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Ana Miranda: Onde está a felicidade?

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Ana Miranda: Onde está a felicidade?

00:00 · 11.11.2017

Nem mesmo sabemos o que é a felicidade. Inda menos, onde ela está. Uns dizem que a felicidade é uma espécie de esquecimento. Entendo, e até me lembro de concordar.

O mundo é tão cheio de sofrimentos, injustiças, humilhações, exílios, guerras, que é preciso, mesmo, perder a consciência disso tudo, para se sentir momentos de felicidade.

Estado de uma consciência plenamente satisfeita, bem-estar, ventura, sorte, bom êxito... Mas ela é assim, arbitrária, num dia estamos felizes sem motivo, noutro dia temos motivos para sermos felizes, e choramos. Felicidade é um estado de espírito?

Paz de espírito. Equilíbrio mental e físico. Um estado durável de plenitude. O sofrimento e a inquietude naturais são transformados em algo. Um poema, uma equação, uma música, um passeio, olhar uma paisagem... Escrever um livro intensamente desejado.

Cientistas dizem que a felicidade é um fenômeno hormonal. Serotonina, dopamina, ocitocina, endorfina, produzidos em quantidades corretas e em harmonia uns com os outros. Segredos da natureza humana.

Uns se sentem felizes fazendo o bem a outrem. A felicidade de uma criança pode ser uma caixa de bombons. A de um prisioneiro será a liberdade. Para outros, a suprema felicidade da vida é ter a certeza de ser amado.

A verdadeira felicidade pode estar em casa, na alegria das crianças. Pode estar num sonho que jamais se realiza, mas nos mantém vivos. Pode estar num sonho que nos faz lutarmos, e pode estar nessa nossa luta por nosso sonho.

Dinheiro não traz felicidade. Aquele que não é capaz de ser feliz, entrega-se ao dinheiro (Schopenhauer). Millôr, com sua irreverência, dizia que o dinheiro não traz felicidade, mas paga todas as despesas dela.

Ser feliz pode ser uma decisão. Vou ser feliz, e pronto. Às vezes, perdemos as pequenas alegrias esperando uma grande felicidade. A felicidade é gota a gota. É feita de instantes, de clarões.

Não temos tudo, mas temos pedaços. Podemos fazer montagens que façam sentido, e criar uma felicidade com os presentes com que a vida nos abençoa. Sempre há. Felicidade é saber olhar?

A Bíblia diz que dos pobres de espírito é o reino dos céus. Talvez dos simples, dos desinteressados, dos calmos, dos pacientes, dos que não amam e nem precisam ser amados.

Os estudos sobre a felicidade são antigos, começaram com o zoroastrismo, 17 séculos a. C. A felicidade era simplesmente um lugar ao abrigo do fogo e dos animais ferozes; mulher, filhos e rebanhos de gado. Lao Tsé: união com as forças da natureza.

Confúcio: dever, cortesia, sabedoria, generosidade. Buda: superação dos desejos. Dalai lama: serenidade. Aristóteles: linguagem, virtude. Epicuro: satisfação dos desejos desde que não tempestuem a vida.

Estoicismo: tranquilidade e aceitação do destino. Jesus Cristo: amor. Maomé: caridade, e esperança numa vida após a morte. Tomás de Aquino: visão da essência de Deus. Rousseau: educação e retorno à simplicidade original. Utilitarismo: a felicidade está nas mãos dos governos.

Positivismo: ciência e razão, altruísmo e solidariedade. Marx: uma sociedade sem classes. Freud: o Princípio do Prazer contra o Princípio da Realidade. Psicologia positiva: fingindo ser feliz se aprende a ser feliz. Birman: culto do indivíduo, qualidade de vida e autoestima alta, ser feliz seria o resultado de um projeto de produção de felicidade.

Moderno conceito de felicidade: fatores hereditários, inteligência, buscar objetivos de acordo com suas aptidões, riqueza nas relações humanas, forte identidade étnica, ser competente, ser ajudado, ter apoio, ser agradável e gentil, não valorizar as próprias falhas e defeitos, gostar do que tem, ter confiança em si mesmo, pertencer a um grupo, ter independência, sentir realização pessoal.

Os poetas podem até não saber o que é a tal felicidade, mas sabem com toda certeza onde se encontra, como disse Quintana: "Quantas vezes a gente, em busca da ventura, Procede tal e qual o avozinho infeliz: Em vão, por toda parte, os óculos procura Tendo-os na ponta do nariz".

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