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O pai dos Burros

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O pai dos Burros

00:00 · 15.04.2017

Quem não tem um dicionário em casa? Seu, ou das crianças na escola, dos filhos universitários... Todo ser inteligente que se preze vive consultando, a qualquer dúvida, o dicionário. Ainda assim, ele é chamado de Pai dos Burros.

Chamam o dicionário de Pai dos Burros porque, dizem, o pai do Aurélio Buarque era fabricante de carroças e tratava muito bem os burrinhos. E o menino Aurélio criou seu primeiro dicionário com as palavras de elogio que os fregueses diziam ao seu pai. Dá pra acreditar?

O nosso maior dicionário atual tem umas duzentas mil palavras, ou verbetes. Os dicionários de língua inglesa se orgulham de ter quase trezentos mil verbetes. O maior francês tem 135 mil, o maior espanhol tem pouco mais de noventa mil palavras.

Houve um tempo em que os escritores se gabavam de ter usado tantas mil palavras em sua obra. O Machado de Assis era um campeão nisso. Usava milhares, com maestria. E se gabava.

O dicionário é uma coisa antiga, tem mais de dois mil anos. O primeiro era uma tabuleta em escrita cuneiforme bilingue. Ali pela Mesopotâmia. Porque as cidades sumérias foram unificadas e tinham duas línguas diferentes.

A invenção do dicionário veio com a invenção da escrita. E se divulgou com a invenção da tipografia, se tornando universal com a alfabetização generalizada. Afinal, nos tempos antigos, ler e escrever era um privilégio destinado só a monges ou príncipes.

Mas o primeiro dicionário com as palavras no mesmo idioma, foi chinês. Parece que os chineses inventaram o mundo! Agrupavam palavras em categorias.

Dicionários multilíngues e glossários de termos eram comuns na Europa durante a Idade Média, mas foi o crítico Samuel Johnson, do século 18, quem criou o primeiro dicionário como o conhecemos hoje.

Ele recolheu palavras que poucos conheciam, mas depois foi atualizando o dicionário com todas as palavras do idioma. Ele tirava as palavras dos livros de literatura. Por isso, os dicionários dão exemplos do uso da palavra citando uma frase de algum escritor em certo livro.

Hoje tem dicionário para todo gosto, para toda necessidade. Dicionário jurídico, dicionário médico, dicionário de gíria, dicionário do cearensês, do internetês, dicionário de sonhos, até dicionário do palavrão...

Uso o Aurélio. Todos são bons, é mais uma questão de costume. Gosto do Aurélio. Tenho um Caldas Aulete em cinco volumes. Tenho o tijolão do Aurélio, umas cento e quarenta mil palavras.

O Aurélio on line tem uns quatrocentos e trinta mil verbetes! Desde que instalei o Aurélio no meu computador, nunca mais abri qualquer um dos livros. Abro, sim, um dicionário imprescindível para os escritores que gostam da palavra certa: o dicionário das ideias semelhantes.

O meu é aquele que ficou famoso porque o Chico Buarque falou e escreveu sobre ele: Dicionário analógico da língua portuguesa, Ideias afins / thesaurus. Do Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Foi uma herança que o pai do Chico lhe deixou.

Ele o usa sempre no acabamento de letras de canções e romances, além de ficar folheando à toa. É um dicionário para aqueles momentos em que você quer usar uma palavra, mas não sabe qual, tem só a ideia do que é.

O Chico diz que anotava num caderninho as palavras mais preciosas, para esmerar o seu vocabulário, querendo embasbacar as moças e destruir seus rivais. Comprava todos os que encontrava, para ter exclusividade sobre as ideias semelhantes.

Também uso o dicionário etimológico, claro, sempre preciso saber a idade das palavras. Há gente fascinada por etimologia, como o frei Betto, que sempre tem uma revelação curiosa: A palavra companheiro vem de cum panis, compartilhar o pão.

Uso também o dicionário de rimas, tenho um preparado pelo Teófilo Braga. Dizem que o dicionário de rimas acabou com a poesia rimada. Claro! Mesmo as rimas mais difíceis estão lá. Estrela, com obtê-la (Caetano Veloso).

O coloquial, dizem, usa cerca de quatrocentas palavras. E vamos usando cada vez mais os emoticons, em vez de palavras. Depois de quatro mil anos, voltamos à escrita cuneiforme! Ah, este mundo undívago!

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