Coluna

Lígia Nottingham: colaboração afetiva

Lígia Nottingham

ligia@ligian.com.br

00:00 · 16.08.2018
Jackson estará em Fortaleza para o MaxiModa ( FOTO: RAPHAEL VILLAR )
Jackson Araujo com a mão na massa no projeto Trama Afetiva que ressignifica o resíduo têxtil da Cia. Hering ( Foto: Patrícia Araujo )

Está chegando mais um MaxiModa, o principal Seminário de Business de Moda do Nordeste. O evento que acontece no dia 30 de agosto no Teatro do RioMar Fortaleza, chega à sua 11ª edição com o tema "Moda é Movimento que Conecta Tecnologia e Pessoas". Para antecipar as principais questões que permeiam o universo da moda contemporânea, convidei o cearense baseado em São Paulo, Jackson Araujo, para um bate-papo sincero.

Ele é mediador do evento e renomado comunicólogo especializado em Análise de Comportamento e Tendências de Consumo de Moda, Mídia e Comunicação. Atua como Consultor Criativo e de Conteúdo, prestando consultoria para empresas como Natura, Grendene, WGSN, entre outros.

Jackson por Jackson

Qual é a sua origem e como se deu o seu contato com a moda?

Sou filho de mãe costureira e pai militar, de quem herdei criatividade e foco organizacional. Nasci em Fortaleza, passei parte da infância na Floresta Amazônica e minha relação com moda vem exatamente desse tempo na selva. Minha mãe era costureira da Vila Militar e meu pai mandava buscar revistas para ela em Manaus - Manequim, Figurino e A Cigarra - assim como gibis para eu e minha irmã Rejane. Quando os gibis acabavam, eu me distraía com as revistas de roupas e tinha verdadeira fascinação pelos moldes. Nunca tive vontade de ser estilista ou modelista, mas o universo comportamental que acredito ter herdado da revista A Cigarra, sem dúvidas moldou meu gosto pelos temas Moda, Música e Artes.

Quando, como e por quê você saiu de Fortaleza para São Paulo?

Em 1993, vim para SP mostrar uma instalação de slides na Fenit, realizada para a marca Anirak Jeans. Percebi que havia algo de novo acontecendo e resolvi ficar no lugar certo na hora certa. A moda underground estava em seu início de ebulição e eu resolvi cartografá-la por conta própria. Fiquei amigo dos novos estilistas e passei a fazer parte da nova engrenagem como um dos jornalistas responsáveis por relatar essas transformações no caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo.

Cenário local

Olhando de fora, como enxerga a moda cearense atual?

Não consigo entendê-la como um movimento. Vejo atitudes isoladas, ainda que agrupadas em eventos, mas sem desenhar uma identidade. Talvez me falte uma vivência maior com os talentos locais para entender como estão construindo uma nova narrativa. Mas o que me interessa sempre é a nossa manufatura, tão única e tão necessária. Penso que esse viés associado a um lifestyle litorâneo pode ser uma abordagem identitária interessante, já que temos um caminho desbravado com sucesso por Lino Villaventura e Água de Coco, algo que tem respingado no beachwear da Bikiny Society, por exemplo.

Quais marcas locais estão fazendo trabalhos que você considera relevantes?

A marca que mais me interessa é Catarina Mina, pela capacidade de inovação social, utilizando o design como ferramenta de transformação. Essa é a pauta que me motiva, designers que colocam as pessoas no centro dos processos criativos. Também admiro o trabalho do Ateliê da Sil, de Silvânia de Deus, pela resistência cultural e valorização das práticas de ateliê. Por outro lado, tenho observado a evolução de Lindebergue Fernandes e suas investigações sobre a pauta do corpo-político, um discurso muito pertinente para os dias de hoje. David Lee também me chama atenção pelo bom-humor e os exercícios em texturas, assim como o minimalismo de Iury Costa.

Como a economia criativa do Ceará pode se destacar no cenário nacional?

Defendo a Economia Afetiva como um novo patamar da economia criativa - já que essa tem se manifestado boa parte das vezes em atitudes neoliberais de jovens empreendedores autocentrados. A pauta que me interessa é a de designers que atuam na construção de um mundo melhor, fazendo com os outros e para os outros. Quando tivermos toda uma geração atuando como Celina Hissa, aí sim poderemos começar a falar em destaque no cenário nacional. Quero muito atualizar minha agenda local com novas atitudes criativas que valorizam a força do coletivo, a transparência e a horizontalidade dos processos.

Tecnologia e redes

Você está vindo à Fortaleza intermediar as palestras do MaxiModa. Neste ano, o tema é "Moda é Movimento que Conecta Tecnologia e Pessoas". Você pode explicar um pouco mais essa frase?

Essa é uma investigação que tenho feito cotidianamente, pois me dedico a buscar ações que estejam ligadas no seguinte pensamento: a inovação não está mais na tecnologia fria, mas na relação com as pessoas. É o que vejo, por exemplo com muita clareza em toda a construção de branding da Casa Natura Musical, que será brilhantemente apresentada por Fernanda Paiva, no Maximoda, entendendo aqui Moda como uma construção para além das roupas. É também o que busco nos processos colaborativos aplicados no projeto Trama Afetiva, que desenvolvo ao lado de Luca Predabon desde 2016, trazendo soluções de inovação para a Cia. Hering por meio do upcycling.

Como as redes sociais e os aplicativos estão mudando o universo da moda?

Da mesma forma que estão mudando as demais indústrias criativas: trazendo rapidez aos processos de produção e consumo. O mais importante é perceber que para se manter relevante é preciso se renovar. Todo aquele boom de digital influencers agora ganha novos contornos, potencializando uma nova geração de micro-influenciadores profundamente conectados às suas audiências de nicho específicas.

Quais as mídias e formatos mais relevantes no mercado atual?

Sem dúvida, o Instagram, especialmente com o advento da IGTV, ocupando um espaço antes dominado pelo YouTube.

Moda afetiva

A internet ajuda à revelar verdades sobre o mundo, como a exploração desmedida das empresas da cadeia têxtil, desencadeando o termo "sustentabilidade". Você acha que os valores ecológicos serão mesmo uma premissa básica para os consumidores, mesmo que isso signifique um produto mais caro nas araras e vitrines?

Estamos trabalhando para isso. Para a construção de relações transparentes e sólidas e de produtos ecologicamente corretos, economicamente viáveis, socialmente justos e culturalmente aceitos. A Internet é o meio de comunicação que mais rapidamente dissemina pensamento transformador quando o assunto é negócio social, pauta que movimenta uma nova geração de consumidores, os millenials, cada vez mais interessados em marcas que estão preocupadas com a equação Planeta + Pessoas. Afinal, investir no meio ambiente é investir em você mesmo.

Herói ou Vilã? Se colocássemos a moda naquela balança da justiça, para que lado ela pesaria? E por quê?

Não gosto de pensar que existe um peso maior para cada um dos lados. Prefiro a ideia de que a moda é território que se desenha pelas mudanças. Vivemos um momento em que o diálogo constante entre marcas e consumidores já é uma mudança de comportamento tangível. Velhos conceitos estão sendo repensados, colocando em cheque a cultura de consumo de moda que é baseada no incentivo às compras, na abundância de roupas baratas e no alto custo para se produzir de maneira sustentável. É preciso mudar o sistema.

Mais informações

11ª edição MaxiModa

Dia  30 de agosto (quinta-feira), das 8h às 18h, no Teatro RioMar Fortaleza (Rua Des. Lauro Nogueira, 1500, Papicu). (99410.3025) www.Galeriamt.Com.Br/maximoda

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