Rap

Poeta de um mundo anárquico

Rapper carioca Filipe Ret apresenta canções dos seus três discos em show neste sábado na Praia do Futuro. Ele fala ao Zoeira que seu trabalho dialoga cada vez mais com outros ritmos musicais

Filipe Ret diz que não se limita ao rap e que tenta se aprimorar a cada álbum, em busca de uma poesia suburbana autêntica ( Foto: Elias Azevedo )
00:00 · 17.02.2017 por Sérgio Ripardo - Repórter

Em "Neurótico de Guerra", o rapper carioca Filipe Ret manda a real: "Pisando na grama, roubando rosas, as melhores ideias são as perigosas. Se acomode ou se incomode, a fé não vale de nada para a mente preguiçosa. Eles querem o bem, eu quero a verdade". No clipe dessa canção do seu segundo disco ("Vivaz", 2012), ele aparece com a galera "dichavando" (preparando) um baseado, soltando fumaça pela boca e puxando pelo nariz.

No show que fará, neste sábado, na Praia do Futuro, "Neurótico de Guerra" será um dos principais momentos de seu repertório, ao lado de "Invicto" e "Chefe do Crime Perfeito", ambas do último álbum, "Revel" (2015).

Em conversa com o Zoeira, o rapper se considera um "poeta suburbano" ou "um pensador de boteco", que tem como influências artísticas nomes como Marcelo D2, Racionais MC, O Rappa e Charlie Brow Jr., entre outros. Sua opinião sobre o atual debate na sociedade sobre a legalização do comércio de drogas eleva a polêmica ao quadrado.

"Eu sou a favor da descriminalização de todas as drogas, não só da maconha", revela Ret, de 31 anos, formado em comunicação social e que ganhou, nos últimos anos, destaque na cena rapper com a gravadora independente TuduBom e Skol Music.

Ele contextualiza essa discussão sobre drogas citando os últimos capítulos do tema no mundo, como a liberação do cultivo no Uruguai e em alguns pontos nos EUA.

"A arrecadação de impostos com a maconha está salvando muitos Estados. Mas aqui há interesses escusos em manter a morte dos jovens nas favelas e a lavagem de dinheiro por gente que está lá em cima", critica o rapper, que já foi parado em blitz na estrada para revista de drogas. "Se tiver que ser preso, eu vou".

Trap

Apesar das referências explícitas à maconha em suas letras e clipes, o rapper diz que o assunto não é o carro-chefe. O show também abre espaço para improvisos e até baladas românticas, como a "Livre e Triste", com voz e violão.

Ele se apresenta com uma banda formada por um guitarrista, baterista e baixista.

Ret também busca dialogar com outros ritmos musicais, incorporando sonoridades de gêneros emergentes, como o trap (uma variação do hip hop) e a batida básica do funk, o tamborzão.

"O trap veio para ficar. É uma fórmula antiga do Miami Bass que se transformou em um gênero. Adoro trap".

Essa fusão com o funk não se limita ao som. O visual de MC está no cabelo descolorido do rapper.

"Eu não consumo só rap. Sou mais bem recebido pelos funkeiros do que no mundo do rap, onde sou visto como um concorrente", polemiza.

Proibidão

O cantor e compositor diz que foi frequentador de "bailes de favela" nas comunidades cariocas e que cresceu ouvindo "proibidão", funk mais agressivo, com relatos mais crus sobre a vida na periferia.

"O rap é meu trilho, mas eu não me limito ao rap. Vou passando por vários caminhos", observa o rapper.

Com três discos na bagagem, Ret diz que se aprimora a cada álbum, desde "Numa Margem Distante", de 2009. "A ousadia é maior no último disco. Sei onde posso chegar. Essa porra é arte, é música", afirma o rapper, em referência ao disco "Revel".

Filosofia

Fã da filosofia, o cantor parou de atualizar seu blog ("Máximas Retianas"), em que publicava aforismos.

"Com as redes sociais, o blog ficou obsoleto. Não exponho mais minhas ideias, por uma questão de estratégia. Se posto, vem um MC e rouba e faz uma música com minha ideia. Aí me fode", conta.

Ele está ciente de seu poder de influência. "Meu papo é reto. A molecada acaba se identificando".

Mais informações

Show de Filipe Ret

Sábado (18), na Barraca Biruta (Av. Zezé Diogo, 4111, Antonio Diogo). Ingresso: R$ 30 (pista), R$ 50 (front) e R$ 70 (camarote). (98687.5689)

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