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Ana Miranda: Os gatos de nossas vidas

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Ana Miranda: Os gatos de nossas vidas

00:00 · 30.06.2018

Aprendi a gostar de gatos quando ainda era menina. Nosso primeiro felino foi um boêmio, com ar de bêbado, de um amarelo rajado e desbotado, que vivia pelos telhados e de noite se juntava aos bandos de gatos vadios. Vinha dentro de casa só para comer.

Era um gato distante, quase selvagem, que pouco aceitava carícias, mas nos divertia muito, ele fazia parte da família. Zé Gatinho foi o nome que meu pai lhe deu. Meu pai o encontrou na rua, quer dizer, naquela cidade, Brasília, ainda não havia propriamente ruas, mas o encontrou vagando nas valas ou nos restos de cerrado que havia detrás da nossa casa.

Havia muitos gatos de rua durante a construção da cidade, acho que chegavam nos caminhões junto com os nordestinos que iam trabalhar na construção da cidade, talvez Zé Gatinho fosse um gato cearense e por isso se acostumou com a nossa família, reconhecendo o acento.

Desde então, sempre tive gatos. Alguns eram gatos literários, de fábulas, personagens, que existiam apenas na imaginação e nos países das maravilhas, como o de Alice. O malicioso, astuto, imprescindível gato de Cheshire fazia truques espantosos, como tirar a própria cabeça, ser engolido pelo sorriso; ou ficar subitamente invisível, o que eu mais lhe admirava. Esse gato indicava à menina o caminho a seguir entre elementos do mudo de mistérios e sonhos.

Sem falar no adorável Gato de Botas, que dava cada passo com sete léguas, contradizendo o ralentado ritmo de nossas realizações, do nosso dia a dia, uma ilusão perfeita para as nossas ânsias.

O mais inesquecível gato que tive foi o Gaspar. Bravo, imenso, parecia um tigre, branco rajado de preto, e ciumento, qualquer homem que se aproximasse de mim ele mordia os calcanhares. Também me lembro da Lygia, uma gatinha de olhos verdes, que recebeu este nome em homenagem à grande dama da literatura, que tem os olhos mais misteriosos do mundo: a Fagundes Telles.

Os olhos de Lygia, a escritora, são ao mesmo tempo castanhos e verdes. Lygia adora gatos, são até seus personagens. Muitos são os escritores que amam felinos e os tornam personagens de sua literatura.

Lord Byron, Mark Twain, Huxley, Neruda, Balzac, La Fontaine, Verlaine, Zola, Poe, Céline, Sartre, Cortázar, Bukosvski, Hemingway, Guimarães Rosa, Borges... Pantera sob a Lua, mais remota que o Ganges e o poente...

A gata que me acompanha hoje é a Filó, nome tênue que concorda com a sua delicadeza. Encontrei-a, também, ao acaso, quando procurava um casal de siameses. Na loja, uma gatinha híbrida estava sobre uma mesa, e quando me viu ficou em pé, levantando as patas dianteiras quase numa dança de cumprimento e sedução. Seu preço era pouco mais do que o de um litro de leite. Comprei-a e passei a lhe pertencer.

Seu nome completo é Filomena, nome antigo, de tias perdidas no passado. Ela é extremamente elegante em todos os momentos, mais do que os outros gatos que tive, talvez por ser tão delgada. Lânguida em seus gestos, num curvar-se, num saltar, num virar o rosto, atende a qualquer necessidade de beleza.

Seus olhos quase líquidos, rodas de vidro cheias de águas e cristais, reflexivos como os de uma poetisa triste a procurar uma palavra, me acompanham na intimidade. Mas, em outros momentos, ela parece divagar dentro de um leve desprezo, com os olhos impassíveis, sem jamais aparentar superioridade ou arrogância, e muito menos, humildade ou submissão.

Quem pode acreditar que não há alma atrás destes olhos luminosos? Silenciosa, calma, ela é a companhia ideal para quem gosta de estar sozinho. E ler. E escrever.

Filomena se refastela sobre meus dicionários, examina os in-fólios, cheira os livros, seus rivais, ou se posta diante do meu texto a brilhar na tela, talvez vendo pequenos insetos que dançam e falam.

Parece, às vezes, recusar uma vírgula, pesar uma palavra, ou aprovar certa expressão. Agora, mesmo, está deitada em torno do teclado, escutando os barulhinhos das teclas, que lhe parecem tambores distantes. Abre os olhos, aprova o que acabo de escrever, e volta a dormir.

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