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Ana no País das Maravilhas

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Ana no País das Maravilhas

00:00 · 28.07.2018

Uma das leituras mais fascinantes e inesquecíveis de minha vida foi a de As aventuras de Alice no País das Maravilhas. Eu tinha por volta de doze anos e uma cabeça ingênua, ainda capaz de acreditar na realidade de qualquer sonho ou imaginação. Eu acreditava em seis coisas impossíveis antes mesmo do café da manhã.

Era de verdade o Coelho de óculos que passava apressado com seu relógio atrás do tempo; verdadeira a minha sensação de angústia ao ver a Alice se tornar pequena como um ratinho, mas ela esquecia a chave sobre a mesa e não podia abrir a porta; era imensa a minha aflição de ver a menina crescer tanto que nem cabia mais no quarto.

Alice carregava consigo os sentimentos de uma criança que começa a crescer, perde a noção de si mesma, bate a cabeça nas portas e perde sapatos, roupas; os pés demoram mais e é a fase de uma falta de equilíbrio qualquer. E o tempo começa a existir. É tarde, é tarde, é tarde é tarde é tarde.

Mas também a ideia de que a nossa cabeça é cheia de nonsense, de perguntas sem respostas ou respostas sem perguntas, sorrisos sem rosto, relógios que andam para trás. Lendo Alice eu percebia que não era loucura a minha imaginação - a dela parecia bem mais, porém era apenas uma maravilhosa exploração da imaginação humana.

Eu lia e relia o livro, folheava-o, parando nas nítidas ilustrações que guiavam um pouco a minha compreensão do enigmático texto. Por que eu gostava tanto de reler e reler Alice? Quem era eu? Ela se perguntava. Decerto, a sensação de liberdade mental era fabulosa durante a leitura!

Verdadeira aquela lagarta azul esquisita fumando um cachimbo d'água ainda mais bizarro, e intenso o assombro de ver o Gato de Cheshire, que vai ficando invisível até restar apenas o seu sorriso, e depois aquele chá à mesa com o Chapeleiro Louco, e o Esquilo.

Inquietante a rainha de Copas que detestava rosas brancas e dizia o tempo todo, Cortem-lhe a cabeça! Cortem-lhe a cabeça! Alguém iria cortar a minha cabeça? Cortar a cabeça me parecia simplesmente cortar a cabeça, eu não alcançava os símbolos, mas eles funcionavam dentro da minha cabeça, que não foi cortada.

A menina de vestido rodado com laço na cintura e cabelos louros, tão bem arrumada, tão importante na história, me trazia grande confiança, ela passava por todos os perigos em meu lugar, e eu sentia todas as suas alegrias e prazeres de sonhar. Nada é impossível! Essa, a sensação mais formidável da leitura.

Leitura difícil, para uma menina, repleta de desvios e reflexões, comentários misteriosos, mas sempre com velocidade na ação, um texto maduro para uma história cheia de segredos, luzes e sombras, frases longas, à quais eu não estava acostumada, densidade, um lago formado por minhas próprias lágrimas.

Só muito tempo depois comecei a descobrir as histórias por trás do livro, porque ele ainda nem tinha autor. Passei a encontrar, aqui e ali, uma foto de Alice Liddell, e sugestões nem sempre sutis de uma paixão de Lewis Carrol por meninas, sobretudo aquela menina da história.

Ele, cujo nome verdadeiro é reverendo Charles Lutwidge Dodgson, diácono da Igreja Anglicana, era um homem sensível, religioso, tímido, gago, formado em matemática e fotógrafo amador. Solitário, nunca se casou; fazia palestras numa escola cristã e cultivava uma excêntrica amizade com crianças, especialmente meninas. Suas enigmáticas e sensuais fotos são invariavelmente de meninas de oito, doze anos.

Dizem que Alice no País das Maravilhas ajuda mesmo os professores de matemática a ensinarem aos seus alunos o que é a lógica e o ilógico; o livro, dizem, possui tantos apelos de fantasia quanto apelos lógicos.

Influenciou diversos escritores, como Jorge Luís Borges, Cortázar e mesmo Guimarães Rosa. Será que gatos comem morcegos? Ou será que morcegos comem gatos?

O que Alice passou a me ensinar foi que eu podia voltar a ser criança, ao ler o livro. Há dois livros dentro do livro Alice no País das Maravilhas: um para crianças e um para crianças que cresceram e talvez não caibam dentro de um quarto.

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