A incessante busca da identidade

Ler

A cidade ilhada é uma coletânea de 18 contos, a maioria deles com enredo ambientado em Manaus, cidade visitada por estrangeiros e sempre revisitada pelos nativos que vêm e vão. Manaus aparece não como espaço concreto de uma região, mas como ponto de partida e chegada, na verdade um microcosmo do universo em que se movimentam os personagens dos contos; seres enraizados, mas permanentemente em trânsito (SAMPAIO, 2013) no espaço e no tempo. Rio de Janeiro, Paris, Palo Alto, Berkeley, Barcelona, Bombaim e a capital amazonense são cenários móveis, transitórios como as vidas que neles circulam em torno de uma busca ou para resgatar lembranças. Todos estão à procura de algo que reconstitua ou justifique sua própria existência.

A raiz dos conflitos

Em todas as obras do autor, como dissemos, está presente o conflito da busca da identidade e o do resgate da essência que se dá na reconstrução do passado pela memória, esse fio cujo mecanismo tem um papel crucial na vida do ser humano. Nos romances Dois irmãos e Cinzas do Norte, a raiz do conflito está na infância, no seu transcurso problemático pela vivência de perdas, rejeições e interditos.

Em Dois irmãos, os gêmeos Yaqub e Omar têm, desde crianças, tratamento diferenciado da mãe, que não disfarça sua proteção pelo Caçula, o último a sair da sua barriga. Na fase adulta, os irmãos desenvolvem personalidades distintas e se tornam inimigos, qual Caim e Abel na história bíblica. Foram crianças criadas de modo diferente, experimentaram vivências culturais diversas, haja vista o período vivido pelo menino Yaqub no Líbano, terra dos seus pais, e os traumas daí advindos.

Como falamos no ensaio Dois irmãos: incesto, rejeição e rivalidade na relação familiar (SAMPAIO, 2007, p. 100), a história da família de Dois Irmãos intertextualiza, inicialmente, a de duas famílias bíblicas: a de Adão e Eva e a de Isaac e Rebeca, ambas extraídas do Gênesis, livro primeiro da Bíblia Sagrada. A primeira história de rivalidade entre irmãos se dá com Caim e Abel; depois com Esaú e Jacó. Zana parece a recriação de Rebeca que, ao privilegiar o filho Jacó, em detrimento do outro filho, Esaú, faze-os inimigos irreconciliáveis. Quando Zana escolhe mandar Yakub para o Líbano e fica com Omar, só acentua, assim, a rivalidade entre os dois.

Dos diálogos

Hatoum faz sua narrativa entrecruzar-se em diversos diálogos intertextuais homo e heteroautorais, passeando pelo mítico ao retomar as histórias bíblicas, (em Dois irmãos), e o mito de Eldorado, (em Órfãos do Eldorado), o que, de acordo com Maria Emília Martins da Silva (2011, p.40), conota uma "tentativa de recobrança do sujeito contemporâneo de sua unidade perdida, que é a origem da sociedade do espetáculo, segundo o teórico Guy Debord".

Em Cinzas do Norte, os mitos se reatraem. A narrativa da Lavo se entrecruza com cartas, um recurso estratégico de recuperação da memória. No relato, o personagem Raimundo (Mundo) vive em desarmonia com o pai, que não aceita seu comportamento avesso aos seus valores burgueses, tampouco seus pendores artísticos, e tenta moldá-lo à sua semelhança, o que gera a impossibilidade de convivência e culmina, portanto, na destruição de ambos.

Em Dois irmãos e Cinzas do Norte, pois, os personagens guardam as solidões da infância que, de acordo com Bachelard (2000), permitirão ao sonhador adulto viver suas próprias solidões. De fato, os protagonistas aparecem já na fase adulta, com seus temperamentos em choque, no cerne de desajustes familiares insolúveis, permitindo que o leitor, por meio dos relatos, reconstrua a trajetória deles e busque a criança que foram para compreender o adulto em que se transformaram. Desse modo, ele conhece o menino que fez o homem e que subjaz no discurso do narrador. Onde reside a fronteira entre o homem e o menino é um dos desafios lançados, afinal, como afirma Heidegger (apud Homi Bahbha, 1998, p.19), "Uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas, como os gregos reconheceram, a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente."

Considerações finais

É a rememoração o fio condutor dos enredos dos romances de Milton Hatoum; é por ela que se engendra a criação. Em entrevista a Luiz Henrique Gurgel, o próprio escritor (2008, p.2-4) diz: (Texto III)

A construção da memória nos dois romances - Dois irmãos e Cinzas do Norte - se dá pelos mecanismos de  resgate dela: lembrança, esquecimento tempo e espaço, na remontagem do passado, permitindo que o leitor observe e possa usufruir dessa transição temporal entre o menino e o homem maduro.

Assim, é por meio da palavra reconstrutora do passado, que se percebe a desunião e a rivalidade entre os gêmeos de Dois irmãos com origem na infância; o comportamento deles, bem como a personalidade, têm a ver como o modo como foram criados e com os lugares em que viveram. O personagem central de Cinzas do Norte, Raimundo (ou Mundo, como é chamado), desde bem menino sente a incompatibilidade de valores entre ele o pai, o que vai propiciar uma relação tirânica, baseada em desentendimentos e agressões mútuas. Mesmo a mudança do espaço opressor e a morte do pai não o libertam do ódio que passa a alimentar a sua vida. Em ambos os casos, tais crianças se tonaram adultos infelizes, vingativos e socialmente desajustados. (A. S.)

Trechos

TEXTO III

Não há literatura sem memória. A pátria de todo escritor é a infância. Acho que o momento da infância e da juventude é privilegiado para quem quer escrever. É onde a memória sedimenta coisas importantes: as grandes felicidades, os traumas, as alegrias e também as decepções. Certamente não estou falando da lembrança pontual e nítida. O que interessa é a memória desfalcada, a memória não lembrada. Isso é bom para a literatura porque aí é que se instala o espaço da invenção.

SAIBA MAIS

BACHELARD, Gaston. Poética do devaneio. São Paulo:

Martins Fontes, 1996.

HATOUM, Milton. Dois irmãos. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

SAMPAIO, Aíla Maria Leite. Dois irmãos: incesto, rejeição e rivalidade na relação familiar In: Revista de Humanidades, v.22, nº 2, Fortaleza: Unifor, 2007, p. 98-102.