coluna

Ana Miranda: Mania de Proust

Image-0-Artigo-2368658-1

Ana Miranda: Mania de Proust

00:00 · 03.03.2018

Muita gente por aí diz que Proust vicia. Alguns seres de grande inteligência e cultura já declararam que leem apenas Proust, nada mais que Proust, e nunca se cansaram de ler Proust, e vão ler apenas Proust para sempre.

Li os deslumbrantes sete volumes de seu romance, Em Busca do Tempo Perdido, acho que mais de duas vezes. Vontade de ler novamente. E é, mesmo, uma experiência transformadora, parece que o mundo adquire novo sentido, nova luz, como se a nossa percepção se alargasse. Ele vai nos deixando, simplesmente, sem ar.

Acho que por seu modo de falar tão cheio de emoções, de volteios, devaneios, tantas frases surpreendentes e reveladoras, e algo misterioso que vai se juntando e se desdobrando em seu pensamento num fluxo infinito de impressões. Ele nos desperta todos os sentidos, percorre as mais delicadas ramificações da vida sentimental, e a beleza da sua voz é de arrepiar.

O doce, a madalena, ele chama de aquela "conchinha de pastelaria, tão generosamente sensual sob a sua plissagem severa e devota". "... Um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha..." Como alguém pode descrever assim tão lindamente? (Tradução de Quintana!)

E o que ele sente quando morde o doce é um prazer que "logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência..." Vai narrando em esferas que nem imaginamos existir e emendando as ideias sem descanso, tecendo a memória, apreendendo o tempo perdido.

Tudo que você pode imaginar sobre pessoas está ali; amor, ciúmes, traição, felicidade, loucura, vaidade, sonho, costumes, inveja, ilusão, pecados, virtudes, o tempo, o prazer, o sofrimento... E tudo visto de uma maneira sublime, profunda, inesperada, estendida.

Uma verdadeira aventura psicológica a leitura de Proust. Ele faz a nossa mente ficar perambulando num exercício de flutuação, ele olha o que ninguém antes olhava, detalhes como o estalido das madeiras, o abrir as pálpebras, o adormecer, uma impressão quase secreta...

Mostra uma abundância de personagens: poetas, atores, pintores, esnobes, garçons, aristocratas, duquesas, criadas... E paisagens e mais paisagens pintadas com pinceladas de mestre e festas, passeios, conversas, jantares, banquetes, a vida familiar, alamedas, igrejas, estradas, nuvens, telhados, jardins... O declínio da aristocracia... Os salões da burguesia, a vida militar...

"A realidade apenas se forma na memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores". "Apenas amamos aquilo que não possuímos por completo". "Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras".

Sua questão central é a memória, existe até a memória proustiana, aquela convocada por algum sabor, um perfume, um ruído capazes de nos transportar magicamente a um momento do passado. É a mordida no bolinho molhado de chá que o faz dar início a milhares de páginas de impressões.

Aromas, sabores, ruídos de nosso passado que permanecem ainda por muito tempo "como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações". Tudo na vida é a busca do tempo perdido.

Dizem que existe antes de Proust e depois de Proust. Na literatura, e no modo de ver o mundo. E imaginar que, quando ele mandou os seus originais para o editor, teve de ouvir que aquilo não era literatura. Pobre André Gide, que disse esse comentário infeliz. Foi Proust, ele mesmo, quem pagou a edição de seu primeiro volume na pequena editora Grasset.

"O desejo nos força a amar o que nos fará sofrer". "O amor é uma doença inevitável, dolorosa e fortuita". "Sonhamos demais com o paraíso, ou ao menos com uma série de paraísos sucessivos, mas cada um deles é, muito antes de morrermos, um paraíso perdido, no qual devemos nos sentir perdidos também".

Últimos Artigos

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.