Coluna

Ana Miranda: Salamaleques, ainda o Marrocos

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Ana Miranda: Salamaleques, ainda o Marrocos

00:00 · 15.09.2018

Foi em Saidia que Hanifa cantou, uma menina linda, magrinha, morena de nariz adunco e óculos, chapéu florido e puramente feita de afeto, delicadeza, amor. Irmã do noivo. Chante, Hanifa! Haialaia. As meninas e as moças marroquinas antes de casar não cobrem os cabelos.

Saidia é uma praia junto à fronteira com a Argélia, praia que pertence ao povo, quase não há estrangeiros. Ali a água mediterrânea não é azul-turquesa. Uma praia divertida, repleta de tendas; barcos, cadeiras e mesas de aluguel e, estranhei: as mulheres caminhando ou nadando cobertas da cabeça aos pés com seus panos coloridos. Mas também havia moças de biquínis bem-comportados. E sei que, dentro de casa, elas usam blusa de alça, calça justa.

Gosto da arte de olhar as pessoas. No Marrocos há dois tipos mais comuns, bem distintos: os de traços fortes, cabelos pretos e sobrancelhas grossas, pele morena, nariz acentuado; e os de narizes convexos, pele clara, cabelos quase louros e lanosos como o pelo das ovelhas. Árabes, berberes, tuaregues, judeus, europeus... Misturas antigas de povos perdidos...

Eles falam darija, o dialeto árabe marroquino. Salam alaykom, eu saudava, Que a paz esteja sobre vós; de onde vem a expressão brasileira, para uma pessoa ritualística nos cumprimentos: "cheia de salamaleques". Responde-se Alaykom salam, E sobre vós a paz. Não se diz bom dia, mas Sbah alkair, Manhã de bem; e a resposta é Sbah annur, Manhã de luz. Poético. A todo instante eu ouvia me chamarem, Ana, Ana, mas descobri que ana significa Eu.

E afinal tomamos um trem para o último destino, Fes A Sublime. Com seus altos palácios, mesquitas, fontes, arcos, portas monumentais, caravançarás, madraças, alcaçarias, riads, residências luxuosas; milhares de ruelas estreitas na medina levam-nos para a Idade Média. Na cidade nova, largas avenidas, lagos e árvores, esplanadas repletas de cafés e restaurantes.

As madraças, ou escolas, atraíram para Fes artistas, letrados e estudantes vindos de diversos lugares do mundo. É a cidade mais cultural, mais literária de todo o Marrocos. Lá está a primeira universidade do mundo, de 859 a. C., fundada por uma mulher - mas frequentada apenas por homens.

Chegamos de madrugada ao riad, nosso hotel, passando por uma praça logo à entrada da medina, onde homens e gatos vadios perambulavam. Riad é uma espécie de casa rica, onde há um pátio central com chafariz. Construído em 1128, o nosso riad era um espetáculo de arquitetura e decoração: mármore esculpido e caligrafado, arcos em madeira, mosaicos, peças em estuque, paredes lavradas, azulejos, arcadas rematadas de estalactites, portas de madeira trabalhada, cada qual com um motivo diferente.

Todo quarto tinha um nome: Ali Babá, Sharazade, e Sindbad o que nos deram, subindo por escadas estreitas, íngremes, revestidas de mosaicos. O quarto lembrava as Mil e Uma Noites: cama de dossel em ferro forjado, paredes e portas trabalhadas, o teto em arabescos estonteantes, de onde pendia um lustre em cobre dourado e vidros coloridos. Do terraço, onde havia um varal para secar roupas, podia-se ver a parte alta da medina.

Ao alvorecer, ressoou o salah melancólico do almuadem no topo do minarete a recitar e anunciar o momento da primeira das cinco preces do dia, um dos pilares do Islam. Allah hu Akbar, Alá é grande, acredito que existe apenas um deus e Mohammed é o seu profeta, venha para ganhar o paraíso, é tempo de rezar é tempo de rezar...

"A cidade murmura as orações, o sol apontou e ilumina as açoteias, não tarda que nos pátios apareçam os moradores. A almádena está em plena luz. O almuadem é cego". Escreveu Saramago em seu belo romance.

O primeiro almuadem foi um escravo abissínio, Bilal, libertado por Maomé, que do alto do telhado da casa do profeta chamava as pessoas para a reza. Por séculos os almuadens eram cegos, para que não espreitassem as mulheres na intimidade dos pátios. As orações são voltadas para Meca e realizadas após uma ablução. Todos param o que estão fazendo e se curvam, a orar.

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