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Ana Miranda: O beijo

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Ana Miranda: O beijo

00:00 · 24.02.2018

Anos 1990, andava na praia quando parei a olhar um desfile, e ali, na curva do Arpoador, vi marinheiros se aproximando, todos de uniforme branco, os detalhes em azul-marinho.

Caminhavam vibrantes, decerto desembarcados depois de uma temporada na dura vida do mar, decerto encantados com a beleza do Rio. Adentravam o lendário bairro de Ipanema. Um deles veio até mim, tirou o quepe, tomou-me em seus braços e me beijou. Invisíveis bocas que nos vêm beijar...

Como aquele beijo de um marinheiro roubado a uma enfermeira, fotografado na Times Square em 1945, foto que se tornou ícone do fim da Segunda Guerra Mundial e símbolo do entendimento.

O beijo pode ser um gesto de afeto, de desejo, amizade, despedida. Basium, beijo entre conhecidos, osculum entre amigos, e suavium, o beijo dos amantes. Seja como for, o beijo sempre é expressão de amor.

Será? Diz o poema de Augusto dos Anjos, O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. E há o beijo de Judas que denunciou Jesus cujo sacrifício, todavia, salvou a humanidade, segundo o Cristianismo. E beijos tão violentos que arrebentam os vasos e deixam manchas roxas na pele.

O papa beija pés de mendigos, há o beijo da harmonia, o beijo da concórdia, o do pacto político, o beijo de juramento, o de bênção, o beijo de respeito, o beijar a mão, beijar o chão em que se pisa... Aquele beijo dos esquimós, com a ponta do nariz. O beijo de boa-noite. Beijo de bom-dia!

Beijo de contos de fadas. De feitiçarias. Com um beijo do Príncipe a Cinderela acorda. Com um beijo da princesa o sapo volta a ser príncipe. Santo ou pecador, o beijo verdadeiro é de amor. Muito antigo, já estava no Cântico dos Cânticos, Beije-me ele com os beijos de sua boca: Porque teu amor é melhor do que o vinho.

Os filmes antigos terminavam sempre com um beijo. O beijo em Casablanca talvez seja o mais impressionante, não o esqueço. Tenso. Mas, antes, o mais lindo de todos os beijos, de minha infância, foi o beijo de Lady e Vagabundo, guiado por um fio de espaguete. Existe até um prêmio para a melhor cena de beijo, na MTV Awards.

Os beijos censurados... Adoro aquele detalhe do filme Cinema Paradiso em que o projecionista deixa de herança para o amigo um rolo de filme com todas as cenas de beijo que foram cortadas pelo padre, e montadas em sequência.

O melhor beijo, o mais delicioso, decerto não é pelo carnudo dos lábios, nem pela cor da pele, nem pela experiência ou sabedoria sensual dos amantes, nem pela temperatura da carne, nem pela suavidade da língua, nem nada vezes nada. O beijo mais delicioso é o beijo da pessoa amada.

Beijo não é humano, apenas. Pássaros se beijam raspando os bicos. Insetos se beijam afagando as antenas. Os macacos se beijam, parecido com os humanos. A Filomena, minha gatinha, me beija lambendo a minha pele.

A lembrança dos teus beijos Inda na minh'alma existe, Como um perfume perdido, Nas folhas dum livro triste, Florbela Espanca no poema "Cantigas leva-as o vento..." Sim. Há beijos inesquecíveis em nossas vidas.

Nunca me esqueci daquele instante surpreendente, penso nos significados do beijo, dos beijos todos, no entendimento que pode existir entre os seres se houver uma delicadeza na aproximação.

Uma cerimônia, um teatro, uma poesia. E aqui, eu canto aquele beijo. Diziam os antigos que tudo existe apenas para ser cantado. E ainda hoje me pergunto quem era o marinheiro. Sei que era francês, e nem sei por que motivo sei que era francês. Meu filho dizia a frase primorosa, Sei sabendo!

Talvez um quase menino que fugiu da casa do pai e foi conhecer o mundo, talvez um sonhador, um solitário e tímido que teve um instante de ímpeto. E quem será ele, hoje? Um oficial? Deixou a vida marítima? Vive? Lembra de mim? Pensa em mim do mesmo modo, Quem será ela?

Lábios formando O sonho de um beijo... Nunca ides além Do mero desejo... Tocar outra boca Na nossa é tristonho Para quem conhece O sabor do sonho Invisíveis bocas Que nos vêm beijar De um céu que só existe No nosso sonhar... (Fernando Pessoa)

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