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Ana Miranda: Praças de Fortaleza

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Ana Miranda: Praças de Fortaleza

00:00 · 04.11.2017

Quem não tem, nas suas recordações de criança, uma praça cheia de calçadas, as mais frondosas e sombrias árvores, passarinhos cantando em galhos e ninhos, e jardins, às vezes um chafariz, um pequeno lago... Sempre na frente da igreja?

Como se a religião gostasse de uma vizinhança tão cheia de vida e sonhos, de crianças livres, em que os altares são pedras, e os círios, flores e folhas secas. Um cenário em que passarinhos são os anjos que entoam os hinos de consagração, de comunhão da vida. A prece é o vento que murmura.

Ali na nossa praça, quando crianças, tivemos uma outra escola de nossas aprendizagens, ali descobrimos o movimento e o contemplar. Aprendemos a ralar os joelhos e a gritar. A dividir os brinquedos. A fazer novos amigos. A dar as mãos. A pisar na areia. Cada um de nós tem a sua pracinha da infância.

Os moradores de Fortaleza, muitos vêm do interior, e devem lembrar de pracinhas no interior, pracinhas da avó, ainda com os rastros dos pés das moças a se oferecerem num footing. As lágrimas dos rapazes ingênuos que se iludiram, e o suor dos que conquistaram.

Fortaleza tem lindas praças. As praças são os quintais das casas e dos prédios que não têm quintais. São o sonho verde das cidades. Lugares onde nos sentimos um pouco mais livres, onde podemos correr, brincar com nossas crianças, soltar nossa infância desgarrada. Comprar orquídeas. Vender dindins e brincos de capim. Adotar um gato.

Jogar basquete, ler poesia nos bancos de madeira e ferro. Fortaleza tem praças antigas, tradicionais, e tem praças de criação recente. Está se transformando, pouco a pouco, numa cidade aberta, numa cidade de convivência. Com suas praças antigas, e também novas praças, com novos conceitos e novos usos.

Uma arquiteta daqui me disse que muitas das antigas praças de Fortaleza foram transformadas em terrenos para sedes de prédios púbicos. Ora, onde já se viu? Diria a minha avó, com as costas das mãos nos quadris.

A praça é um local de beleza e memória, constituindo a alma da cidade. Lugar de interações, troca de ideias. Participa do embelezamento da cidade, tem uma função também estética. Bem-estar. Alegria e até, mesmo, felicidade, quem sabe?

Sombra, proteção, ar limpo, solo permeável. Um bem-estar verde. Festa natural. Refúgio. Deitar na grama. Amizade e prazer. Bebês tomam sol da manhã no carrinho, as mães conversam. Pais empurram seus filhos na gangorra, relembrando a própria infância. Um menino aprende a andar de patins, cai, e retorna, cai e retorna, aprendendo o que é a vida.

Fortaleza começou numa praça. Na planta desenhada pelo capitão-mor Manuel Francês, vemos que o povoado nascia em torno de um terreiro, como todos os povoados portugueses dos séculos antigos.

Existe algo mais parecido com Fortaleza do que a praça do Ferreira? Sim, a praça do Passeio Público. E a praça Portugal? E a praça das Flores? E a praça José de Alencar? E a dos leões? E a praça do Liceu? E a Cidade das Crianças?

Fortaleza tem umas quatrocentas e oitenta praças. Parece muito, mas é pouco. Algumas dessas praças estão no livro "Sonhos verdes", que acabo de receber. Lindo o livro, com fotos a maioria de Gentil Barreira, e mais Alex Uchôa, e fotos de arquivos.

O texto do livro eu escrevi. Foi uma delícia escrever sobre praças, era como passear em cada uma delas, em seus tempos passados e presente. Cada praça é uma praça, é uma história, é uma vocação.

O livro, uma beleza editada pela Terra da Luz, da Patrícia Veloso, capricha nas fotografias. Vai ser lançado na praça Martins Dourado, e vai estar lá, além dos passarinhos, o prefeito. Se ele for, mesmo, vou aproveitar, e pedir pelas dunas do Cocó.

O que está acontecendo é que as praças estão sendo adotadas, como crianças órfãs. Adota-me com amor. Solução engenhosa e moderna. As praças de Fortaleza estão cada uma a cada dia sendo reformadas, reformuladas, e agora aparecem cheias de gente e novidades, parquinhos, quiosques, esculturas, até biblioteca, café. Silêncio entre arranha-céus, sonhos entre automóveis.

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