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Ana Miranda: O lugar dos livros

Ana Miranda

Ana Miranda: O lugar dos livros

00:00 · 09.09.2017

Livros na biblioteca, livros no gabinete, na sala, na cozinha, no banheiro, livros numa sapateira, numa fruteira, livros como peso de porta, como pedestal de um laptop... Afinal, qual é o lugar dos livros na casa?

Sabemos que, sem livros, a história é silenciosa, a literatura emudece, a ciência fica estropiada, o pensamento e a especulação, paralisados. Frase de Barbara Tuchman. Mas nossas bibliotecas, por pequenas que sejam, expressam nossa personalidade. Diga-me o que lês e te direi quem és.

Além de sua presença inteligente, o livro embeleza qualquer ambiente, tornando-o acolhedor. Um dos mais ricos painéis é o de uma estante de livros: cada um deles tem uma história, uma procedência, uma sugestão sentimental.

Uma das salas mais lindas era a de Darcy Ribeiro, no seu apartamento em Copacabana, reformado pelo amigo Oscar Niemeyer. Muito comprida e de pé-direito alto, tinha a mais longa das paredes forrada de livros, do chão ao teto, além de orquídeas por todo lado.

Uma das salas de jantar mais deslumbrantes que vi tinha as quatro paredes forradas de livros, até em volta das janelas, no meio havia uma grande mesa de madeira com suas cadeiras. Só isso.

A cozinha mais adorável que vi tinha uma das paredes forrada de livros, a maioria de receitas e horticultura em convivência íntima com jarrinhos de ervas, panelas, colheres de pau e tachos de cobre.

Alguns escritores, talvez os mais ciumentos, guardam seus livros no quarto. Já vi até um jardim de inverno no qual uma grande estante de livros convivia com vasos de flores, filodendros e samambaias. A presença de livros dá alma ao recinto.

Vi alguns ambientes num livro que comprei faz décadas, e que estou sempre folheando, a sonhar: 'At home with books'. Em casa com os livros. São fotos de soluções as mais belas e curiosas sobre a convivência entre seres humanos e seus livros.

Uma pilha de livros que serve como mesa de cabeceira, uma estante que dá vida a uma decoração fria e minimalista, uma cesta cheia de livros ao lado de uma cadeira de balanço, pequenas estantes com livros preenchendo nichos ou debaixo de escadas.

Livros multiplicados por espelhos para preencherem a solidão de um autor, livros como se fossem papéis de parede ao longo de todo o ambiente, livros num surreal closet repleto de sapatos coloridos anunciando uma escritora que tem vida social intensa.

Ou uma sala em que todos os livros foram encapados de branco e postos deitados em estantes brancas fazendo parecer a sala de um monge budista. E, a maioria, espaços cuja beleza é composta pela simples presença de livros.

Eu mesma me orgulho de uma dessas soluções criativas. Tinha livros demais para o meu escritório pequeno demais para tantos livros, e a minha mesa no centro da sala era de vidro, em cima de um tapete peludo branco, e ali, debaixo do vidro, empilhei em quatro filas meus livros de imagens, grandes e de capa dura, os que tinham as capas mais bonitas, de forma que por baixo do livro eu via um painel de capas de livros:

O rosto de Clarice, uma paisagem de Debret, uma pintura da Frida Khalo e um Gabinete de Curiosidades. Na semana seguinte um Franz Post, o rosto de Suassuna combinando com uma paisagem de caatinga e papagaios amarelos. Uma mesa-vitrine.

Um amigo meu guardava seus livros no banheiro, por causa do pó. Outro me contou o caso de alguém que guardava seus livros no porta-malas do carro. Certo é que todo lugar é lugar de livros, todo lugar é bom para livros, um corredor, uma sala caseira de cinema, uma brinquedoteca, uma varanda...

A antiga imagem de uma biblioteca como um lugar silencioso, calmo, dedicado ao estudo solitário, está se apagando, os livros não vivem mais confinados a um único espaço ou a um escritório apenas para estudos ou trabalhos.

As pessoas que amam livros querem e precisam ter seus livros acessíveis, próximos, visíveis, numa liberdade altiva e serena. Queremos ficar sempre perto desses nossos amigos leais, francos, divertidos, cultos, eloquentes, silenciosos, calmos e sábios, que são os livros.

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