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Ana Miranda: Uma festa literária

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Ana Miranda: Uma festa literária

00:00 · 12.08.2017

Confesso que tinha um certo receio de participar da Flip, a famosa Festa Literária de Paraty. Jamais gostei de multidão, muito barulho, muito movimento. Mas fui, seduzida pela gentileza do convite e pelo tema do ano, o escritor Lima Barreto.

No começo dos anos setenta, quando eu morava em Paraty, escrevi um roteiro de filme adaptado do romance "Clara dos Anjos", de Lima Barreto. Coincidências? Misteriosas maquinações da vida? Fantasma de Lima Barreto?

Realmente, havia muita gente, movimento nas ruas, mas olhando aqui, ali, fui me envolvendo e entendendo o grande prestígio que a festa tem. É, simplesmente, encantadora!

O cenário é a pequena cidade colonial, muito bem preservada, que revela a cada canto um detalhe antigo: portas coloridas, janelas com as ciumentas grades de madeira chamadas gelosias, lampiões, ruas de pedras irregulares, igrejas, terreiros, tudo diante do mar e cercado de Mata Atlântica. Paraty fica exatamente entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Nas ruas repletas de pessoas acontece todo tipo de arte, vemos nativas dançando ao som de tambores, rodando suas saias coloridas, vemos exposições, índios com seu artesanato, orquestras de sons variados, alguns poetas com seus livros feitos em casa, aglomerações diante de uma casa onde fala um escritor...

E, na igreja, tanta gente para assistir às mesas de escritores que é necessária uma imensa tenda com umas setecentas cadeiras diante de um telão, uma tenda aberta, que permite um número quase incontável de pessoas para assistirem em pé às conversas. E que conversas esclarecedoras, inquietantes.

Fala-se da literatura e seus braços que tocam problemas humanos, tanto interiores como os das sociedades: racismo, feminismo, contracorrentes, modernismo, memória, pontos de fuga e frutos estranhos, massacres, são feitas denúncias e celebrados autores novos ou consagrados.

Há uns dez anos apenas três escritoras participaram da Flip como convidadas, e este ano elas foram maioria. Foi uma Festa feminina e mestiça. A curadora era uma mulher, Josélia Aguiar. Seguindo um dos dramas de Lima Barreto, falou-se sobre ter a pele negra. Depoimentos profundos, belos.

Andando pelas desafiadoras pedras que pavimentam as ruas, cruzamos com gente interessada em artes, em livros; as conversas giram sobre literatura, escritores, Hoje comprei tal livro! Nem sei mais onde botar tanto livro! Nos encontramos na livraria Travessa!

Ali vai o Cristóvão Tezza, acolá o Mussa passa, apressado, a Lili Schwarcz vem vindo pelas pedras, a Fernanda Torres dobra uma esquina, escritores, poetas, artistas, músicos, editores, professores, historiadores, todos diante de uma inusitada proximidade.

No último programa da Festa a idealizadora da Flip recebe, na igreja, alguns dos escritores e cada um lê uma página de seu autor fundamental. Ela é uma (paratiense) inglesa e a cada vez que se menciona seu nome os aplausos ressoam.

Liz Calder tinha uma pequena editora em Londres, na Inglaterra. Veio ao Brasil, conheceu Paraty e se apaixonou. Sonhava um dia ter uma casa naquela cidade tão graciosa. Mas as casas disponíveis eram extremamente caras para sua realidade.

Passado algum tempo ela decidiu, quase num gesto de solidariedade, publicar um livro que tinha sido recusado por diversas editoras e agentes. A autora do livro o escrevera durante anos difíceis, terminando-o numa velha máquina de datilografar, num café em Edimburgo, em condições heroicas, digamos assim.

J. K. Rowling era o nome dessa autora, e o livro intitulava-se "Harry Potter e a Pedra Filosofal". Em pouco tempo, de pequena editora, Liz passou a ser uma das maiores editoras do mundo. Lances de sorte? Fantasmas de bruxos?

E Liz Calder tratou de realizar seu sonho. Além de comprar uma casa em Paraty, idealizou, com Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, uma pequena festa literária na sua amada cidade. Ela conta como suas mãos tremiam, pouco antes da primeira Flip, preocupada, se iriam aparecer pessoas para participar da Festa. Nunca imaginara a dimensão que ia tomar.

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