Música

Uma nova Alice Caymmi

A cantora Alice Caymmi se aproxima da linguagem do pop e questiona o preconceito com o gênero musical

00:00 · 13.01.2018
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Alice Caymmi experimenta novos sons em seu álbum "Alice", em que brinca com o romantismo e o pop, além de parcerias poderosas como Pabllo Vittar e Ana Carolina

Num café desses de franquia, na zona oeste de São Paulo, Alice Caymmi e sua equipe (mais duas pessoas) se encaixotam em uma mesinha pequena, para quatro pessoas, colada à fachada de vidro. Por lá, a reportagem e Alice iniciam a conversa sobre o terceiro álbum da carioca, cujo título traz apenas seu primeiro nome - sem o sobrenome famoso -, lançado pela Universal Music.

"Tudo começa na busca por um parceiro para ser meu produtor, como o Diogo Strausz em Rainha dos Raios", explica, ao citar o produtor do segundo disco dela, de 2014. "E foi uma busca grande. Eu trabalho com encontros, em duplas, com parcerias. Foi quando eu achei a Bárbara Ohana."

Bárbara é cantora - tem um disco (Dreamers, de 2015) e um EP (Your Armies, com uma música inédita e três remixes, lançado no ano passado) -, mas queria produzir um álbum de outra pessoa. "Tenho a minha personalidade, mas preciso criar um novo personagem para cada disco e essa pessoa (o produtor) me dá novos elementos para trabalhar, seja da personalidade dela, de sentimentos e de material psíquico para essa nova criação. É sempre o resultado dessa troca", diz Alice.

Ao longo dos 40 minutos de papo percebe-se uma recorrência no discurso de Alice Caymmi: "Faz sentido", dizia ela, com frequência. "Sentido", em si, foi citada 15 vezes durante a entrevista. Afinal, Alice, o disco, é isso: é fazer sentido aquilo que é Alice, a Caymmi, hoje.

Romantismo

É a partir dessa intenção que nasce Alice, um álbum cuja primeira brasa veio do desejo de cantar algo mais romântico, "mas em todos os sentidos", ela completa. "Que também tivesse o sentido duro e difícil do romance. Uma imagem mais densa do romantismo", explica.

A persona de Alice, o disco, está já na capa - e todo o sentido (olha só, a expressão pega, mesmo) do álbum já é escancarado ali. Há um coração em néon: "Falei para tentarmos aquele coração.

Colocamos e, pronto: fez sentido". A capa exibe o "Alice", também título do disco, a brilhar e enquanto o "Caymmi" é um letreiro apagado: "Nem me pergunte. Fez sentido".

O romantismo de Alice Caymmi não é raso no álbum, um trabalho também que a desconecta estética e tematicamente do estrondoso Rainha dos Raios. "Tinha muito do outro disco que, hoje, me suprimia", ela explica. Era uma claustrofobia violenta, conta a artista. "Comecei a tirar tudo, ueaaaah!", ela diz, agitando as mãos.

O pop

Com Bárbara Ohana, Alice passou a estudar o pop. "Mas, em vez de ir para um Ed Sheeran, eu ia para o (rapper) Kendrick Lamar ou Anti, aquele disco da Rihanna", relembra. Ela, que vem da escala musical árabe, passou a utilizar a mais popular escala pentatônica. Para as participações do disco, convocou Pabllo Vittar e Rincon Sapiência cantam Eu te Avisei e Inimigos, respectivamente. Ana Carolina assina com Alice a faixa Inocente, já lançada.

Os fãs indies-cabeça torceram o nariz para as participações. "É a primeira vez que vivo isso de existir uma expectativa para um disco", ela diz. "A linguagem pop não é uma lepra, não é uma doença. É uma linguagem. As pessoas já estão dizendo que estou me perdendo. Do quê? Estou cantando samba? Não estou cantando alguma coisa da minha família, blá-blá-blá, essa história toda. Do que vou me perder? Tenho vontade de dizer: 'Gente, vocês nem ouviram o disco ainda?' E se fosse uma ópera?", ela diz. Na pausa, é possível discernir Spending My Time do duo de pop-rock Roxette. "Que preguiça, sabe?", conclui.

*Com informações da Agência Estadão Conteúdo

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