Especial

Rebeldes com causa

00:04 · 10.09.2012
As lutas mudaram, a forma de reivindicar também, mas o que não muda é o espírito rebelde da juventude. O Zoeira conversou com jovens que fazem protesto e se posicionam por causa coletivas

Foi a partir de uma experiência pessoal transformadora que Lician Falcão, 31 anos, decidiu que tinha que fazer mais por outras mulheres. Com o filho Samuel, de 1 ano e 1 mês, aconchegado em seu peito, essa mãe tem mais força para lutar pela humanização do parto. E é na companhia do pequeno e do marido, que ela foi às marchas que alertaram para a necessidade da humanização do parto e levantaram a questão da autonomia da mulher na escolha de como deseja ter o seu filho.

Marina Carleial reivindica pela Cultura FOTO: Marília Camelo

A funcionária pública ainda morava no Acre quando descobriu a gravidez e, como algumas intervenções que aconteciam no parto normal a incomodavam, resolveu pesquisar. "Queria um parto normal, mas não queria alguns procedimentos, como o a episiotomia (corte cirúrgico feito no períneo). Aí fui descobrindo que algumas intervenções ditas de rotina não eram necessárias. Queria ter esse momento como eu desejava, que respeitassem minhas escolhas".

Quando se mudou para Fortaleza, Lician procurou uma equipe médica que trabalhasse com parto humanizado, descobriu o Ishtar (Grupo de apoio à gestante e ao parto ativo) e passou a trocar experiências e informações com outras mulheres que tinham a mesma vontade.

Como a médica que faria seu parto no hospital do jeito que a gestante queria estaria viajando no período em que Samuel deveria nascer, ela teve arranjou um plano B. Foi aí que ela encontrou a enfermeira Semírames e a doula Kelly que deram tanta segurança que se tornaram o plano A.

"Acabei fazendo meu parto em casa. Foi demorado, mas não teve risco. Foi do jeito que eu queria. Eu me empoderei e trouxe a responsabilidade para mim. O parto me transformou. Hoje levanto a bandeira da humanização do parto porque vivi uma experiência maravilhosa e acho que outras mulheres podem vivê-la também", argumenta.

Hoje, Lician participa das reuniões mensais do Ishtar, ajuda na organização das ações, participa das manifestações e, claro, divulga o parto humanizado e o grupo sempre que tem uma oportunidade. A ação que mais chamou a atenção foi a Marcha do Parto em Casa, que aconteceu em julho em diversas capitais. Uma resposta ao Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro que queria punir o médico Jorge Kuhn, que deu entrevista ao "Fantástico" defendendo o parto domiciliar.

"A ação do CREMERJ foi um tiro que saiu pela culatra porque deu ainda mais repercussão sobre o assunto. A mídia passou a falar desse movimento que já existe há 15 anos. E continuaremos a fazer nosso trabalho. É um trabalho de formiguinha, mas que já está ganhando forma".

Apoio da sociedade

Os resultados até podem demorar, mas quando o movimento ganha corpo e apoio da sociedade faz um barulho grande que é impossível até o poder público ficar imune. Foi o que aconteceu, recentemente, com os Movimentos da Cultura.

A artista de dança Marina Carleial, 31 anos, está engajada na luta pela cultura há alguns anos. "Acho a dança muito política. É uma linguagem que está bem articulada. Quando se é artista, tem que se colocar politicamente porque está ligada diretamente a isso. Acabamos sendo alvo das políticas públicas", justifica ela que, desde 2003, assumiu a vice-presidência da ProDança (Associação de Bailarinos Coreógrafos e Professores de Dança do Ceará).

Engajada, ela reconhece que é importante colaborar nas conquistas coletivas. E descobriu a força do coletivo, justamente, quando estava no Colégio de Dança, em 2001, e participou do movimento pelo Dia D de Dança.

"Todo ano a gente se reúne e faz reivindicações e pontuamos o que pode melhorar". Ela também participou da primeira reunião da criação da Pró-Dança e, agora, também é membro do MAR (Movimento Arte Resistência).

Reunião de artistas

"O MAR é um grupo de artistas que se reuniu para reivindicar uma cultura mais bem cuidada, planejada e executada. Somos artistas de várias linguagens que estávamos insatisfeitos", conta Marina.

As ações do grupo ganharam força primeiro entre a categoria artística e depois foi ganhando apoio da sociedade, principalmente, nas redes sociais.

O MAR fazia o "Twittato" - ação que convidava todo mundo para postar frases. A que ganhou mais destaque foi "DeCIDa pela Cultura" - e começou uma corrente de postagens de fotos com cartazes de protestos no Facebook. "O movimento começou pelo Facebook e ganhou uma dimensão muito maior do que esperávamos. Tinha gente que morava fora do Ceará e que também postou em solidariedade. Depois, o pessoal se movimentou e ocupamos a Praça do Ferreira. Fizemos um documento com as principais reivindicações de artistas de várias linguagens", explica.

"Lutamos para que o Curso Técnico de Dança não tenha mais problema com repasse de verbas e não haja ameaça de deixar de funcionar. Para que o Festival do Litoral Oeste aconteça, vira e mexe, a gente tem que brigar. A sensação é que é uma luta retroativa. A gente não avança, fica tentando manter o que um dia foi conquistado. Poderíamos estar usando essa energia para criar, fazer cursos, circular. Mas desperdiçamos essa energia", reflete.

O fato é que depois do barulho, o governador Cid Gomes anunciou, na última quarta (dia 5), o tão aguardado pacote de investimentos, aproximadamente R$ 118 milhões, para a área da cultura, apelidado de "Virada Cultural".

Cid assumiu sua "mea culpa" e anunciou o novo diretor do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, concurso público da Secult, reforma de equipamentos culturais, abertura de oito editais, além da criação de cursos técnico-profissionalizantes em escolas estaduais. Uma vitória e incentivo para continuar a luta.

Direito dos animais

Outro incentivo para quem se dedica a luta pelo coletivo são os pequenos resultados. Para a estudante de Jornalismo Julihana Cordeiro, 24 anos, ver a recuperação de um animal resgatado da rua e adotado é uma emoção pela qual vale a pena seu trabalho.

Julihana Cordeiro se dedica à luta pelos direitos dos animais FOTO: WALESKA SANTIAGO

Há cerca de 1 ano e 2 meses, ela resolveu fazer mais pelos bichos abandonados. Começou indo a feiras de adoção organizadas pela UPAC (União Protetora dos Animais Carentes) e, em dois meses, participou de um processo seletivo para se tornar voluntária efetiva.

Juntou o que aprendia no Curso de Comunicação e levou para o setor de Marketing da organização. Agora, já participa do setor de eventos e busca novas parcerias. Para isso, é preciso muita disciplina por causa do tempo. "Estudo de manhã, estagio à tarde e, quando chego em casa, vou resolver as coisas da Upac, alimentar Facebook, responder e-mails, pensar projetos", elenca ela que agora também ajuda nos abrigos limpando os terrenos, banhando, medicando e acompanhando a evolução dos animais.

"Sempre me sensibilizei muito com os animais abandonados. É muito cruel a forma que lidam com eles. Queria ajudar de alguma forma. Quando fui ficando mais próxima da UPAC, vi que podia fazer um trabalho mais efetivo lá dentro", reconhece a universitária.

E, por mais que o corre corre da vida seja grande e, muitas vezes, apareçam obstáculos no caminho, Julihana acredita que é preciso pensar no bem comum e continuar. "Quero mais e mais ajudar. A vida coloca muito contratempos, mas vale a pena. Por eles, vale. É preciso ter paciência e celebrar as pequenas vitórias", ensina.

Desde que começou seu trabalho a favor dos animais, viu a rede de voluntários da ONG crescer, presenciou também vários animais serem adotados depois de superar tragédias e isso a fez ganhar mais ânimo. "Sei que isso é só um pouquinho, mas me emociona muito", completa.

Mais informações

Ishtar

www.ishtarfortaleza.blogspot.com

UPAC

www.upacfortaleza.wordpress.com

MAR

www. movimentoarteeresistencia.wordpress.com/

REPÓRTER
KARINE ZARANZA

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