Dançarinos de aluguel - Zoeira - Diário do Nordeste

CURIOSIDADE

Dançarinos de aluguel

16.10.2005

Para dançar, Elita Rodrigues prefere sair com bailarinos: Os homens não sabem dançar e, às vezes, só querem saber de se agarrar.
Para dançar, Elita Rodrigues prefere sair com bailarinos: Os homens não sabem dançar e, às vezes, só querem saber de se agarrar.
José Leomar

Juliana Colares
especial para o Zoeira

Muitas mulheres buscam na dança um exercício físico alternativo, mas acabam descobrindo nela a sua própria identidade e um novo incentivo para viver cada dia como se fosse o último. Os resultados não são visíveis só no corpo, mais esbelto, como também na auto-estima e na vaidade que crescem significativamente. A paixão pela dança de salão pode virar um vício. “Quem começa, não quer parar mais”.

Pelo menos, é o que dizem as adeptas da modalidade. No entanto, a idéia de pagar um pé-de-valsa para dançar em festas e shows ainda soa absurda e preconceituosa. Afinal, que pessoas pagariam para um serviço desse tipo? Senhoras de terceira idade carentes de atenção ou que buscam algo mais?

Está enganado quem ainda tem esse tipo de pensamento. Um público cada vez mais jovem contrata dançarinos de aluguel. E acreditem, elas não procuram por relacionamentos, nem sexo. A relação é estritamente profissional. Tudo por amor à dança.

Quando se aprende a bailar de verdade com mestres, ninguém quer mais parceiros que pisem no pé, atropelem ou que façam apenas passes do tipo “dois pra lá e dois pra cá”. Essa é a opinião da funcionária pública Elita Rodrigues, 54, que começou a dançar há três anos e é freqüentadora assídua dos bailes.

“Eu não gosto de dançar com o pessoal de festas. Os homens não sabem dançar e, às vezes, só querem saber de se agarrar. Os meninos (dançarinos) não, já são orientados pela academia”, conta.

Elita relata que encontrou a dança num momento difícil de sua vida. Ela havia sofrido um acidente automobilístico, na qual sofreu fraturas nas costelas e na clavícula. Ficou 40 dias de cama com o ombro imobilizado. Fisioterapia e hidroginástica não bastaram para o tratamento. O médico aconselhara que a paciente começasse a ter aulas de dança, porque era o exercício mais completo.

“Antigamente, eu era muito ‘caxias’, estudava muito. Eu ia trabalhar na parte da manhã e começava a estudar das 15 horas até 1 hora da madrugada. Foi quando tive uma decepção em um concurso e resolvi olhar mais pra mim”, lembra, complementando que “mudei totalmente. Hoje sou mais alegre, comunicativa. Gosto mais de me arrumar”, declara Elita, que é também assistente social, advogada e administradora.

A dança também mudou a vida da professora de inglês Denise Othonsidou, 35, mãe de dois filhos. “Eu descobri a dança como um modo de me desestressar”, revela. Ela, que dança há um ano e conseguiu perder 20 kg, contratou profissionais por seis meses. “Na verdade, eu tenho um parceiro fixo. Só danço com um. A vantagem do dançarino é que ele está lá pra fazer seu trabalho. E dança do começo ao fim da festa”, frisa.

A dona de casa Dione Gama, 45, diz que foi “arrastada” por uma amiga para uma aula de dança e logo se apaixonou. Não tardou para que ela começasse a freqüentar shows. Casada, ela conta que o marido não se incomoda que ela dance com profissionais e ele ainda faz questão de acompanhá-los nas festas. “A gente não sai afim de paquerar coisa nenhuma, e sim para dançar”, fa questão de acrescentar Dione.

A terapeuta paulista Laura Masuda, 56 anos, declara que no início, estranhou o serviço, mas hoje confessa que é uma boa opção para quem não quer ficar parado. “Nos bailes de São Paulo, ficamos esperando que alguém nos tire para dançar. Comprei a idéia de pagar dançarinos até porque já fui abordada por um desconhecido e não gostei”, explica.

Segundo Laura, que prefere sair sempre com o mesmo bailarino, a relação entre eles é materna: “Não tem clima para se envolver. É o trabalho dele. A gente respeita. Ele tem idade do meu filho. É como se eu tivesse ganho mais um filho”.

E os benefícios da dança são tão grandes que fazem bem até à mente. Não é a toa que a terapeuta recomenda a atividade para suas pacientes com problemas de depressão, na maioria, sedentárias. E parece que ela é mesmo um “case” de sucesso. Além de ter já perdido 6 kg, “sem fazer dieta”, a terapeuta fez novas amizades, considera-se mais feliz por dançar todos os dias: “Eu danço de segunda à sábado na academia. Aos domingos, eu vou para o Baile da Saideira”. É claro, que sem esquecer de levar o parceiro profissional.

Procuram-se dançarinos

Foi através de um anúncio de jornal, em que uma academia solicitava rapazes para serem treinados, que Eudes Barbosa tornou-se dançarino de aluguel, há nove anos. Mesmo desconfiado com a nota, o garoto, na época com 17 anos, estava desempregado e não tinha nada a perder. “Eu só tinha noções de forró, lambada e axé”, recorda. Hoje o bailarino, divide-se entre as aulas em uma academia e os contratos em festas.

Eudes revela que cantadas no meio, por parte das clientes, são inevitáveis por causa do contato físico e da convivência. “Muitas delas são separadas e viúvas. Os rapazes costumam ser atenciosos e educados (qualidades necessárias na profissão), o que vai criando aquele encanto, clima de sedução que é na verdade falso”, conta.

Nesse caso, o bailarino deve ser delicado e sair com o velho “jeitinho” brasileiro, diz Eudes. Se insinuações persistirem, recomenda-se que ele até se afaste da cliente. “Quando acontece algo do tipo, o profissional deve contornar a situação”, explica.

Apesar de conseguir tirar o sustento da dança e ainda ajudar a família, ele que recebe em média R$ 700,00, mas já chegou a tirar R$ 2.000,00 por mês; revela que alguns dos problemas da atividade são a instabilidade e a falta de tempo. Depois de abandonar o Curso de Administração, hoje faz planos para retomar os estudos, porém, em uma área relativa à dança. Eudes está se preparando para prestar vestibular para Fisioterapia ou Educação Física. “Como disse Ana Botafogo, a dança pra mim hoje é como água e o ar para a vida”, define.

O barato que sai caro

O contrato de um dançarino de aluguel para uma festa (a noite inteira) custa em média de R$ 50,00 a R$100,00. “Quem entra em dança de salão, o meu conselho é que leve o namorado”, diz a professora Denise Othonsidou. “Eu acho muito caro. Porque além do valor, a gente paga a entrada dele, o consumo e, às vezes, almoço ou jantar. É uma diversão cara”, reconhece a advogada Elita Rodrigues.

O aluguel de um bailarino pode ser feito através de uma academia, se for cadastrado, ou via particular, direto com o profissional. Nos bailes, os dançarinos costumam distribuir cartõezinhos para mulheres.

Uma opção para quem está com pouco dinheiro, mas não quer deixar de dançar com um bom pé-de-valsa, é o “baile de fichas”, promovido em festas por academias. Os profissionais ficam disponíveis para dançarem com clientes. Para dançar uma música, paga-se uma ficha, na quantia de R$ 1,00.

Histórico

A Companhia Baila Comigo de Dançarinos Profissionais surgiu em março de 1996 e foi pioneira no Brasil oferecendo os serviços de contratação de dançarinos de aluguel e baile de ficha. Segundo o fundador e professor Carlinhos de Araújo, o objetivo do grupo era suprir a falta de homens nas turmas de dança de salão, compostas em maior parte, na época, por senhoras da terceira idade.

Para isso, jovens inexperientes foram treinados para se tornarem bailarinos profissionais e acompanharem as alunas nas aulas e nas festas. O sucesso do negócio inusitado foi tão grande que Carlinhos de Araújo e seus bailarinos de aluguel foram parar não só nos jornais, como também em programas televisivos, como “Hebe” (ao vivo) e “Jô Soares Onze e Meia” no mesmo ano. “Hoje, no Brasil, é imensa a quantidade de pessoas que vivem disso”, revela Araújo.

Onde dançar

Domingo

BNB Clube, “Domingão Dançante”, com Fonseca Jr. e Banda. A partir do meio-dia. Tel.: 4006-7200

- Cubana Bar, “Baile da Saideira”, com música ao vivo, às 18h30min, tel.: 3257-1992/ 3244-2999

Terça:

Oasis, “Orquestra dos Brasas”, com banda Os Brasas, às 23h. tel.: 3234-4970

Quarta

Cubana Bar. “Íntimos e Aconchegantes”, com Marcos Júnior e Banda, às 22h. tel.: 3257-1992/ 3244-2999

Quinta:

Oasis, “Quinta da Mulher”, com Teclinha e Banda, às 23h. tel.: 3234-4970

Sexta

BNB Clube, “Sexta Classe A”, com Fonseca Jr. e Banda, às 22h. tel.: 4006-7200

Sábado

Círculo Militar, “Dança Comigo”, com Marcos Júnior e Banda, às 22h. tel.: 3242-7070




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