A barra da iconoclastia

Festival Rock Cordel que acaba hoje no CCBNB é boa chance para rever conceitos do rock

A iconoclastia do grupo Bonecas da Barra foi um pontapé na consciência de uma penca de gente que assistia à sua apresentação, na tarde desta quinta-feira pós-chuvosa, no Centro Cultural Banco do Nordeste, nos últimos suspiros do Festival Rock Cordel. A irreverência da moçada da Barra do Ceará contrastou com outras apresentadas, mas também com um certo tipo de conservadorismo que se estende até entre o público do rock. Um bando de garotos vestidos de mulher já não é nenhuma novidade no gênero, vide a setentista New York Dols ou a pernambucana Textítculos de Mary. Mas boa parte do pessoal que lotou o auditório do CCBNB naquela tarde ainda estava meio excitada demais, digamos assim, com a proposta visual e as (mais discretas) provocações verbais do grupo.

Tudo bem, uma sacanagenzinha também faz parte da assistência de um show de rock, mas é bom também procurar não ficar repetindo uma série de absurdos como aqueles que criticam todas as vertentes do rock costumam exercitar, já ali na calçada da Floriano Peixoto onde a galera que conferiu o Rock Cordel desde o dia 14, costuma se reunir, antes, durante e após as apresentações. Quer dizer, conservadorismo que se constata até mesmo no próprio Centro Cultural.

Felizmente, Glauco King, o vocalista e principal alvo das chacotas, segurou o rojão junto a André Ressaca e Raoni Mumia (guitarras), Felipe Sapo (baixo) e Rafael Sobral (bateria), levando o seu “Taca o pau, Sobral!”, ao início de todas as canções do grupo, marcadas por um rock clássico, sujo, honesto com todas as suas boas referências. Indiferentes às provocações, conquistavam mais adeptos a cada acorde, cada verso, cada honestidade de seu rock. “Nós somos as Bonecas da Barra e fazemos rock’n roll”, avisou. E assim foi naquele meio de tarde.

Centro democrático

Perdi os shows da O Chaveiro e da Encarne, mas logo depois conferi a ótima forma com que Jácio Cidade vem tratando suas músicas, na companhia de Ricardo Pinheiro (bateria), Gladson Rocha (guitarra) e Jefferson Portela (percussão). Depois foi a vez de constatar como o festival é democrático, falando com os amigos de Grupo de Jovens Lucélio Alves e Douglas Jerônimo, ainda sem almoçar, e vindos direto do Lagamar, e logo depois com Verônica Fonteneles, Lia Holanda e Débora Pinto, estudantes da Unifor, todas de 18 anos, ali no Centro Cultural pela primeira vez, vibrando com a banda Carango Abacaxi, moçada que ficou para acompanhar as “Bonecas da Barra”.

A farra continua hoje, a partir de meio-dia, na Floriano Peixoto, 941, com Projeto Enxofre, Helena, Lobo do Asfalto, Os Nômades, Rubber Soul, Batucão Nos Couros, Sibbéria, Trem do Futuro, Camarones Orquestra Guitarrística e Caco de Vidro. Com mais 11 mil pessoas de público, 136 bandas tocando por visibilidade e um cachê simbólico, o III Rock Cordel não foi em vão, para lembrar um verso de uma das “estranhas” atrações daquela tarde, George Belasco.

O que você mais curtiu no Rock Cordel?

Douglas Jerônimo
21 ANOS
Músico
Procuro mais um instrumental legal e ainda letras com algum sentido, não necessariamente crítico. Aqui tem boas bandas.

Luiz Henryque Oliveira
14 ANOS
Estudante
Acompanhei o Festival em vários dias, mas adorei conhecer a irreverência da Bonecas da Barra, lembrando o Mamonas.

Lucélio Alves
21 ANOS
Músico
O principal é a chance de assistir aos shows de graça. Ouço tudo, mas gosto de algo com conteúdo, tipo Los Hermanos.

Eriane Brito
18 ANOS
Estudante
Vim mais para o show da Bonecas da Barra mesmo, eles têm uma autenticidade muito legal. Gostei deles terem tocado aqui.

HENRIQUE NUNES
Repórter