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Ana Miranda: onde está o sanfoneiro?

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Ana Miranda: onde está o sanfoneiro?

00:00 · 25.08.2018

A orla de Fortaleza é uma das mais bonitas, agradáveis e divertidas que conheço. Fico pensando o motivo. Deve ser porque tem muitas árvores, bosques, a cambiante cor dos verdes mares, as cintilações dos crepúsculos; também a riqueza visual e humana. É quase uma cidade!

Tão bom caminhar no sombreado; sob as rendas de luz que as folhas desenham nas copas a caminhada fica mais fresca. A cor das calçadas é aconchegante, não reflete muito a luz do sol, não esquenta nem satura.

Calçadão foi feito para a caminhada, o exercício físico. É disto que precisamos: calçadas lisas e não escorregadias, planas, sombreadas, frescas. Alguns bancos. Áreas de esporte e de lazer. Praças com sombra, muito verde.

Bom olhar as manchas verdes, a vegetação não apenas nos dá mais saúde e ar limpo e fresco, como nos causa a sensação de bem-estar. E as copas das árvores fazem sempre uma moldura para o espetáculo do entardecer no mar, impossível não parar e admirar a arte da natureza.

Há nas calçadas acontecimentos extraordinários, como o sanfoneiro que senta ali há mais de vinte anos e, em sua forma corporal única e comovente, ele abre e fecha a sanfona produzindo uma sonoridade mágica, que lembra John Cage e sua música aleatória.

Parada saudável é obrigatória no Abacaxi do Paraíba: rodelas dessa fruta as mais doces e deliciosas servidas num palito, ou fatias de melancia, tudo sustentável, saudável, latinha de lixo para as cascas, palitos de madeira. De vez em quando, uma rifa de bicicleta.

Há os carrinhos de açaí, os de milho verde, os de cocada, os de coco verde, bancas de acarajé, vendedores de pipoca ou de tapioca; há quiosques com souvenires, e o mercado de artesanato atrai gente que gosta de comprar. Massagistas, pintores, restaurantes. Há o trenzinho.

Ah, o trenzinho é um show; no local de partida os animadores, com suas cabeças de bonecos, com roupas de super-heróis, dançam uma coreografia simples, alegre, e saem saltando perigosamente entre os carros e pulando sobre rampas, perseguidos por cachorros vadios.

Um professor dá aulas desta nova moda de dança, a zumba, que mistura salsa, merengue, samba, até dança do ventre! E seguem-se grupos com habilidades incríveis, que treinam aqui e ali street dance, capoeira, ou uma luta de que não sei o nome, mas são rapazes tão hábeis como os gatos, sobem as escadas de costas, e fortes como os machados, chegam a quebrar cocos com um só golpe do braço.

Rapazes de corpos delineados entram no mar, são os nadadores, atravessam as águas de um píer ao outro, saem e vão ouvir sambas maliciosos na barraca do Marquinhos, onde se toma uma água de coco bem geladinha e gostosa. Alguns deles vão pescar ali mesmo, ou nas pedras negras do píer, trazem peixes prateados, pequenos, talvez insalubres, que ficam secando ao sol numa bandeja.

Há os quiosques para aluguel de caiaques, para os passeios de barco, há o espetáculo dos barcos, há na areia uma espécie de estalagem de pequenos barcos, há os navios - eles não deveriam estar nesta paisagem, mas são lindos e simbólicos.

Há as esculturas tradicionais, a estátua de Iracema, as estátuas de Iracema e Martim, o nome do Ceará, onde sempre para alguém a fazer fotos; e as belas esculturas do Sérvulo, uma que parece as velas de jangadas e está lá, de volta, a Femme-Bateau, na ponta de uma longarina...

Os cachorrinhos que passeiam, os bandos de gatos vadios, pescadores que ouvem música, gente do morro que pode usufruir do prazer de ter um mar; há as saídas de jangadas com velas vermelhas, a regata de jangadas, a linda volta do saveiro com colar de luzinhas...

Tudo obra do povo, que construiu uma vida à beira-mar, uma vida que tem a sua face, a sua alma, o seu modo de ser, meio gaiato, alegre, informal. Agora soube que vão fazer uma grande reforma, e fico imaginando se vai se apagar essa força cultural espontânea.

O filho de uma amiga viu um vídeo mostrando o belo projeto, com moças de salto alto caminhando no novo calçadão. Ao final, espantado, exclamou: Mas, cadê o sanfoneiro?

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