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Ana Miranda: O pensamento tem pontuação?

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Ana Miranda: O pensamento tem pontuação?

00:00 · 21.10.2017

Fico pensando se o pensamento tem pontuação ou não tem pontuação, essa é uma polêmica que existe dentro da literatura tanto para escritores como para leitores: tem ou não tem pontuação? Tem ou não tem parágrafos?

Tantos leitores estranham os textos modernos que não usam vírgulas nem pontos nem ponto e vírgula, nem exclamação nem interrogação, mas são perfeitamente compreensíveis. Sobretudo, textos de monólogos interiores. E fica a dúvida. O pensamento tem pontuação?

Essa polêmica existe desde que James Joyce escreveu a última parte de "Ulisses" (1921), uma técnica narrativa chamada fluxo de consciência, ou então, corrente de pensamento e num monólogo interior de sua personagem Molly Bloom ele escreve sem pontuação. A Molly pensa assim:

... "agora a minha vez está chegando eu vou ficar muito alegre e amiguinha na coisa oh mas eu estava esquecendo esta peste de droga de coisa puh a gente não sabe se rir ou se chorar a gente é uma mistura de ameixa e maçã" ...

Parece demais um pensamento fluindo dentro de uma cabeça de mulher, mas não são só a não pontuação e os não parágrafos que dão a sensação de que estamos mesmo lendo um pensamento e sim, também, a linguagem fragmentada. Vale a pena ler o famoso "monólogo de Molly Bloom". Liberta a nossa mente um pouco mais. Espanto! Descobertas! Diversão.

O romance de 852 páginas se passa em Dublin, a cidade heroína maldita de toda a obra de Joyce, que lhe parece um labirinto, de onde seu personagem Stephen Dedalus precisa escapar assim como o mitológico Dédalo escapou do labirinto de Creta.

... Quantos labirintos temos em nossas vidas para nos aprisionar e nos fazer perder ou nos sentir perdidos ou sem saída?!?! A pontuação nos ajuda a sairmos dos labirintos? Ou ajuda a nos perdermos ainda mais?

"Ulisses" transcorre num único dia, 16 de junho de 1904, e é narrado num prelúdio em três partes, um núcleo de doze capítulos e um final tripartido. Essa divisão numa perfeita simetria foi estudada com o auxílio de computadores e "Ulisses" é considerada, desde então, a obra de estrutura matematicamente mais perfeita de toda a literatura. Também a linguagem é obra-prima.

James Joyce cria uma linguagem que vai da poesia à ópera, da farsa ao sermão, do teatro ao coloquial de rua, usando não apenas termos que usamos no dia a dia, desde a conversa mais clássica até a mais grosseira gíria, mas usa também elementos criados a partir de seus "conhecimentos de latim, grego, sânscrito e uma vintena de idiomas modernos".

Nos 18 episódios ele organiza 18 formas narrativas diferentes, e em muitas dessas ele segue a técnica do monólogo interior, o fluxo de memória e do inconsciente de personagens que pensam em voz alta, criando assim a ideia da infinita complexidade da existência humana.

Narrativa juvenil, catecismo pessoal, monólogo masculino, narrativa madura, narcisismo, incubismo, dialética, labiríntica, desenvolvimento embriônico, alucinação, narrativa senil, catecismo impessoal, monólogo feminino, são algumas das formas narrativas que ele cria.

Faz um paralelo com a "Odisseia" de Homero, o mais antigo texto de ficção que conhecemos (século VIII a.C.). Joyce faz uma viagem não a Ítaca, mas uma viagem experimental ao mundo moderno, sintetizando de forma quase mágica nossos avanços científicos, nossas questões religiosas, raciais, estéticas, sexuais, sociais.

Outra lenda que cerca este livro de Joyce: você, que diz ter lido "Ulisses", realmente, enfrentou todas as páginas? Você realmente leu todas as páginas de "Ulisses"?

Muita gente se encantou com os livros do Saramago e pessoas comentavam o uso que ele fazia da não pontuação e da marcação dos diálogos, Eu nunca pensei nisso antes, ele disse, era assim...

Acho engraçado porque estou sempre lendo textos bem antigos, do século 15, do século 16, e ali não há nenhuma pontuação, nem vírgulas nem pontos nem pontos e vírgulas, e a pontuação de um sermão de Vieira é totalmente diferente da que usamos hoje, e então, penso que a pontuação é apenas uma marca do tempo.

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