Estreia

Um novo olhar

Filme 'Maria Madalena' chega aos cinemas com história de preconceito. Especialista diz que resgatar imagem de Maria Madalena é muito relevante

00:00 · 15.03.2018 / atualizado às 00:53 por Leonardo Volpato - Folhapress

Estreia nesta quinta-feira (15) nos cinemas brasileiros, em mais de 370 salas, o filme bíblico "Maria Madalena", dirigido por Garth Davis e que mostra a vida sofrida de Maria Madalena (Rooney Mara), considerada por séculos prostituta e pecadora. O longa joga luz sobre a história da personagem, que enfrentou preconceito, e tenta afastá-la de polêmicas.

Em 2016, o papa Francisco criou uma celebração para santa Maria Madalena, declarando 22 de julho o seu dia. Ela foi descrita como "um exemplo de verdadeira e autêntica evangelizadora", que anunciou "a boa notícia da ressurreição do Senhor".

O filme começa abordando a história de vida de uma das figuras mais enigmáticas da Bíblia. Maria Madalena contrariou a própria família, que queria lhe arranjar um casamento, para seguir próxima aos fieis e a Jesus, interpretado pelo ator Joaquin Phoenix -curiosamente, o astro é o namorado dela na vida real.

Na produção que chega aos cinemas, a relação entre Maria Madalena e Jesus é mostrada sempre com laços de amizade. Cristo é sempre retratado a partir do ponto de vista da protagonista, que, na época, sofria represálias por exercer liderança e demonstrar empoderamento feminino, tido pelos homens daquele tempo como comportamento não apropriado às mulheres.

Foi por isso que recebeu a alcunha de prostituta arrependida, estigma que seguiu com ela por muitos séculos. Na história, Madalena é acusada de ter demônios, o que faz com que outros apóstolos tentem tirá-la do caminho da peregrinação. Porém, ela segue firme e, fiel, fica ao lado de Jesus no momento de sua morte.

É a primeira testemunha da ressurreição.

Preconceito

Segundo historiadores e especialistas em religião, a figura de Maria Madalena, ainda nos dias de hoje, é julgada e sofre com preconceito, por conta de tudo o que sempre foi dito a respeito de sua vida. Nem mesmo a consideração do papa Francisco, em 2016, que a reconheceu como grande evangelizadora, foi capaz de melhorar sua imagem entre os católicos.

"Ela passou séculos sendo retratada como prostituta, pelo cinema e pela arte em geral. Em pinturas usavam as cores amarela e verde para simbolizar a vulgaridade dela. Então, filmes que tentam resgatar a imagem de Maria Madalena têm muita relevância no sentido de mudar a cabeça das pessoas", analisa Lidice Meyer Pinto Ribeiro, professora de antropologia do Mackenzie.

Para a historiadora, professora e pesquisadora Juliana Cavalcanti, a tensão sobre esse assunto ainda está latente nas igrejas.

"Se não houvesse uma preocupação até agora com relação a esclarecer a história dela, não faria sentido o lançamento de filmes e livros sobre o tema. A figura de Maria Madalena é cheia de força. E as pessoas só tendem a discutir o que as incomoda".

Feminismo

Apesar de ser mostrada como uma mulher forte e certa do que queria, Maria Madalena, de acordo com especialistas, não pode se considerada uma representante do feminismo ao pé na letra.

"O conceito feminista só surgiria no século 18. É o movimento iluminista que dá origem à crítica feminista. As mulheres da antiguidade são bons modelos para pensarmos nosso tempo presente, mas não podem ganhar esse filtro", diz a historiadora, professora e pesquisadora Juliana Cavalcanti.

A pesquisadora da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião Wilma Steagall De Tommaso concorda com a colega.

"Eu não encaixo a Maria Madalena nesse rótulo. Ela era apenas uma mulher que procurava sentido para a vida. E quando encontrou Jesus Cristo percebeu que era isso o que ela queria: segui-lo e ser fiel a Ele", enfatiza.

Mini entrevista com Joaquim Phoenix

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Tanto Rooney Mara, que interpreta o papel-título, quanto Joaquin Phoenix, que faz Jesus Cristo, afirmaram ter hesitado em aceitar a tarefa. "Fiquei com muito medo", contou a atriz. "Pensei: 'Meu Deus, será que realmente quero fazer isso?'. Mas tinha muita vontade de trabalhar com Garth novamente e sabia que ele faria um filme bonito, íntegro, autêntico e verdadeiro". Joaquin Phoenix começou a ler o roteiro, desistiu e, sob insistência do seu agente, resolveu tentar de novo. "Achei muito emocionante e percebi algo que não tinha notado da primeira vez. Era uma nova perspectiva sobre esse movimento que não tinha sido explorada, e isso me pareceu interessante. Conversei com Garth Davis, ele falou sobre projeção astral e decidi que tinha de trabalhar com ele".

O filme contrapõe a visão de que uma revolução vai trazer à Terra o reino do céu e a de que o reino do céu está em cada um. Acredita em qual versão?

Na última. Muitas vezes, nas práticas religiosas ou espirituais, colocamos o esforço no lugar errado. O que vai acontecer no futuro, a ideia de ir para o céu ou encontrar iluminação. Vou me retirar por cinco anos, meditar e só depois serei iluminado. A verdade é que a cada momento de cada dia se tem a oportunidade. Ser iluminado é estar disposto a trabalhar na sua vida e tentar ser a pessoa mais amável e atenciosa possível. Não se trata de ficar zen.

Como ator, você é capaz de atingir milhões de pessoas. É algo poderoso poder compartilhar esperança com o mundo. O que pensa disso?

Às vezes, quero dizer algo para as pessoas, mas outras é apenas uma jornada pessoal para mim. Eu não gosto muito dos filmes que ficam pregando sua mensagem. Normalmente, sigo minha inspiração e escolho algo que me emociona, esperando que outras pessoas também sejam afetadas. Mas não estou na posição de dizer a ninguém como viver sua vida. Não é meu papel ensinar nada. Mas tenho essas experiências, coisas que me interessam, e espero que elas inspirem outros a ver de maneira diferente algo que achavam saber ou conhecer.

Então, não tem a intenção de ser um profeta como aquele que interpreta no filme?

Pô, claro que não! (brinca, fingindo benzer).

*As informações são da agência Estadão Conteúdo

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