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Ana Miranda: O cearense

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Ana Miranda: O cearense

00:00 · 07.10.2017

Quando me mudei para o Ceará, foi que comecei a conhecer o jeito de ser do cearense. O gosto pelo riso, uma certa pureza e a meiguice interioranas. Um orgulho meio heroico, uma têmpera sertaneja.

Olhava para o modo de ser do cearense, querendo melhor conhecer a mim mesma, e cheguei a descobrir afinidades - continuo descobrindo -, mesmo tendo sido criada longe do Ceará. Dizem que há em nós muitas coisas atávicas.

Atavismo, para quem não se lembra, é o reaparecimento, em um descendente, de um traço de caráter que só existiu nos seus ascendentes remotos.

Terminei a leitura de "O cearense", de Parsifal Barroso. Um livro que é resposta ao ensaio de Gilberto Freyre, "Precisa-se do Ceará". Belo livro, todo cearense que se quer bem precisa lê-lo.

Da linguagem, vejam as pérolas que recolhi, ao acaso: vasta ferradura pétrea de serras, gestos rasgados em braçadas, a sinceridade das convicções à flor da pele, anos de cansadas lutas, seus legendários artífices, o ativismo andejo, a aceitação passiva do fadário... E muitas mais.

Diversas são as páginas que especulam nossos ascendentes: a interrogação sobre a prevalência do sangue ameríndio ou a predominância lusa, e a existência de um terceiro componente para formar a "flor amorosa das três raças tristes", palavras de Freyre.

Um "talvez" que se refere à miscigenação cigana, ainda misteriosa. Cartas régias do século 18 determinavam o degredo de tribos ciganas preferencialmente para o Ceará. E mais: africanos negros, judeus, holandeses, franceses.

O vaqueiro, o jangadeiro, o jagunço e o beato seriam os tipos mais marcantes da nossa paisagem humana. Parsifal se recusa a aceitar uma psicologia do cearense condicionada às circunstâncias do meio geográfico ou do meio social.

Mas concorda que no Ceará a terra e o povo sempre viveram e vivem unidos "na identidade de um mesmo e tortuoso destino". Três mil horas de luz, sol dardejante, o ar seco e o vento renovador, a terra estendida para uma ferradura de serras.

Há uma sequência de páginas de nossa história encerradas por uma maravilhosa citação a Guimarães Rosa que muito nos define: "A vida não tem passado. Toda a hora o barro se refaz. Deus ensina".

Nosso perfil: tendência ao confinamento, mercantilismo inato, ativismo que nos impele, uma ambivalência verão-inverno que se expressa em radicalismos passionais. Mentalidade impressionista. Versatilidade sagaz. Inteligência e imaginação extremas.

A imprevidência. Um caráter insatisfeito, inquieto e inseguro. O "espartanismo" negativo. (A espartanidade aqui é austeridade.) Capacidade de resistência. Fatalismo. Tendência mágica. O sentido de uma espera. Somos essa beleza toda. E mais.

Temos afeição pela terra. Uma indiferença sobranceira, mas sempre tocada por uma "graça vivaz". Atitudes preventivas e defensivas. Sublimamos as tristezas. Somos bélicos, e temerários diante dos riscos. Desconfiados, irreverentes, sarcásticos, irônicos.

Apesar de expansivos a ponto de nos ser difícil guardar segredos, muitas vezes nos tornamos retraídos, introvertidos, em função de alguma conveniência, acredita Parsifal. Somos vanguardistas, nosso orgulho é citar em que fomos os primeiros:

Primeira abolição da escravatura, primeiro grande romancista, primeira academia de letras, primeira mulher na academia brasileira, primeiro romance do regionalismo... E temos uma incontrolável tendência libertária, às vezes em reações de indisciplina social. Nenhuma queda para a tradição. E por aí vamos.

Parsifal foi governador do Ceará. Era político, e era intelectual, no tempo em que intelectuais governavam. Alguém disse que um país é grande quando as pessoas de bem têm a mesma ousadia dos canalhas.

Ah que saudades dos tempos de José de Alencar, quando a população ia em peso assistir aos eletrizantes e muito cultos discursos no Senado que era composto pela nata da nata dos pensadores brasileiros.

Foi o neto de Parsifal quem promoveu a reedição, Igor Queiroz Barroso. Senti tantas esperanças de que os meus netinhos vão preservar o pouco que fiz!

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