OPINIÃO

DFB: O que eles pensam

Nos bastidores do festival, alguns estilistas falaram ao Zoeira sobre os rumos da moda

Estilistas Lindebergue Fernandes, Rebeca Sampaio e David Lee ( Fotos: JL Rosa, Helene Santos e Reinaldo Jorge )
00:00 · 18.05.2018

Como você trabalha a questão da sustentabilidade na moda?

Lindebergue: A gente chegou num momento que precisamos falar de sustentabilidade. O planeta precisa disso, pois a gente necessita do planeta e a moda é um veículo para isso, ela é uma rua de manifesto. É preciso ter este olhar para sustentabilidade.

Rebeca: Cada vez mais a gente vai dá valor para isso, pois temos que cuidar deste mundo que vivemos. E por muito tempo a moda ficou meio esquecida, meio superficial, que não se preocupava com nada, só com a estética. E de uns tempos para cá eu acho que não tempo para onde fugir e seria burrice fugir disso. As marcas têm procurado por matérias-primas mais sustentáveis e a utilização do upcycling. A proposta da Osklen é muito interessante e eles estão à frente, assim como outras marcas. Como exemplo ainda cito a top Gisele Bündchen que usou um vestido todo de tecido biodegradável no baile de gala do MET. A moda vai caminhando para isso sim, tecnologia de tecido e de aproveitamento. Acho que a gente não está ainda aonde podemos chegar. No meu caso, que trabalho muito com o couro, o restante dele faço os acessórios. Estou pensando como posso cada vez mais incorporar isso nas minhas coleções.

David: Acredito que é algo que não dê para fugir e é sempre atual. Eu já não produzo muito e a produção é pensada em cima da quantidade de matérias-primas que tenho acesso. Faço o corte de forma manual para melhor aproveitar o tecido. Estou seguindo esse ritmo, além de comprar muito tecido de estoque que não são tão datados e são atemporais.

Como é sua relação com o consumidor? Ele quem decide como, quando e onde vai usar sua peça?

Lindebergue: Brinco na minha coleção sobre o que acontece por debaixo dos panos. Você não pode olhar só para a roupa, tem que olhar para quem está vestindo ela. A moda hoje tem o olhar mais em cima do consumidor do que no produto. Como ele é? De que maneira que ele vive? O que gosta e o que não gosta? E o biotipo, principalmente.

Rebeca: É o consumidor quem escolhe como usar as roupas, porque as informações estão chegando muito rápido. Antes esperávamos uma revista chegar para olhar desfile de Milão e Paris. Hoje está tudo aí e de forma muito rápida e as pessoas têm muita informação para definir seu estilo e saber do que gostam e do que não gostam. A gente não pode simplesmente fazer uma roupa, a gente tem que transmitir uma ideia e tem que inspirar, mas a ideia principal é vestir as pessoas e nada mais justa que elas digam como querem se vestir. Nisso entra o agênero. Eu considero minha roupa bem feminina, mas se um homem quiser usar vou achar mais maravilhoso. Eu ainda não penso em fazer agênero, mas não me incomoda e isso é um respeito pelo consumidor.

David: O consumidor é a voz de tudo. O meu trabalho é tão masculino, mas não me incomodo se uma mulher quiser usar. Na hora de criar eu penso em toda a anatomia do corpo do homem, modelagem para a coleção. É algo muito forte essa conexão de tentar se conectar a este homem que tem marcas que ainda pensam nele tradicional e antigo, mas hoje temos múltiplas masculinidades. Não faço agênero e não sou adepto.

Na sua visão, como vai estar a moda daqui cinco anos?

Lindebergue: Não consigo dizer, pois estamos vivendo tantas mudanças e contratempos que podem mudar de uma hora para outra. Pode se ter uma revolução... Acho um pouco delicado falar da moda no futuro.

Rebeca: Está pergunta é bem difícil...Mas tem a preocupação com a sustentabilidade e o consumidor vai continuar ditando sim o que quer. E tudo vai depender muito da economia. A gente vive um tempo agora que está tudo em crise, vimos as coleções mais comerciais. Eu mesmo me preocupei na minha de fazer algo mais usável. Espero que tudo se endireite nesse Brasil para a gente ter uma ideia mais claro, pois agora está uma confusão muito grande.

David: A moda ainda vai estar como ferramenta de manifestação individual. Ela caminha muito para isso e cada vez mais não temos aquela questão da tendência. Vamos ter pessoas que aderem ou não, mas que usam a moda como manifestação do seu desejo e personalidade, principalmente. Elas vão buscar marcas que gostam de se relacionar, não vão estar se relacionando a partir de tendências da moda. Claro que ainda vai existir, mas vai cada vez mais morrer.

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