendo na Rádio Nacional e me parabenizando pela minha execução”, emociona-se.

Ao longo dos anos 50 e 60, porém, o poderio das grandes emissoras de rádio começa a experimentar um declínio, frente à lenta novidade da televisão e, principalmente, aos crescentes investimentos das “casas de disco”, reforçando a indústria cultural com uma maior popularização da fonografia. Se o mercado mudava, Zé Menezes soube se adaptar. “Passei a ser maestro da RCA Victor, nos anos 60, e fiz arranjos pra grandes cantores. Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Gilberto Milfont, Miúcha, Tom Jobim, trabalhei com todos eles. Vários gravaram músicas minhas. Depois, como guitarrista da Globo, acompanhei tudo que foi cantor e cantora, nacional e internacional”, relata.

Na década de 60, depois de muito correr pelo mundo, o músico integrou o grupo “Os Velhinhos Transviados”, com o qual lançou, a partir de 1962, impressionantes 15 LPs. “Era uma sátira àquelas coisas todas que a gente via, aqui e no exterior. A gente tocava música antiga de forma moderna, e música moderna de forma antiga, sempre brincando muito”, ilustra, sobre o “conjunto” que, entre suas paródias, satirizava os onipresentes cabeludos Beatles.

Zé Menezes conta que continuou atuando como músico de estúdio, “freelancer” para diversas gravadoras, e trabalhando na emissora do Jardim Botânico, até “se aposentar”, em idos de 1992. Na vênus platinada, cedo passou de guitarrista para os cargos de maestro, arranjador e diretor musical, assinando as trilhas e vinhetas de inúmeros programas, entre eles “Chico City”, “Viva o Gordo” e “Os Trapalhões” - cujo famoso tema de abertura, uma melodia que salta tão arisca quanto as peripécias de Renato Aragão e companhia, foi composto pelo músico cearense, sempre nas sombras, reverenciado por profissionais e pesquisadores, pouco conhecido pelo público em geral.

Apesar de seu nome constar na ficha técnica de inúmeros discos, produzidos em várias décadas, Menezes diz lidar bem com esse relativo anonimato, mesmo tendo sido fundamental à obra de tantas veneradas celebridades. “Nunca me incomodei em não ser tão conhecido do público”, assegura, pontuando apenas que, neste retorno a Fortaleza para o lançamento de seu novo CD, reunindo 14 faixas autorais, gostaria de se apresentar em um espaço maior. “Queria que fosse no Theatro José de Alencar, que foi o primeiro teatro em que eu toquei, ainda muito menino. Mas é melhor um teatro menor, com pessoas que entendem e gostam do que estão ouvindo, que um teatro maior com gente que não vai gostar desse tipo de música”, resigna-se, sem mostrar o menor traço de amargura. E prometendo novos projetos, na esteira do disco mais recente. Um danado, este Zé Menezes.