Coluna

Ana Miranda: os viajantes

Image-0-Artigo-2428674-1

Ana Miranda: os viajantes

00:00 · 21.07.2018

Estou de viagem marcada para o Marrocos, casamento da minha sobrinha - que é uma princesa -, com um marroquino. Ah, que sonho! Noites de olhos abertos, imaginando desertos sob estrelas, beduínos e camelos, oásis, tâmaras, tambores ressoando nas areias...

Decidi que não vou olhar nada na internet antes de viajar, para não estragar o deslumbramento das descobertas. Propriamente como os viajantes do século 19.

Os viajantes do século XIX viajavam com aventura. Nada de estradas, apenas trilhas cortavam nosso imenso país. Eles iam no lombo de mulas por caminhos estreitos, íngremes, escorregadios, desérticos, ou tão fechados pela mata que nem se via o céu.

Passavam por pontes feitas de troncos, às vezes um só tronco, precisavam dar voltas distantes ou fazer desvios, dormiam em redes estendidas nos ranchos de palha que outros viajantes deixavam no caminho, ou tinham insônias sob frondosas árvores, ou a céu aberto, ou debaixo de tempestades.

Paravam em registos onde eram submetidos a revistas tão minuciosas quanto demoradas; deparavam-se com feras, nuvens de insetos malignos e não era raro passarem fome, ou sede, se perderem, sem mapas, serem assaltados por bandos de encapuzados, ou, ainda, eram atacados por tribos de índios.

Mas, ah, que espetáculo era o percurso, que paisagens maravilhosas se abriam a cada instante, que florinhas suaves, que recantos, que rochas em formas absurdas! Aves voavam em bandos, árvores majestosas surgiam a cada curva, a natureza era sentida em suas entranhas, vista sob todas as impressões. O mundo se despia.

Os viajantes acendiam fogueiras de noite e conversavam em torno do fogo, ou tocavam instrumentos melancólicos, comendo às vezes apenas milho assado numa trempe, ou uma ave abatida a tiro. Ouviam mil estórias e se assombravam com costumes desconhecidos.

Nas taperas mais pobres eram recebidos por pessoas que lhes ofereciam algo do quase nada que tinham. Pernoitavam em fazendas hospitaleiras, em povoados perdidos nos cantos mais escondidos das matas e dos morros. Eram viagens que emocionavam, e realmente transportavam.

Viviam aqueles peregrinos o ânimo e o espírito, diante de tudo o que é absolutamente novo e estranho, a fadiga e a vigília, os sons das sinfonias naturais, as cores e luzes e ventos, todos os desafios, tudo podia acontecer, e tudo dava motivo para anotações em diários de viagem; nossos viajantes do passado deixaram livros preciosos com descrições da natureza e dos costumeZs.

Hoje, o viajante passa horas ao computador planejando, escolhendo, vendo voos, comparando preços, pressionado a fazer tudo depressa, depois vai enfrentar filas nos aeroportos, nas alfândegas, caminhadas nos corredores em meio a multidões, preocupado com qualquer atraso de voo, perda da conexão, receoso de perder as malas, tudo é minuciosamente encaixado.

É preciso muita sabedoria para não chegar já incrivelmente estressado ao destino, porque tudo tem pressa, o tempo é raro, o sapato aperta, o viajante esquece um computador no aeroporto, um casaco no restaurante, esconde seu passaporte e seu dinheiro para não perdê-los, tem medo de ser roubado, faz conversões de moedas a cada instante, os hotéis são todos iguais... E finalmente lá estão as ruas, os monumentos, as igrejas, os museus, os parques... Mas pouco o viajante vê, do que está diante de seu olhar.

E, finalmente, ele volta para casa. As viagens viram fotos, lembranças vagas, não se escrevem mais diários de viagem. Dizem que na Holanda há psiquiatras especializados em pessoas que retornam de viagens, e o que eles costumam aconselhar é: Volte imediatamente ao trabalho!

Ainda bem que ainda existem viajantes que atravessam desertos em caminhadas, ou as florestas selvagens e úmidas do planeta, ou navegadores que atravessam oceanos remando solitários um barco pequenino, empreendendo um ato de coragem diante do que sempre desafiou a humanidade. Ainda bem que ainda há casamentos no Marrocos, não a festa, mas o ritual de aldeia em aldeia, para que os familiares do noivo conheçam a princesa.

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.