Música

Sobrevida do rock

Pesquisa aponta que atualmente o rock é o quinto gênero ouvido no serviço de streaming no Brasil. Atrás do sertanejo, gospel, pop e samba/pagode

00:00 · 14.07.2018 por Cris Veronez e Leandro Vieira - Folhapress
Tico Santa Cruz
Com 21 anos anos de carreira ao lado do Detonautas, Tico Santa Cruz amplia tema adotado uma postura mais versátil em relação a outros gêneros musicais

O rock está passando por um momento difícil, mas vai se recuperar - É assim que Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas Roque Clube, avalia o momento do rock no cenário musical atual, no Brasil e em todo o mundo.

Em pesquisa encomendada pelo F5 da Folha de S.Paulo ao serviço de streaming Deezer confirma a percepção do cantor: rock, atualmente, é o quinto canal de gênero musical mais acessado na plataforma, atrás de sertanejo, gospel, pop e samba/pagode.

Considerando os dez países com maior número de streams, o Brasil fica em oitavo lugar quando se fala em rock. Canadá vem em primeiro, seguido de Reino Unido, Estados Unidos, Espanha, México, França e Holanda. Depois dos brasileiros estão os colombianos e alemães. Porém, se refinarmos a busca por metal em vez de Rock, o Brasil avança para a quinta posição.

O serviço também analisou as 200 músicas mais ouvidas em 2018 e constatou que 43% delas são do gênero sertanejo e 21% de funk. O rock ficou com uma fatia de apenas 4% no ranking. Entre as cinco canções de rock mais ouvidas, há apenas uma nacional: "Tempo Perdido", da banda Legião Urbana.

"Tem muitas bandas legais que não conseguem espaço nas grandes mídias e atenção nas redes sociais, porque a linguagem mudou e muita gente ainda não se adaptou a essa realidade", afirma Tico.

Protagonismo

O artista, no entanto, continua esperançoso. Diz acreditar que o gênero encontrará uma forma de voltar a ser atraente para jovens.

"Para isso acontecer, muita gente terá que entender que o rock não é e nunca foi um estilo careta e conservador, como vem se comportando atualmente. Espero que esse estalo se dê com mais rapidez, ou seremos reduzidos a menos dos 3% do mercado que possuímos hoje", diz.

Com 21 anos de carreira ao lado dos Detonautas, Tico tem adotado uma postura mais versátil em relação a outros gêneros musicais.

A banda, inclusive, resolveu dividir o microfone com o cantor Lucas Lucco recentemente. Eles lançaram o clipe "Por Onde Você Anda", canção do álbum VI (2017), do DRC, na quarta-feira (11).

A parceria pegou muitos fãs de surpresa, mas Tico garante que o feedback do público foi majoritariamente positivo. Diz também que a banda tem mais afinidades com o cantor sertanejo do que imaginava ter.

A quinta faixa do álbum VI, intitulada "Brother", é um exemplo da atual fase do Detonautas. A canção sugere que as pessoas podem discordar sem criar inimizade, e que essa é uma forma de fortalecer a democracia.

Talvez seja um reflexo do aprendizado que a banda teve nesse tempo de carreira.

Cautela

Tico, por exemplo, afirma que é uma pessoa menos impulsiva do que antes. O discurso político, muitas vezes em tom ácido, ainda permeia suas redes sociais e apresentações da banda, mas ele afirma ter mais cautela.

"Sou uma pessoa que se posiciona na internet, mas a minha posição particular não é a posição do Detonautas. Claro que o Detonautas compartilha de algumas coisas, mas a gente nunca usa o palco como palanque para fazer discurso. Já usamos. Mas entendemos que ali não é o lugar para fazer isso. Pode até pontuar uma coisa ou outra, mas não como antes", diz.

Ele também relembra um episódio ocorrido em 2005 quando fez um discurso de 15 minutos no palco.

"Era uma época em que as pessoas nem estavam ligadas nessa discussão política. Sempre fomos uma banda engajada politicamente, do ponto de vista de se falar das questões sociais e políticas, mas por outro lado a gente percebeu num dado momento que por meio da própria música a gente poderia dar o toque sem sermos chatos".

O posicionamento do vocalista divide opiniões. A reação do público vai de um extremo a outro: há quem o venere e há quem o crucifique. Os comentários agressivos, no entanto, dificilmente são feitos cara a cara. "As pessoas confiam muito no anonimato e na impunidade ao cometer crimes de calúnia, difamação e injúria pela internet. A música 'Brother' é um convite a essas pessoas. Elas têm que perceber que o mundo mudou", pontua.

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