A estética barroca: o conflito do ser humano consigo mesmo

O Barroco traduz a experiência humana a partir do século XVI, em diversas expressões artísticas

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Na Península Ibérica (Portugal e Espanha), singularidades do momento histórico implicaram mudanças significativas no panorama cultural: a partir da fundação da Companhia de Jesus, no ano de 1540, cultivavam-se as primeira lajes para a edificação da Contrarreforma, deliberada esta pelo Concílio de Trento, cuja reunião se deu de 1545 a 1553. Seu órgão executivo passa a ser a Santa Inquisição, que, através do Tribunal do Santo Ofício, investigará, julgará e condenará os que, de uma forma ou de outra, não contribuíssem para a preservação, defesa e disseminação da doutrina de Roma.

Posturas antitéticas

Portugal e Espanha tornam-se o cento da reação da Igreja Católica à Reforma Protestante; existe a tentativa harmonia entre as idéias renascentistas (Antropocentrismo) e a tradição religiosa medieval (Teocentrismo). O Barroco é, assim, marcado por intensa dualidade: aos apelos do racionalismo e ao prazer, oriundos do humanismo renascentista, opõem-se a Igreja Católica e o Protestantismo, pregando um retorno ao teocentrismo medieval, ao estoicismo, à mortificação da carne, à renúncia aos prazeres. O homem, por conta disso, vê-se (sobretudo no século XVII) oscilando entre a fé e a razão, a carne e o espírito, o céu e a terra, a virtude e o prazer... Trata-se, portanto, de um espírito voltado para a religiosidade da Idade Média, mas, ao mesmo tempo, atraído intensamente pelas seduções seculares: (Texto I)

Leitura do poema

O eu lírico, ao reconhecer-se pecador, e, por conta disso, antever-se em meio às chamas do inferno, busca a salvação em Cristo - este, por sua vez, é construído, consoante a técnica de composição do cultismo, por meio de jogos de palavras, com destaque para o uso reiterado de metonímia: a partir das partes de Cristo ("braços", "divinos olhos". "pregados pés", "sangue vertido", "cabeça baixa", "lado patente", "cravos preciosos"), é, assim, possível reconhecê-lo com o um todo. Ao longo de toda a composição ganha relevo o dualismo, como, por exemplo, na imagem dos "braços sagrados", abertos, uma vez que irão recebê-lo, mas, ao mesmo tempo, "braços cravados", numa alusão ao sacrifício do sangue de Cristo para libertação da humanidade esmagada sob o peso dos pecados. Todo o discurso sedimenta-se na ideia de que, por nunca livrar-se da prática do pecado, o homem está sempre aspirando à salvação.

Contraste e pessimismo

O dualismo barroco revela-se tanto no aspecto estético (contraste entre cores e relevos) quanto no ideológico (corpo e alma, ascetismo e mundaneidade). Traduz-se, estilisticamente, pela antítese e/ou paradoxo, esculpindo um ser, ao mesmo tempo, místico e sensual, religioso e erótico, espiritual e carnal. O espírito religioso faz com que a vida na Terra seja vista como uma experiência do sofrimento, opondo-se, de modo absoluto, à glória da vida celestial: (Texto II)

Leitura do poema

Nesta composição, uma das singularidades, no que diz respeito a recursos expressivos, reside no emprego reiterado de inversões, como um meio por que possa ser representado o espírito perturbador que toma conta do sujeito do texto: "incêndio disfarçado em mares de água / rio de neve convertido em fogo". Há momentos em que tais inversões chegam, inclusive, a retorcer o sentido das frases, como, por exemplo, nos 2º e 3º versos da quarta estrofe: "Permitiu que a chama parecesse fria / assim como quis que a neve fosse aqui ardente".

Da temática

O tema recai sobre uma luta que o ser trava consigo mesmo: o contraste entre o desejo e sua realização: longe da pessoa a quem deseja, os "belos olhos" derramam "pranto"; uma vez perto do ser amado, aquele "ardor" incial converte-se em "incêndio" - mas este é "disfarçado" em "rio de neve". É nesse sentido - o do fingimento - que o que é "chama" parece encarnar o frio.

FIQUE POR DENTRO

Notas acerca do barroco no Brasil

Os ideais barrocos foram aqui disseminados pelo modelo educacional que os jesuítas aplicavam na sociedade colonial. Os jovens, educados segundo uma rígida moralidade, - que pregava, sobretudo, a concupiscência da carne - deparavam, na vida social, o parasitismo e a libertinagem, - reflexo de uma estrutura escravocrata e patriarcal. Desse modo, reproduzia-se o conflito corpo versus espírito. Dentre os principais autores destacam -se Gregório de Matos e Pe. Antônio Vieira: este (Lisboa, 1608; Bahia, 1697) imortalizou-se por seus Sermões. Neles, refletia acerca da problemática de seu tempo, condenando a escravidão indígena ou negra, combatendo a perseguição aos cristãos-novos por parte da Santa Inquisição, lutando contra a corrupção e denunciando, também, os maus pregadores; aquele (Salvador, 1636; Recife, 1696) desenvolveu a poesia lírica (sacra, amorosa) e a poesia satírica.

Trechos

TEXTO I

A vós correndo vou, braços sagrados, / Nessa cruz sacrossanta descobertos / Que, para receber-me, estais abertos, / E, por não castigar-me, estais cravados. /// A vós, divinos olhos, eclipsados / De tanto sangue e lágrimas abertos, / Pois, para perdoar-me, estais despertos, / E, por não condenar-me, estais fechados. /// A vós, pregados pés, por não deixar-me, / A vós, sangue vertido, para ungir-me, / A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me /// A vós, lado patente, quero unir-me, / A vós, cravos preciosos, quero atar-me, / Para ficar unido, atado e firme.

(MATOS, 1992, p. 413.)

TEXTO II

Ardor em coração firme nascido; / Pranto por belos olhos derramado; / Incêndio em mares de água disfarçado; / Rio de neve em fogo convertido. /// Tu, que em um peito abrasas escondido; / Tu, que em rosto corres desatado; / Quando fogo, em cristais aprisionado; / Quando cristal, em chamas derretido. /// Se és fogo, como passas brandamente? / Se és neve, como queimas com porfia? / Mas, ai, que andou amor em imprudente! /// Pois para temperar a tirania, / Como quis que aqui fosse a neve ardente, / Permitiu perecesse a chama fria. (MATOS, 1992, p. 514)

Carlos Augusto Viana
Editor