A infância na poética de Manuel de Barros

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Rebento, bebê, guri, piá, nenê, curumim são várias as denominações, que visam a uma única palavra: criança

Publicado em 1994, "O Livro das Ignorãças", de Manoel de Barros, concentra-se, predominantemente, em torno de temas relacionados ao desconhecimento. Contudo, este não é concebido de maneira convencional, uma vez que o desconhecimento visto na obra se relaciona ao desconhecer dos sentidos, dos significados e dos conceitos. (Nesse sentido, a escolha lexical e os recursos expressivos ganham, também, relevo.)

O livro é dividido em três partes, são elas: "Uma Didática da Invenção"; "Os Deslimites da Palavra"; e "Mundo Pequeno". A primeira parte está relacionada à linguagem em seu florescer, isto é, o poeta busca, nesse sentido, uma aproximação com a linguagem natural das coisas. Na segunda parte do livro, o autor utiliza uma lenda para refletir sobre os limites da linguagem. A terceira parte do livro trará questões relacionadas a um mundo onde essa linguagem adâmica, de certa forma, se faz presente. Assim, para um maior entendimento da obra, analisaremos a concepção de infância abordada por Manoel de Barros, na qual o autor nos mostrará os (des) limites da palavra, tendo em vista a apropriação feita pela criança, que faz uso da linguagem, não somente em relação ao mundo vivido (real), mas também em relação ao mundo imaginado.

Didática da invenção

Leremos, aqui, "Uma didática da invenção" e em "Mundo Pequeno", retirados de "O livro das Ignorãças", cuja publicação data de 1993.

No primeiro poema analisado, o "Poema VII", observaremos que o eu lírico, através do verso livre e do uso de recursos imagéticos, brinca com as palavras. Assim, o poeta materializa o que ele concebe como universo infantil, isto é, lugar da imaginação e do lúdico. Vejam-se, pois, os seus seguintes versos: (Texto I)

Leitura do poema

Observamos, no início do poema, o termo "(des)começo", a prefixação negativa da palavra começo, ou seja, trata-se de um começo que ainda não começou exatamente. Esse "descomeço" dito no poema é o verbo. Em seguida, o eu lírico nos fala a respeito do delírio do verbo, nos dizendo que esse se encontra bem no início, onde o descomeço era de fato, o começo.

Tal começo se caracteriza pela fala ainda pouco elaborada da criança: "eu escuto a cor dos passarinhos". Nesse verso, percebemos a inserção de uma sinestesia, uma vez que não podemos escutar a cor dos pássaros. Logo, o delírio do verbo se refere à apropriação pouco madura feita pela criança, que ainda não domina a função do verbo "escutar".

FIQUE POR DENTRO

Um retrato de Manoel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, no Estado de Mato Grosso, em 1916. Publicou seu primeiro livro, "Poemas concebidos sem pecado", em 1937 e pertenceu à Geração de 45 do Modernismo brasileiro. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Além disso, o poeta é o ganhador de importantes prêmios da literatura, dentre eles: o prêmio da Academia Brasileira de Letras (2000), com o livro "Exercício de ser criança" e o prêmio Jabuti de Literatura (2002), na categoria livro de ficção, com "O fazedor de amanhecer"

Trechos

TEXTO I


No descomeço era o verbo./ Só depois é que veio o delírio do verbo./O delírio do verbo estava no começo, lá,/ Onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos./A criança não sabe que o verbo escutar não/ Funciona para cor, mas para som./Então se a criança muda a função de um verbo, ele/ delira./ E pois./ Em poesia que é voz de poeta,que é a voz de fazer/ nascimentos-/ O verbo tem que pegar delírio.

MORGANA FERREIRA DE LIMA
COLABORADORA*

*Do Curso de Letras da Uece