Especial

Fantasia e realidade

02:43 · 03.08.2009
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´Alice no país das maravilhas´ (1865), de Lewis Carrol, continua a encantar pessoas por todo mundo. Em Fortaleza, duas peças apresentam diversas ´Alices´ possíveis

Ardendo de curiosidade, ela correu pelo campo atrás dele, a tempo de vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo da cerca. No mesmo instante, Alice entrou, sem pensar como faria para sair dali´. O trecho da obra de Lewis Carrol se repete todos os dias com milhares de pessoas no mundo. Mudam os personagens, o cenário, mas a busca pelo desconhecido guia e é capaz de promover mudanças para o resto da vida.

Assim também começou esta matéria, depois da sugestão de um colega de profissão, decidimos desvendar o perfil de atrizes cearenses que, ao interpretarem Alice, vivem entre a fantasia e a realidade dentro e fora dos palcos. Então, seguindo a orientação de Lewis Carrol: ´Comece pelo começo, siga até chegar ao fim e então, pare´, encontramos as sete atrizes de ´Alice - nem tudo que parece é´, do Curso de Princípios Básicos de Teatro, momentos antes de uma apresentação no Theatro José de Alencar.

A estudante de Psicologia Marisa Carvajo, 23 anos, interpreta Alice enquanto criança entediada e que tenta fugir da realidade. Em seguida, a analista de RH, Denice Cardoso, 27 anos, é a primeira no mundo fantasioso. No decorrer do espetáculo, a administradora Cynthia Brito, 26; a assistente comercial, Darlene Serra, 25; a operadora de telemarketing, Daniele Alves, 25; a estudante de Artes Cênicas, Madya Machado, 21 e a professora de Literatura, Antônia Cavalcante, 53 assumem o papel principal e provam o sabor de ser Alice.

´Quando eu era criança, ´Alice´ era minha obra preferida. E, hoje vivo uma Alice mais velha, adulta e perdida e compreendo como é importante aprender com os erros´, diz Antônia. ´Também fazemos uma reflexão sobre os buracos que a gente entra e as coisas que deixa para trás´, completa Marisa, que destaca o quanto Alice promove a reflexão sobre conviver com as diferenças.

Madya explica que ao se reunir com o grupo para escrever o roteiro da peça, a idéia foi pensar como são as Alices atuais, sem perder o componente lúdico. ´Por isso, objetos do cotidiano, como cadeiras, escadas, também ganham vida e um novo sentido´, diz Madya.

Para Darlene, viver Alice significa viajar e acreditar nessa viagem. ´Imaginar e experimentar emoções paradoxais, confusões deliciosas´, diz a assistente comercial e atriz, que considera a queda no buraco do coelho o momento mais interessante da história de Lewis Carrol. ´A partir disso ela consegue ver tudo diferente do que realmente é´, completa.

Darlene conta ainda que se identifica profundamente com a história fantástica de Alice. ´Sinto que nós precisamos desse alimento que é a imaginação de forma expressa e positiva em meio a essa realidade do mundo em que vivemos´.

Marisa reflete também sobre as formas de escapar ou suportar a realidade com suas perdas e ganhos. ´Estamos presos em uma realidade que nunca é o que desejamos ao certo; para fugir disto, fugimos, através da fantasia (que foi perdida ao crescermos) e a buscamos na forma de filmes, música, drogas, arte. Nem sempre somos felizes com a forma de fantasia que encontramos´, afirma.

No mundo virtual

Outra saída bem atual seria o mundo virtual. Neste sentido, a Alice, interpretada pela atriz e terapeuta holística, Tamara Larripa, 24 anos, é uma criança que mora numa cidade grande e sua família tem medo da violência. Por isso, ela acaba conversando com os eletrodomésticos até que o computador lhe apresenta o mundo cibernético.

Com algumas restrições acerca da obra original, Tamara confessa que as alusões às ´alucinações´ (leia-se drogas) divergem e sua filosofia de vida e de trabalho.

´Enquanto educadora, me preocupo muito com o tipo de mensagem que está sendo passada, explícita ou implicitamente. Por isso, prefiro me apegar à idéia de que as crianças são fontes inesgotáveis de criatividade e com sua curiosidade vão descobrindo o mundo e amadurecendo com as experiências, tendo como apoio indispensável para isso os pais e educadores´, declara.

O filme

´Alice no país das maravilhas´, o novo filme do diretor Tim Burton, que tem estréia prevista para 2010, já é um dos filmes mais aguardados. No longa, Mia Wasikowska interpreta Alice. O elenco conta ainda com Anne Hathaway como a Rainha Branca, Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco e Helena Bonham Carter como a Rainha Vermelha.

Produzido pela Disney, o longa vai misturar animação e atores e será exibido em 3D, o diretor disse em entrevista recente que nenhum filme conseguiu traduzir a história de fato. ´Mesmo que os livros e as histórias sejam icônicos, nunca senti que houve um filme, que realmente se fez um filme, traduzido da história para a cinematografia. Então essa é a tentativa´, disse.

Agora, enquanto o longa não estréia, vale embarcar na viagem fantástica do espetáculo ´Alice e o País das Maravilhas´, da Cia. Plural que continua em cartaz neste mês.

Mais informações:
´Alice e o País das Maravilhas´ segue em cartaz, sábados e domingos, no Teatro do Sesc Emiliano Queiroz. (3452.9090).

´Alice - Nem tudo que parece é´. Informações sobre as próximas apresentações: 8767.1578.


Izakeline Ribeiro
Repórter

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