A lírica na contextura do modernismo

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No início do século XX ocorreu mais uma reviravolta artística no Brasil: eclodia o Período Modernista. Tendo como principal objetivo romper com os cânones das correntes literárias antecedentes, não é incomum observarmos, nos poemas construídos nessa fase, críticas remetidas aos grandes poetas do passado, de preferência, aos Parnasianos, que pregavam o "culto da forma".

A revolução

Os autores do modernismo readquirem a coloquialidade e espontaneidade na tessitura de seus versos e privilegiam temáticas sobre a vida cotidiana. Considerada uma poetisa atemporal, Cecília Meireles deu preferência em não se desvencilhar de alguns padrões estéticos das gerações anteriores, principalmente o Romantismo e o Simbolismo. Compondo seus cantos com aspectos que, à época, estavam a contragosto de muitos poetas modernistas, Cecília Meireles fez o diferencial. A criadora da obra "Viagem" possuia uma estima pela individualidade e solidão que tangiam ao romanesco, a musicalidade e a sugestão também são características fundamentais de seus versos, mostrando que ainda mantinha um forte laço simbolista.Mário de Andrade, em O empalhador de passarinho, faz uma crítica à Meireles, na qual declarou que: (Texto IV)

Acontecimento

Utilizando de metáforas e personificação da natureza, o poema "Acontecimento" é formado por quatro quadras de versos livres carregados de sinestesias, com rimas alternadas, toantes e encadeadas. Leiamos em: (Texto V)

A primeira estrofe se inicia com o eu lírico falando de sua permanência nesse mundo e das tempestades vividas por ele. Comparando seu sofrimento ao de "uma criança" inocente, que acabou de perceber que seus desejos eram somente imaginários, mostra-se atormentado e melancólico.

Na segunda estrofe, utiliza da personificação de elementos da natureza para demonstrar sua dor da crise existencial, a chuva parece não só tocá-la, mas também agredi-la fisicamente; nos dois últimos versos, temos o processo de dissolução dos sentimentos tristes de seu interior, trazendo-lhe uma amargura ainda não sentida. Na terceira estrofe temos a permanência de "toda a noite", metonímia de seu sofrimento, mostrando que tudo em sua alma ainda está obscuro e confuso. Em meio à solidão, parece não conseguir compreender o seu conflito existencial e afirma não querer se visto "em pranto, nem saberes, nem perguntares", manifestando preferência pelo individualismo no momento da dor.

A fugacidade

Na última estrofe, o "eu" sente não mais ostentar características tão admiradas pelo "outro": a alegria do sorriso iluminado e uma vida cheia de doces ilusões. Carregando o tumulto mental sobre a questão da fugacidade da vida e indagando sobre o fato de quem fora, o que lhe restou foi, em verdade, a lembrança de um acontecimento.

Aceitação

O poema "Aceitação" é composto de quatro estrofes formadas por um terceto, uma quadra e dois dísticos. Conduzido por realidades imagéticas, os seus versos são livres e com rimas órfãs, usando de metáforas, sinestesias e hipérboles. Como característica fundamental de muitos de seus poemas, "Aceitação" é cheio de musicalidade. (Texto VI)

Na primeira estrofe, o eu lírico utiliza das hipérboles "pousar o ouvido nas nuvens" e "sentir passar as estrelas", para mostrar o seu grande distanciamento do outro, já como uma aceitação da impossibilidade de, então, um dia, poder alcançá-lo.

Na segunda estrofe, o "eu poemático" não encontra nenhuma possibilidade de comunicação com o outro e com a realidade na qual vivência; o surrealismo de suas metáforas parece ser mais atingível do que conseguir um "simples gesto" do "tu".

Na terceira estrofe percebemos renúncia do sujeito poético sobre os fatos da vida e da esperança em alcançar o outro, mas não como espécie de desistência, e sim como conformismo da própria circunstância, pois seu desejo lhe parece inalcançável.

Na quarta estrofe, como uma sublimação do sofrimento e das frustrações vividas, o "eu" canta, pois no canto parece encontrar refúgio e motivo para exaltar a vida. Comparando-se a trajetória das cigarras, que vivem a cantar, acredita que a transitoriedade de sua vida é nascer e morrer, fatalmente, para o canto.

Epigrama n° 2

Utilizando metáforas e antíteses, o poema "Epigrama n° 2" é formado por dístico de quatro versos livres e rimas que se apresentam apenas no segundo e quarto versos das duas estrofes. (Texto VII)

O eu lírico usa a palavra "felicidade" para falar sobre as coisas efêmeras da vida. Na primeira estrofe podemos perceber um diálogo com o "tu", que nesse caso é a Felicidade, no qual lhe é atribuída característica de contraditória, pois ao mesmo tempo em que é "precária" e "custas a vir", quando vem é tão "veloz" e logo chega a se exaurir; dessa forma, o sujeito poético afirma que os homens "inventaram as horas", criando uma noção de tempo para medi-la, vivendo entre a angústia de sua espera e a fugacidade com que dura. Na última estrofe há uma desconstrução da ideia que se tem de felicidade, em meio a outro diálogo, ela é posta como uma causa difícil de ser compreendida e que chega a causar melancolia, já que sua espera é sempre bem maior do que sua duração, proporcionando ao outro a falsa impressão de poder prendê-la. O sujeito poético aponta "que as horas todas passam", ou seja, de maneira semelhante ao tempo, todas as coisas da vida são passageiras, mas ao contrário desse que sempre retornará, nada garante que a Felicidade seja algo contínuo em nossas vidas, restando tão somente a persistência em alcançá-la. (N. M. S. )

SAIBA MAIS

MEIRELES, Cecília. Viagem. Editora: Global Editora, 2012

GOLDSTEINS, Norma. Versos, sons e ritmos. Editora Ática: São Paulo, 2008

MOISES, Massaud. História da Literatura Brasileira -Volume III-Modernismo. Editora: Cultrix, SãoPaulo, 2002

MOISES, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. Editora: Cultrix, São Paulo, 2002

REIS, Carlos. O conhecimento da literatura. Coimbra: Almedina, 2001

Trechos

TEXTO IV

Por todas as tão diversas conceituações e experiências de poesia que apareceram no movimento literário brasileiro do Modernismo para cá, Cecília Meireles tem passado, não exatamente incólume, mas demonstrando firme resistência a qualquer adesão passiva. Ela é desses artistas que tiram seu ouro onde o encontram, escolhendo por si, com rara independência. Assim a definiu o poeta, com a mesma perfeição e maestria de Cecília Meireles ao compor seus ricos versos líricos, nos quais expressava as sensações mais subjetivas da alma.

TEXTO V

Aqui estou, junto à tempestade, / chorando como uma criança / que viu que não era verdade / o seu sonho e a sua esperança. /// A chuva bate-me no rosto / e em meus cabelos sopra o vento. / Vão-se desfazendo em desgosto / as formas do meu pensamento. /// Chorarei toda a noite, enquanto / perpassa o tumulto nos ares, / para não me veres em pranto, nem saberes, nem perguntares: /// "Que foi feito do teu sorriso, / que era tão claro e tão perfeito ?" / E o meu pobre olhar indeciso / não te repetir: "Que foi feito...?

TEXTO VI

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens / e sentir passar as estrelas /do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. /// É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano / e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas, / que desejar que apareças, criando com teu simples gesto / o sinal de uma eterna esperança. /// Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar, nem tu. /// Desenrolei de dentro do tempo a minha canção: / não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

TEXTO VII

És precária e veloz, Felicidade. / Custas a vir, e, quando vens, não te demoras. / Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo, / e, para te medir, se inventaram as horas. /// Felicidade, és coisa estranha e dolorosa. / Fizeste para sempre a vida ficar triste: / porque um dia se vê que as horas todas passam, / e um tempo, despovoado e profundo, persiste.