O que os jovens querem? - Zoeira - Diário do Nordeste

Especial

O que os jovens querem?

04.08.2013

Os ventos são de mudança no País e muitos questionam: o que os jovens de hoje pensam sobre política, liberdade, sociedade? O que querem? Confira a opinião de alguns deles sobre o tema em entrevista ao Zoeira

Décadas atrás, a juventude era considerada uma transição para a vida adulta. Casava-se e tinha-se filhos cedo, o trabalho era o sustento da família. Porém, como o espírito revolucionário sempre esteve presente entre os jovens, os movimentos contestatórios nunca deixaram de existir. Basta lembrar da geração de 1960, com sua revolução sexual e política.

Valéria Pinheiro participa ativamente da política no Estado desde a faculdade Foto: Kléber A. Gonçalves

Algumas gerações depois, muito mudou. A luta é outra. As motivações também. Os jovens estão mais preocupados com o futuro profissional. Casamento e filhos ficam para depois. Embora mais individualistas, de modo geral, a preocupação com o meio ambiente aumentou, em uma atuação política voltada para o social e menos partidária.

"Somos seres essencialmente políticos, e ainda custo a entender quem consegue viver alheio aos grandes debates e ações do nosso tempo", declara Valéria Pinheiro, formada em direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC), mestranda em planejamento urbano e regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atuante política há mais de 10 anos.

A insatisfação com a administração do País, acumulada ao longo dos anos, explodiu nos últimos dois meses e tomou as ruas de forma nunca antes vista. O agregação das massas possibilitada pela rapidez da Internet levou ao fenômeno social no qual a juventude saiu para protestar sem liderança definida, mas com reivindicações diversas, que vão desde a educação até melhorias no transporte público.

"É tudo bastante novo e recente e ainda vai demorar um tempo para conseguirmos compreender o alcance disso. Mas é inegável que os atos já surtiram efeito tanto no plano institucional quanto no viver cotidiano", opina Valéria, para quem as pessoas parecem mais atentas e menos receosas do encontro com o outro.

Segundo ela, embora cada perfil social de jovem tenha sua demanda e que a maioria tenha se manifestado pela primeira vez, é importante notar que a efervescência repentina foi empolgante. "Em comum, eles carregavam, além da bandeira do Brasil, a cara pintada e o hino na ponta da língua, um distanciamento/desconhecimento dos movimentos sociais ali presentes, em repúdio a partidos políticos e ações diretas".

Ainda assim, ela destaca os efeitos "negativos" da onda de mobilizações, como o aumento dos discursos racistas, homofóbicos e machistas por parte de alguns indivíduos mais alheios às verdadeiras motivações.

Rafael Caneca está sempre bem informado e tenta construir diariamente o País do futuro Foto: Bruno Gomes

Livres?

O servidor público estadual, Rafael Caneca, 28, considera que o primeiro passo para a mudança já foi dado e que a participação da juventude foi bastante positiva, ainda que sem muita organização e, por isso levando a alguns desvios de conduta.

A liberdade é um tanto paradoxal para essa geração. Ainda há muito pelo que se lutar, seja pelos direitos igualitários aos casais de mesmo sexo, seja pelo respeito à mulher ou pela transparência política. A diferença, Rafael considera, é que hoje se pode demonstrar mais facilmente essa insatisfação em um País teoricamente democrático.

"Ao mesmo tempo em que existe maior acesso à informação e, em tese, maior liberdade de expressão e conduta, não estamos livres para irmos aonde quisermos, principalmente por conta da insegurança. Esse é outro problema", completa.

Além disso, ele cita o consumismo exacerbado, que atinge uma grande parcela da sociedade, como outra "prisão" da mesma.

Para o estudante de História da Universidade Estadual do Ceará, Thiago Nobre, 24, essa geração é sim mais individualista e competitiva. "Somos filhos do capitalismo. Isso é natural. Desde crianças somos sempre expostos à ideia de que temos que nos dar bem, mas acho que o mundo pode ser um lugar melhor para todos se quisermos e aceitarmos o diferente".

A pressão social é um dos componentes para que cresça a exigência profissional. Ser o melhor, ganhar bem, optar por certas carreiras ou pela estabilidade de um concurso público, está sempre acompanhando os jovens. "O sonho de riqueza é posto na gente desde a infância. Para a minha vida, em grau de importância, eu sinceramente fico dividido entre a família e a carreira profissional", confessa Thiago, que acredita que os jovens ainda querem sim formar família, só estão demorando mais, uma vez que se procura primeiramente uma estabilidade financeira.

"Nossos pais eram muito corajosos. Saiam de casa para formar uma família aos 20 e poucos anos, às vezes em emprego estável. Imagine você, tenho 24 e só estou começando a minha carreira acadêmica. Nem passa pela minha cabeça agora casar e ter filhos. Quem sabe um dia..."

Thiago Nobre, assim como grande parte dos jovens brasileiros, deseja, acima de tudo, crescer profissionalmente Foto: Arquivo pessoal

Futuro

Thiago também esteve presente em algumas das manifestações ocorridas em Fortaleza e participa também de um grupo de cicloativistas, e se diz surpreso, de forma positiva, com as recentes movimentações.

"Crescemos ouvindo nossos pais reclamarem sobre a corrupção e a grande maioria não fez nada, mantendo o pensamento de que ´é assim mesmo´. A desigualdade no Brasil é enorme e descobrimos nossa força social".

Na História, afirma o estudante, há regressos e há inércias também, por isso é necessário que se lute pelo progresso. Alguns posicionamentos religiosos, sociais e políticos relacionados à homoafetividade e às várias questões da mulher, fazem parte desses momentos de estagnação.

Como mulher, Valéria afirma que as questões femininas hoje são outras, menos ligadas à dimensão doméstica e mais a condições objetivas como salários inferiores e desrespeito sexual e físico. "Ações diretas são importantes para obrigarem a sociedade a se deparar com o que tem de mais atrasado e opressor", observa.

A advogada considera importante ter um olhar mais cuidadoso para pequenas tentativas de construir um novo modelo de vida em comum e reformar o modo de conviver com o meio ambiente e com os outros seres humanos, envolvendo a juventude nesse processo educativo.

Diferentes planos

Objetivo de todo ser humano, a felicidade, é variável e conseguida através de fatores distintos. Sempre inconformados, revemos nossos sonhos e objetivos diariamente, até porque todos somos particularmente diferentes.

Para Thiago, almejar a carreira como um professor universitário é o que o move. E família e amigos lhe dão força para isso.

Rafael considera que construir um bom futuro para seus filhos é seu grande sonho de vida. Já Valéria, deseja, acima de tudo, ter um trabalho útil para o mundo, mas que a faça feliz e que não a impeça de ter família e amigos sempre por perto.

"Espero que no futuro, a gente não permita retrocessos e saiba utilizar essa profusão de informações sabiamente; que a gente respeite o planeta e que melhore enquanto humanos", conclui Valéria.

ANAMÉLIA SAMPAIO
REPÓRTER

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