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Ana Miranda: Mercado dos Pinhões

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Ana Miranda: Mercado dos Pinhões

00:00 · 11.08.2018

Manhãzinha, sol fresco, luz suave, quando entro no maravilhoso galpão em estilo Belle Époque. Todas as terças-feiras acordo com os passarinhos e, bem animada, chinela nos pés, roupa larga, olhos sonolentos, vou para o Mercado dos Pinhões.

Não sei se vou mais pela luz da manhã, pelos passarinhos, pelos vegetais orgânicos à venda, pelos amigos, ou pelo cenário. O mercado repousa na praça, meio verde, meio cinza, desenhado com arte e pura beleza. Impressiona. Tem história.

A estrutura metálica é de ferro, fabricada no século 19 pela mesma oficina que construiu a torre Eiffel, a Guillot Pelletier; os franceses desenvolveram este modelo desmontável, que pode se mover para novos lugares; e todo aberto à ventilação e à luz natural, adequado a lugares quentes, como eram as colônias francesas na África, na Índia ou nas ilhas do Caribe. Uma preciosidade da nossa Fortaleza.

Vou olhar os vegetais orgânicos. Encontro alface, coentro, salsinha, salsa, couve, couve-flor, batatas-doces, laranjas, abacate, abacaxi, mamão, uma boa variedade. Quase sempre os vegetais da estação. Se não tem laranja, tem acerola, se não tem couve-flor, tem brócolis.

Juntos, no carrinho, e depois na balança, aqueles vegetais têm um ar de coisas verdadeiras, sinceras, reais. Folhas que são folhas, vagens que são vagens, cenouras que são cenouras...

Tudo com aspecto de mesa da vovó, mesa de fazenda, de sertão, cesta de horta, pintura a óleo. Tudo um pouco bicado de passarinho, besouro, lagarta, porque passarinhos e lagartas e besouros e outros insetos não gostam de vegetais com pesticidas, os mais espertos nem chegam perto. Os tolos morrem logo depois de bicar.

Aqueles produtos vêm de diversas regiões do Ceará: Guaraciaba do Norte, Mulungu, Cascavel, Redenção, Beberibe, Eusébio, Aquiraz... Isso garante de certa forma o frescor dos alimentos. Os preços são um pouco mais altos que os dos vegetais não orgânicos, mas devem custar menos que se desintoxicar num spa ou enfrentar doenças num hospital.

Tudo fica dentro de caixas empilhadas, separadas por preço: a coluna dos quatro reais o quilo, a coluna dos sete reais, a coluna dos nove reais, e tudo em cada coluna tem o mesmo preço. Faço um passeio também por pensamentos, como acreditar que a agricultura orgânica pode ser a solução para a fome no mundo.

Não sei explicar bem o motivo, mas dá um certo orgulho estar ali, fazer parte daquela espécie de crença. Quem são aquelas pessoas? Algumas distraídas, algumas em linha reta, algumas sonhadoras... Ninguém parece ter pressa. Fazem uma fila calma diante da balança, para pagar os vegetais.

Nos quiosques compro cúrcuma, quinoa, ovos, um mel de abelhas extraordinário e mel de cana, ervas medicinais; tudo ali, dizem, é feito com um controle biológico e, a maioria, certificada. Um dos produtores tem uma fazenda na serra e sua plantação nasce livre no meio da mata, é a nova agricultura, selvagem, livre como a natureza.

Aproveito para tomar um bom café da manhã com suco verde, um cuscuz, um copinho de café. Ou uma tapioca só com leite de coco ou um cuscuz de arroz com leite de coco, ou um cuscuz com verduras.

Com amigos, a conversa alegre caminha pelos sabores, pelas risadas. Todos nos sentimos felizes por um motivo pequenino, que é acreditar que estamos nos cuidando, e que vamos viver cem anos. Afinal, a vida pode ser boa!

Muitas pessoas ali já se conhecem, frequentam o lugar; todas são especiais, todas se vestem com personalidade, a maioria tem um corpo em boa forma, são uma gente que se preocupa com o mundo.

Algumas vão só para encontrar outras, ou para tomar um café, ou para matar as saudades de um tempo perdido. Não apenas compras de produtos orgânicos unem aquelas pessoas, mas também por serem pessoas que se reconhecem, que têm passarinhos e manhãs luminosas no pensamento.

Passei há uns dias numa avenida e vi o outro mercado desmontável, tinha a mesma beleza, a mesma estrutura, a mesma história, as mesmas lindas rendas de ferro... E pensei, por que está aqui tão abandonado?

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