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Ana Miranda: riqueza na geladeira

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Ana Miranda: riqueza na geladeira

00:00 · 18.08.2018

O netinho de um amigo foi com o avô a uma visita e, lá pelas tantas, o dono da casa perguntou à criança se queria beber algo; foram então à copa, ali o homem abriu uma geladeira, e se descortinou: estava repleta de garrafas de guaraná e Coca, de cima a baixo. Assombrado, o menino disse: Mas... como o senhor é rico!

Acho uma graça essa estória de pureza infantil, cheia de ensinamentos. O primeiro deles é que há riquezas e riquezas. Para cada um de nós, a riqueza é algo diferente. Se uma pessoa sofre de uma doença, sua riqueza mais almejada vai ser a saúde, o bem-estar. Para uma pessoa que passa fome, a maior riqueza será um qualquer prato de comida.

Para uma pessoa que sente saudades de alguém, a maior de todas as riquezas será reencontrar a pessoa querida, estar com ela, poder lhe dar um abraço, sentir a força dos braços carregados de afeto, mesmo que seja por um momento breve.

Para alguém que ama livros, como um bibliófilo, a maior riqueza será uma biblioteca muito bem composta de livros escolhidos a dedo e documentos raros, e livros de uma raridade encantadora ou algum livro em especial que lhe faz sonhar e arder de vontade num leilão. Por muito tempo almejei com ardor um exemplar do dicionário Bluteau, até que passei a encontrá-lo no mundo virtual.

Para quem ama viajar,a riqueza pode ser um avião particular, uma nave espacial, ou um navio, até mesmo uma bicicleta; ou a liberdade para viajar. Alguém disse que o conceito de riqueza é poder viajar para onde se quer e ficar ali o tempo que se desejar. Ou, como disse a Cecília Meireles, Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser.

Uma amiga tem outra riqueza na geladeira: em cada viagem que ela faz, compra uma lembrança com um imã, e vai prendendo-as na porta metálica da geladeira. Um pequenino e curioso museu de lembranças geográficas, na porta da geladeira.

A riqueza é aquilo <CS10.4>que você deseja naquele momento. Se você não desejar nada, então você já é verdadeiramente rico. Parece lógico. Parece sábio.

Sabedoria de verdade é a do poeta Manoel de Barros, ele acha que a maior riqueza dos seres humanos é a sua incompletude, e diz, “nesse ponto sou abastado”. Decerto, naquilo que já está completo nada mais pode caber, mas tudo ainda cabe no incompleto. E a vida sempre tem algo a oferecer, e borboletas para nos renovar.

“Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas”.

Ele, com a sua poesia,nos renova ao discernir o valor das latas velhas, das asas de besouro, das flores que ainda vão brotar, de um raio de luz, das dessemelhanças, da pequenez, da desimportância... Do ouro só vale o brilho; do dinheiro vale o desenho da onça, da tartaruga.

Tanta gente dando a vida pelo vil metal. Mas a deusa Fortuna, calva, cega, com asas nos pés, um deles sobre uma roda que gira, distribui os bens e os males segundo o seu capricho.

Na História Trágico-marítima, coleção de relatos de naufrágios, feitos pelos próprios náufragos, no século 16, a mais impressionante história é a de uma caravela que ia levando uma carga em metais preciosos. O excesso de peso torna a viagem ainda mais perigosa.

Numa tempestade, precisam escolher entre manter a carga ou despejá-la no mar, para evitar o naufrágio da embarcação. Acabam por manter no porão os lingotes. A nau encalha numa ilha deserta, onde não há água doce, nem plantas, nenhum alimento. Nas areias da praia espalham-se vãs barras e mais barras de prata e ouro.

Isso ensina que riqueza é aquilo que, em certa situação, atende a aquilo que precisamos em certo momento. Relativa como a teoria de Einstein. Aliás, esse gênio disse que desprezava a riqueza, a glória e o luxo, que tudo isso não passava de finalidades irrisórias. Riqueza é conhecimento. Riqueza é amor. Riqueza é paz. É sonhar. É viver. O que mais?

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