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Ana Miranda: mistérios da vida

Ana Miranda: mistérios da vida

00:00 · 14.10.2017

"Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia", quem duvida dessa frase shakespeariana? Quem nunca provou desses inquietantes mistérios que aparecem no nosso cotidiano?

Bastar prestar atenção e lá vêm o fato, o pensamento, a observação, a compreensão, o sonho, encobertos de alguma sugestão mágica. Às vezes, tudo nos parece envolto em enigmas. Até nós mesmos. Quem sou eu?

Quem nunca se arrepiou com as coincidências que inesperadamente nos acontecem, em qualquer circunstância? As coincidências são mesmo coincidências? A doutora Nise da Silveira as preferia chamar de sincronicidades.

Duas pessoas convivem e chegam ao ponto de terem os mesmos pensamentos no mesmo instante. Uma sabe ler o pensamento da outra. Dizem às vezes a mesma frase no mesmo instante.

Decido telefonar para minha amiga e o telefone toca, é ela me telefonando. Algumas coincidências são tão banais e repetitivas que as tomamos por transmissão simples de pensamento. Fios secretos, conexões invisíveis.

Os sonhos, às vezes, são proféticos. Muitas pessoas tomam seus sonhos como sinais. Algumas, deixam de viajar quando sonham com um avião que cai, ou jogam nos números que vieram num sonho. Escritores escrevem romances sobre um sonho.

Há muitos escritores que enveredam pela existência do mistério. Clarice parece personificá-lo, está sempre falando em mistério, ela quase que o desvenda por apenas o iluminar. "Por que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga", disse. Assim, penetramos o impenetrável: mistério é não indagar.

Guimarães Rosa acredita que tudo é a ponta de um mistério, mesmo a ausência de fatos: "Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo". Escritores brincam com a nossa vontade de descobrir o que há por trás daquilo que nos fascina, encanta ou desafia. O que nos salva do mistério é o mistério do outro.

Somos, sim, mistério para nós mesmos. Raramente sabemos as razões de algum gesto nosso, de alguma palavra que nos escapa inesperadamente. Raramente, sabemos das maquinações que existem por trás de tudo.

Por que você ama esta pessoa e não aquela? Outra frase desconcertante: "O coração tem razões que a própria razão desconhece" (Pascal). E, mistério dos mistérios: o que é o amor?

O que é o amor, o que é a vida e o que é a morte? Dizem que toda a literatura do mundo expressa apenas esses três mistérios. Um verso de Eliot condensa: "Nascer, copular e morrer, isso é tudo, isso é tudo, nascer, copular e morrer". Será mesmo?

Nem Darwin conseguiu explicar "o abominável mistério das flores". As plantas florais eram poucas, mas num período curto se tornaram quase a totalidade de todas as espécies de plantas. Será que a natureza tem noção do belo?

Pessoas muito racionais dizem que o mistério é apenas uma necessidade que temos de complicar as coisas, que tudo é muito simples, muito claro, e a ciência explica tudo. Será?

Maravilhoso experimentar o mistério. É dele que jorra toda arte, toda ciência, toda imaginação. Já dizia Einstein. É do fascínio pelo mistério que nascem o engenho, os tons e a especulação.

Tenho um caderninho à cabeceira, o qual intitulei: Sonhos, devaneios e bruxarias. Ali, anoto coisas estranhas que me acontecem. Premonições, coincidências, comunicação telepática. Abro um livro ao acaso, exatamente na página que fala sobre o que sinto naquele instante.

Numa loja, o vendedor diz que tal tinta acabou, mas logo chega uma vendedora com uma lata da tinta que eu precisava, alguém desistiu da compra. Compro de presente, antes de uma visita, algumas miniaturas e quando chego, vejo que a pessoa tem uma cristaleira repleta de miniaturas.

Escrevo num livro de ficção uma cena inventada, e depois, lendo um livro documental, descubro que a cena ocorreu, realmente. Teria eu lido a cena e esquecido depois? Teria eu chegado à cena pela lógica da vida? Ficção é o mistério desvendado.

O Veríssimo diz que o maior mistério na vida de um homem não é o que há depois da morte, nem os limites do universo, mas: O que a mulher está pensando?

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