Especial

Criança interior

No mês das crianças, o Zoeira traz dicas de atividades para recuperar a gargalhada da infância, o jeito lúdico de olhar o mundo e o prazer em viver sem receio do que os mal humorados vão pensar

No pa-Kua, as aulas de acrobacia não têm restrição de idade e trabalham medos de forma lúdica e divertida ( Fotos: Reinaldo Jorge )
00:00 · 07.10.2017 / atualizado às 02:58 por Carol Kossling - Repórter

Preocupações, obrigações e o corre-corre da vida adulta acabam por nos deixar um pouco mais chatos, "endurecidos" e entediados, esquecendo que dentro da gente vive uma criança que gosta de rir, brincar e ser leve. A reportagem do Zoeira aproveita o mês de outubro, quando se comemora o Dia da Criança (12) e traz um especial com atividades, locais e produtos que podem tornar a vida mais colorida e divertida.

Antes de dar vida ao personagem Fio, um típico clown, palhaço com muita agilidade de pensamento e comicidade, o ator Higor Fernandes, 30, estava num período da vida que se sentia muito carrancudo.

"A vida endurece nossos corações, a gente vai ficando mais sério, tudo vai ficando mais chato e amargo. Quando despertei para ser palhaço tudo ficou mais fácil, pois nossa criança interior não tem medo de nada", conta Fernandes.

> Resgatar bons sentimentos

Ele considera a vida muito pesada e avalia ser preciso alguma coisa para aliviar este sofrimento. "Porque em primeiro lugar, além dos amigos e da família, tem você mesmo que precisa sorrir, se divertir e se libertar. A gente complica demais e na palhaçaria se descobre que é tudo simples. Ela te releva e você acaba descobrindo que você se ama", declara.

Aprender a técnica de clown serve para qualquer pessoa, formada ou não, que exerça diferentes profissões, não é preciso ser ator. Basta ter a vontade de ser livre e não ter receio do ridículo. Fernandes considera que o clown facilitou a sua vida em vários aspectos, mas o principal é como ele se relaciona com as outras pessoas e como manter os vínculos e contatos com quem se gosta. "Sabe quando você tem uma saudade que você não sabe o que é? Lá no fundo a saudade que eu tinha era de ser eu mesmo, de brincar e me divertir", explica o clown.

Autoestima

Para Fernandes, a palhaçaria serve como autoconhecimento. "Se tiver perdido no meio do mundo você vai se encontrar, se divertir, divertir as pessoas e pode até ter uma renda com isso", brinca.

Pa-Kua

Ele conta que não tinha muita confiança nele e com a chegada do seu personagem ele testou seus limites, pois até medo de palhaço na infância tinha. "Hoje me compreendo mais, me cobro menos e sinto mais as coisas acontecerem. Você vai gostando de percorrer este novo caminho e descobre que amor próprio não é egoísmo", analisa.

Este mês, às sextas-feiras, "Fio, o fabuloso caixeiro viajante" está em cartaz no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno - UFC levando ao público, crianças e adultos, o resgate às lembranças e as memórias da infância. Com destaque a imaginação e a criatividade.

Máscaras

Ator e diretor de teatro e circense, que adora ser palhaço, Claudio Ivo, afirma que a menor máscara do mundo é o nariz do palhaço. "Na verdade ela não esconde nada, ela revela. E, no que revela, faz com que a gente possa nos desnudar dos medos, bloqueios, anseios e timidez. A gente adentra o mais íntimo do eu, resgatando alegria, ludicidade e colorindo a possibilidade de trabalhar com o mágico e com a imaginação. A gente se permite ser criança novamente", constata.

Ivo defende que cada adulto tem uma criança dentro de si e a maioria delas está adormecida. Por meio do clown, é possível resgatá-la e fazer com que ela venha novamente a ter vida. "Independente de qualquer atividade que você exerça, você é humano e tem dentro de você a música, a brincadeira e a imaginação. Carregamos internamente uma criança e ela deixando de ser botão, se transformando em flor, faz o adulto conseguir ser inteiro, uma pessoa completamente plena. É só experimentar o momento de vivenciar este clown que vão entender o que estou falando", diz o diretor.

Movimentos

Por meio de atividades físicas e mentais também é possível nutrir a nossa criança interior. O mestre Jean Carlos da escola Pa-Kua, que trabalha artes marciais, acrobacia, entre outras técnicas, explica que qualquer pessoa, de oito a 80 anos, pode praticar a modalidade acrobática.

"Nesta atividade você pode praticar tudo referente ao corpo e a mente. A ideia da acrobacia é trazer a nossa criança de volta, aquela que não tem nenhum trauma, nenhum problema de medo e ansiedade", orienta.

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Higor Fernandes criou o clown Fio para levar a vida mais leve, como uma criança (Foto: Fabiane de Paula)

O mestre comenta que estes sentimentos são acrescidos nas crianças por conta de convivência com os adultos. E com os exercícios físicos e a interação com outros alunos as mudanças acontecem.

"As principais mudanças são na postura física e psicológicas. A maioria das pessoas que nos procuram têm medos e inseguranças, além de problemas para se desenvolver fisicamente como, por exemplo, a parte de alongamento. Isso é resquício da parte psicologia", constata.

Carlos cita exemplos de alunos que quando começaram as aulas eram curvados e arqueados e tinham uma postura bem introspectiva, e após um certo tempo de prática, começaram a abrir mais a região do tórax, passaram a olhar para frente e não ter medo de se expressar.

A estudante de letras, Rahsna Lima, 20, vivencia a felicidade há um ano nas aulas de acrobacia. "Me sinto muito bem pois as aulas são interativas e tem muita diversão", revela. Nas aulas acrobáticas, ela tem a possibilidade de tentar novas posturas.

A jovem diz ficar muito feliz quando consegue superar seus medos, como das posições em altura. Pensa que é uma besteira se não der certo e se cair não é nada demais. Em relação às transformações de antes da prática, revela serem muitas, mas em especial se sente mais feliz com ela mesma, com o mundo a sua volta e com os relacionamentos. Para o futuro pensa até em abrir uma escola para expandir a prática para mais pessoas.

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