A linguagem figurada na construção textual

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A poesia é a expressão do eu por meio de metáforas, onde a expressão e o conteúdo andam ligados. As alianças entre ambos são indispensáveis para tornar interessante e rico o texto literário. Por isso, o vocabulário que escolhemos tem uma função especifica que depende do propósito do escritor. Estamos falando das funções de linguagem:: emotiva ou expressiva, denotativa ou referencial, conotativa ou apelativa, fática, metalinguística e poética. Esta última tem o objetivo de valorizar a elaboração do texto, causando estranhamento, tornando mais refinada e complexa a mensagem.

Seus olhos

Seus Olhos é uma das inúmeras criações artísticas realizadas com o auxilio de figuras de linguagens. O próprio título é uma metonímia. Esta composição é formada por duas estrofes, comportando quatorze versos. (Texto III)

A dualidade é uma característica das obras de Almeida Garrett, sempre presente em sua criação a ideia do paraíso e do inferno, do bem e do mal, do campo e da cidade. O amor é tratado como um paradoxo constante. Nós dois primeiros versos, identificamos mais uma vez a contrariedade, afinal dificilmente se pinta quando não se vê. Mostra que o amor ultrapassa barreiras, torna possível o que aparentemente seria inalcançável. O autor faz uso da metonímia, pois cita a parte do corpo, no caso "os olhos" para fazer referência ao ser amado. No terceiro verso, há um paradoxo que completa o seu sentido com verso seguinte.

O poeta se refere ao mundo exterior e interior, passando a ideia de que a força do sentimento vem da alma e não do mundo circundante. Na segunda estrofe , há uma antítese nas palavras "grave" e "suave". Novamente a função poética vai além do sentido semântico juntamente com a pragmática expressa o que pode acontecer dentro do coração de um ser apaixonado.

A palavra suave remete a sensações prazerosas e serenas que o amor traz, enquanto a palavra grave torna intenso, árduo e sofrido o ato de amar, uma vez o poeta deixa bem claro que ambas situações acontecem de forma simultânea. A maneira como o poema é composto retrata a realidade da humanidade, onde não há os felizes para sempre, contudo há felicidade.

Cinco sentidos

Edificado com seis estrofes de seis versos cada, exceto a última estrofe que possui oito, este poema, rico em expressividade, trata da invasão dos sentidos por sobre o ser amado.. Fazendo citações referentes à natureza com os pontos sensoriais, a figura de linguagem recorrente é a sinestesia, a qual tem a função de estabelecer uma relação subjetiva e espontânea entre uma percepção e outra que pertença ao domínio de um sentido diferente. (Texto IV)

Leitura do poema

O poeta sistematicamente emprega elementos da natureza no tecido de seu discurso: estrelas, flores, ramagem, rouxinol, cores, agreste, pomos, néctar e relva. A sinestesia contribui para que as cinco primeiras estrofes abordem os cinco sentidos. Na primeira estrofe, o sentido em foco é a visão, o eu lírico ressalva que por mais divina e bela que seja a natureza o encantamento que é sentido pelo amor é superior a tudo isso. Na segunda estrofe, o sentido encontrado é a audição.

A metonímia também ocorre quando o referencial é a voz. A palavra oiço reforça o pensamento de que o poeta trabalha a linguagem coloquial. No primeiros versos da estrofe seguinte, observamos uma sinestesia, já que a palavra respira e celeste estão se referindo, respectivamente, ao olfato e à visão. O olfato é citado nas passagens desta estrofe. A quarta estrofe focaliza o paladar, simultaneamente, o erotismo aparece. A fome e a sede são metáforas, na verdade o que se sente é desejo, excitação e paixão. Na penúltima estrofe, o erotismo reaparece, e de modo intenso.

O tato por sua vez é o recurso explorado pelo artista. O adjetivo macio faz referência ao tato. Na última estrofe, o eu lírico conclui seu pensamento afirmando que os seus sentidos estão voltados para um único individuo, que se misturam ao contemplá-lo. A repetição do ti traz uma melodia, construindo uma sensação de estranhamento e de coesão ao texto.
 

SAIBA MAIS

CAMPBELL, Joseph. Mito e transformação. São Paulo, Ágora, 2008.

GOLDSTEINS, Norma. Versos, sons e ritmos. Ática: São Paulo, 2002

MOISÉS, Massaud. A criação literária - poesia e prosa. São Paulo: Cultrix, 2012

Trechos

TEXTO III

Seus olhos - que eu sei pintar / O que os meus olhos cegou / Não tinham luz de brilhar, / Era chama de queimar; / E o fogo que a ateou / Vivaz, eterno, divino, / Como facho do destino. /// Divino, eterno! - e suave / Ao mesmo tempo: mas grave / E de tão fatal poder, / Que, um só momento que a vi, / Queimar toda a alma senti... / Nem ficou mais de meu ser, / Senão a cinza em que ardi.

TEXTO IV

São belas - bem o sei, essas estrelas, / Mil cores - divinais têm essas flores; / Mas eu não tenho, amor, olhos para elas: / Em toda a natureza / Não vejo outra beleza / Senão a ti - a ti! /// Divina - ai! sim, será a voz que afina / Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. / Será: mas eu do rouxinol que trina / Não oiço a melodia, / Nem sinto outra harmonia / Senão a ti - a ti! /// Respira - n'aura que entre as flores gira, / Celeste - incenso de perfume agreste. / Sei... Não sinto: a minha alma não aspira, / Não percebe, não toma / Senão o doce aroma / Que vem de ti - de ti! /// Formosos - são os pomos saborosos, / É um mimo - de néctar o racimo: / E eu tenho fome e sede... Sequiosos, / Famintos meus desejos / Estão... Mas é de beijos / É só de ti - de ti! /// Macia - deve a relva luzidia / Do leito - ser por certo em que me deito / Mas quem, ao pé de ti, quem poderia / Sentir outras carícias, / Tocar noutras delícias / Senão em ti - em ti! /// A ti! ai, a ti só os meus sentidos, / Todos num confundidos, / Sentem, ouvem, respiram; / Em ti, por ti deliram. / Em ti a minha sorte, / A minha vida em ti; / E, quando venha a morte, / Será morrer por ti.