Especial

Feitos por mulheres

Eventos em Fortaleza mostram a força das mulheres que organizam espaços para explorar a cidade, conhecer a história feminina e valorizar o trabalho realizado por outras 'manas'

00:00 · 15.09.2018
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O Pedal das Minas tem como uma das propostas incentivar a ocupação da cidade por mulheres
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A feira mana a mana reúne diversas mulheres que fazem trabalhos que têm o cuidado manual como essência ( Foto: Jamille Queiroz )

Contar com apoio para diversas questões na vida é um ponto essencial para muita gente. E quando mulheres resolvem ajudar outras mulheres? O resultado, claro, promete ser grandioso e empoderador.

Desde o incentivo ao empreendedorismo, ao esporte ou a diversas outras atividades, em Fortaleza têm se multiplicado a quantidade de eventos nos quais as mulheres lideram e abrem portas para que outras participem.

É o caso do Pedal das Minas e da Feira Mana a Mana. O primeiro, organizado pelo movimento nacional Bike Anjo, conhecido por incentivar a mobilidade com a bicicleta, deve passar por diversos lugares da Capital que foram importantes para a resistência e a história feminina por aqui. O evento é gratuito e, para participar, bastar se unir ao grupo com sua bicicleta.

Enquanto isso, a Feira Mana a Mana, que reúne mulheres que produzem com as mãos, chega a mais uma edição e traz uma programação especial para este sábado (15), com a presença de várias produtoras locais.

Millena Cavalcante, uma das idealizadoras da Mana a Mana, conta que a ideia inicial do evento veio da vontade de valorizar o trabalho da própria mãe.

"Eu cresci vendo minha mãe fazendo crochê e eu via que o trabalho artesanal não era valorizado. Eu queria encontrar uma maneira de que ela fosse reconhecida pelo trabalho dela e fiquei pensando", comenta ela.

A partir daí, surgiram as conversas com outras amigas para tornar a ideia uma realidade. "Eu me juntei com uma mana do bordado, outra da cerâmica, outra tatuadora e outra do macramê. Então, éramos cinco de início, criamos a feira e fomos chamando outras manas", explica.

Força feminina

Em relação a como as mulheres podem se ajudar dentro dos mais diversos cenários, Millena, do Mana a Mana, acredita que a intenção é justamente proporcionar uma maior visibilidade a essas artesãs locais.

"Isso fortalece nosso grupo. A gente conversa, faz parcerias e não só o empreendedorismo, mas sobre tudo. Acho que acaba sendo um espaço superimportante e, acima de tudo, necessário", diz.

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Para Millena, eventos como estes fazem as mulheres enxergarem que não estão sozinhas, mas que contam com o apoio de quem já passou pelas mesmas dificuldades e ainda espera por mudanças em uma sociedade que continua tão machista.

Ela também conta que a receptividade à feira tem sido cada vez mais crescente. Por meio dos discursos divulgados pelas organizadoras e pelas imagens, os comentários têm sido sempre bem positivos e que elogiam a iniciativa.

"Eu acho que a gente consegue transbordar, transparecer o que é a nossa proposta. E a gente é muito feliz com tudo que recebe de bom de quem admira", acrescenta.

De bike ela vai

Na segunda edição do Pedal das Minas, a proposta é incentivar a ocupação da cidade pelas mulheres como parte da programação do Mês da Mobilidade, ação também promovida pelo Bike Anjo. Em março deste ano, a comunidade promoveu o passeio ciclístico em comemoração ao Dia da Mulher.

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Sem batedores, a ideia central do evento é promover um ambiente de inclusão em que as mulheres se sintam seguras para fazer atividades básicas, que não deveriam ser temidas, como o simples fato de ir ao trabalho de bicicleta.

"É uma forma de chamar atenção pros problemas que temos hoje, que as mulheres juntas podem fazer muito mais", afirma Aline Montenegro, uma das organizadoras do evento.

A rota parte da Estátua de Iracema Guardiã, passando pela Casa das Feministas (onde mulheres se reúnem para organizar militâncias), Forte Nossa Senhora da Assunção (local em que Bárbara de Alencar ficou presa), Escola Normal (que conta a história de várias gerações femininas), e outros pontos.

O roteiro foi organizado pela engenheira civil, técnica de trânsito e socióloga Marilia Paiva, que também será a guia do passeio.

"Os pontos foram escolhidos por representarem a história da mulher em Fortaleza, a gente quer realmente trazer nesse pedal um pouquinho da nossa história", explica a voluntária.

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Frente a esses desafios enfrentados na mobilidade urbana, em 2016, a engenheira Haydée Svab publicou o estudo "Evolução dos padrões de deslocamento na região metropolitana de São Paulo: a necessidade de uma análise de gênero".

A pesquisa concluiu que desde os anos 2000 as mulheres são maioria no uso do transporte público, mas que a mobilidade desse grupo é prejudicada pela falta de planejamento urbano. Recortando para a realidade local, 1.183 ciclistas se acidentaram na cidade em 2017.

"Hoje além de cobrar nossos direitos, é muito difícil essa sociedade machista estar aberta pra falar as coisas e acabamos aceitando algumas situações, tentar sair um pouquinho da nossa acomodação e ocupar nosso espaço que é de direito", reforça.

Tanto em um evento como no outro fica a sensação da força da sororidade, ou seja, a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo.

Mais informações

Feira Mana a Mana

Sábado (15), das 16h às 21h, no Vila Naturalis (Avenida Santos Dumont, 840, Aldeota). Grátis.

Pedal das Minas

Sábado (15), a partir de 15h, saindo da Estátua Iracema Guardiã ( Av. Beira Mar, 1140, Meireles). Grátis.

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