120 anos de Otacílio, o poeta das telas

O artista autodidata Otacílio de Azevedo completaria hoje 120 anos. Foi poeta, cronista, desenhista e pintor

A data precisa, nem o próprio Otacílio chegou a saber, confundida na memória com o ano de 1896 e naturalmente divulgada como tal em biografias e estudos sobre o artista. Apenas após sua morte, uma consulta à sua certidão de nascimento, que estava entre as milhares do arquivo da Igreja da Sé de Fortaleza, revelou o dia 11 de fevereiro de 1892 como o dia em que, em uma localidade rural da cidade de Redenção, nascia o multi-artista: desenhista, pintor, fotógrafo, cronista e poeta Otacílio Ferreira de Azevedo.

As cores, os cheiros, as cenas e os tipos de uma Fortaleza antiga estão impressos nos livros, nos versos, nas crônicas, no traços de suas telas, de suas paisagens e rostos. Distante no tempo, ele faz presente ruas, passeios, pessoas e comportamentos da primeira metade do século XX na Cidade que o acolheu, em uma obra vasta e preciosa que, muito embora, permanece dispersa e longe de nossas cabeceiras. Morto em 1978, aos 86 anos, Otacílio de Azevedo deixou 12 livros publicados, dois deles póstumos, e um número incontável de telas, tendo sido durante anos um dos retratistas mais requisitados de Fortaleza, além de grande paisagista.

Autodidata em todas as suas atividades, ele aprendeu a ler, pintar e fotografar sem jamais ter frequentado a escola, nem um curso formal de artes. Nas palavras de Antônio Sales dirigidas ao artista, ao se deparar com os versos de seu livro "Alma Ansiosa" (1918), o também poeta admite: "só talento e muito talento poderia do pouco que você tem vivido e estudado tirar essas estrofes cálidas, harmoniosas e cintilantes em que vibra e chora a alma de um verdadeiro poeta".

"Na sua poética, de um modo geral, podemos encontrar a paisagem física e social, os ecos, as reverberações da passagem da Fortaleza provinciana para cosmopolita" observa Herbert Rolim, artista plástico e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Autor do livro "Arte Anfíbia: O Caso Otacílio Azevedo", baseado em sua pesquisa de mestrado na Universidade Federal do Ceará (UFC), Herbert reclama uma dívida histórica da Cidade quanto ao estudo e preservação da memória de Otacílio.

"[O que temos são] pinceladas diante do que há por se explorar, investigar, contextualizar, catalogar", diz. Boa parte da sua obra encontra-se dispersa, com pinturas em acervos particulares e ainda seus versos e crônicas publicadas em revistas e jornais diversos.

O uso das diferentes linguagens, argumenta o pesquisador, por si já é algo inovador e o coloca em um patamar diferenciado. "Num tempo em que o artista tinha que rezar numa mesma cartilha, optar por produzir e se expressar em diferentes linguagens já marca sua performance pela história da arte cearense, já abre caminho para o que hoje chamamos de arte híbrida", defende.

Família

Mas o legado de Otacílio de Azevedo vai além de suas criações no campo da arte, já que foi ainda patriarca de uma família de filhos pródigos. Ao lado de sua esposa Tereza Almeida de Azevedo, foi responsável por colocar no mundo o astrônomo Rubens de Azevedo, o historiador Sânzio de Azevedo e o patrimônio vivo de Fortaleza, Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez.

Pesquisador de música, colecionador de discos e jornalista, Nirez recorda com carinho da convivência com o pai, de quem ele chegou a herdar o gosto pelo jornalismo, além da habilidade para o desenho e recebeu o incentivo inicial para a formação de seu acervo fonográfico, hoje um dos mais representativos do País.

"Frequentei escola, mas aprendi muito mais em casa. Meu contato com meu pai e meu irmão mais velho (Rubens) foi meu aprendizado. Quando comecei a colecionar discos, meu pai encontrava algum amigo na rua, antes de dar o bom dia dizia, você tem disco velho em casa? Para me ajudar", lembra. Nirez destaca o ecletismo do pai, que começou a vida profissional ainda muito jovem, como fotógrafo itinerante, tendo trabalhado ainda como pintor de tabuletas de cinemas e de letreiros de lojas. "Ele falava ensinando. A gente conversava com ele aprendendo", completa.

Autodidata

Otacílio de Azevedo mudou-se ainda jovem de Redenção para Fortaleza. Na pintura, iniciou como prático, pintando letreiros de lojas e tabuletas de cinemas. "Papai foi pintor de parede. Depois que virou de paisagem e retratos", reforça Sânzio.

A escrita, foi outra que chegou por vias não convencionais, aprendendo a ler por conta própria e adquirindo cultura literária em livros de clássicos como Shcoppenhauer, Vitor Hugo e etc.

O historiador lembra de uma história que o pai contava sobre uma breve tentativa de frequentar a escola. "Ele foi estudar em colégio e colocou a caneta, que era daquelas de pena de metal, enganchada na alpercata e cutucou o menino na frente. A professora notou e escreveu algo no quadro. Como ele não sabia ler, entendeu só que tinha o nome dele e perguntou a um colega o que era. Disseram: ´Otacilio ficará preso na latrina´. Ele morreu sem saber o que realmente era, porque na mesma hora pulou o muro da escola, fugiu e nunca mais voltou".

Sânzio chegou a publicar em 1972 no livro "Aspecto da Literatura Cearense" um estudo sobre a obra literária do pai, a qual considera sua expressão maior. "A pintura foi o ganha pão. Ele vivia da pintura", argumenta. Ele destaca a facilidade que o pai tinha para escrever. Eram poemas classificados pelo próprio Otacílio como parnasiano-simbolista, carregados de descrições e musicalidade.

"Em uma ocasião eu me sentei para escrever um soneto para Fortaleza. Ele disse que sentado não escrevia nada. Ficou andando e, com um pedaço, me entregou. Ainda hoje eu lembro de cór: ´Oh Fortaleza dos gatos pingados/ dos congos dos fandangos, dos reisados/ Dos verdadeiros poetas sonhadores/ E onde cabelos a revoar dispersos / eu escrevia os meus primeiros versos / Ao rosário de luz dos combustores´", lembra Sânzio, que acabou desistindo dos seus próprios. Preferiu os do pai.

FIQUE POR DENTRO
Nascido em 1892 ou 1896?

A maior parte das publicações sobre a vida de Otacílio de Azevedo datam seu nascimento no ano de 1896. Durante toda vida, o próprio artista acreditava e sustentava essa versão. Seu verdadeiro ano de nascimento,1892, só foi descoberto após sua morte, quando, à pedido de Nirez, o pesquisador musical Aldo Santiago encontrou a certidão de nascimento do artista, no arquivo da Igreja da Sé de Fortaleza. "Ele é quatro anos mais velho do que imaginava. Eu achava muito estranho um menino de oito anos, como ele contava, sustentar a família. E outras coisas mais que ele citava. Até o aspecto físico dele quando faleceu, estava muito velho. Não com a idade", destaca Nirez, sobre a desconfiança que o levou procurar o documento.

Obra memorialista será reeditada

Publicado após a morte do artista, o livro "Fortaleza Descalça"(1980) é hoje um dos mais conhecidos de Otacílio de Azevedo, reunindo crônicas sobre a Fortaleza do final do século XIX e início do século XX.

Com as duas primeiras edições já esgotadas, ele deve ganhar uma nova tiragem pela Coleção Luz do Ceará, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult). A obra possui relatos sobre pessoas, pintores, intelectuais e sobre os espaços da Fortaleza da época, seus bairros. "O texto é o mesmo, mas vai sair em uma tiragem maior que as edições anteriores. Vamos prensar 1500 exemplares", explica Raymundo Netto, coordenador de Políticas do Livro e do Acervo da Secretaria da Cultura.

O livro será ainda ampliado com fotos do Arquivo Nirez e com pinturas do próprio Otacílio. "Porque ele é retratista. Se não fosse ele, não teríamos imagens de muitas dessas personalidades da época" justifica Netto. O lançamento está previsto para o dia 13 de abril, aniversário de Fortaleza.

Fábio Marques
Repórter