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Ana Miranda: Mulheres navios

Navios

Ana Miranda: Mulheres navios

00:00 · 17.03.2018

Da varanda do meu escritório se desvela o cambiante mar pontilhado de navios, e navios são mais que nomes e objetos bonitos: são carregados de atributos. O partir, o buscar, o sonho, o "navegar é preciso".

A travessia de um mundo material para um mundo espiritual, em algumas culturas. A passagem, e o próprio percurso da vida, quando atravessamos estreitos entre Cila e Caríbdis, em ondas azuladas repletas de sereias com seus maviosos cantos assassinos.

Na história dos navios houve, aqui e ali, lendas sobre a presença indesejada de mulheres nas viagens pelos oceanos. Mulheres em navios são como baús cheios de pedras, diz um marujo da Peregrinação, sem serventia nem aos gatos.

Mas as naus, em si, talvez fossem mulheres. Talvez os navios ainda sejam mulheres, pois contêm mais do que estão contidos. Uma casca de noz no infinito oceano. Imagens de berço, de útero. Proteção e segurança.

E vem a sensibilidade do grande artista Sérvulo Esmeraldo criar a escultura La Femme-Bateau. Mulher-navio ou navio-mulher. Linda! Inesperada, qual sonho. Os cabelos de metal ao vento qual fumaça negra bem penteada.

Vontade de ficar ali, admirando. Vontade de ser mulher-navio, ou navio-mulher e soltar os cabelos nas ondas, na chuva, nas nuvens. Uma escultura que é também poesia e literatura, e sugere a mitologia das deusas d'água.

Sempre vigilante, atenta, olhando o mar por onde vêm as ondas e as ventanias rajadas. Como todas as mulheres, a femme-bateau passa por tempestades, perigos do mar, sofre a imprevisibilidade do oceano.

Sempre ancorada na velha e corroída longarina da Ponte dos Ingleses, na praia de Iracema, dando a impressão de estar na linha do horizonte onde ficam as mais pequeninas estrelas e os mais ingênuos poemas... Sobre as longarinas invisíveis, no final das últimas ruínas.

Escultura sagrada e talvez distraída, uma escultura-biruta que girava ao sabor dos ventos para sinalizar as direções, quando foi colhida por nosso pequeno tsunami. Partiu-se, adernou, submergiu, encalhou nas areias do fundo.

Comoção entre os moradores sensíveis às artes e à beleza e encanto e originalidade daquela mulher-navio. Uns diziam, Vai voltar, Vão encontrá-la, Se não, fica no mar de nossa memória, Linda e maravilhosa oferenda, Vai fazer muita falta, Vai feminilizar oceanos com beleza, Que após a ressaca restabeleçam o lugar de destaque!

Faz muito tempo Que eu não vejo O verde daquele mar quebrar Nas longarinas da ponte velha Que ainda não caiu Faz muito tempo Que eu não vejo O branco da espuma espirrar Naquelas pedras com a sua eterna Briga com o mar. Uma a uma, coisas vão sumindo. Uma a uma, se desmilinguindo Só eu e a ponte velha teimam resistindo... Beleza de música do Ednardo.

Existiram exímias navegadoras, e rainhas do mar: A mais renomada e mais antiga, talvez tenha sido Jeanne de Clisson, uma dama da sociedade francesa, com cinco filhos. Seu esposo foi decapitado, e ela jurou vingança contra o rei de França, Felipe VI. Vendeu as propriedades, comprou três navios, pintou-os de preto, tingiu as velas de sangue e escolheu a tripulação mais cruel e sem misericórdia.

Capitaneava os navios, dizem que era excelente navegadora. E guerreira, ela capturava as embarcações vindas da França e decapitava todos os franceses aprisionados. Morreu em 1359 e até hoje assombra o castelo onde vivia com seu amado.

Sempre há histórias dentro de histórias. O senhor Alfredo dividiu a uti no hospital com Sérvulo. Muitos dias. Ficaram amigos, naquele ambiente frio. Alfredo saiu, retomou a vida. Sérvulo se foi. Alfredo trabalha na Prefeitura e agora se dedica às esculturas de Sérvulo. Histórias de amor e honradez.

As buscas foram dramáticas, a Femme-Bateau parecia desaparecida para sempre, talvez afundada com profundeza nas areias, mas um homem intrépido, magro como um vaqueiro sertanejo, chamado José de Alencar, mergulhou e tateando as areias do fundo a encontrou. La Femme-Bateau vai voltar a percorrer a linha do horizonte, levando as nossas mágoas para as águas fundas do mar.

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