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Ana Miranda: Insônia

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Ana Miranda: Insônia

00:00 · 28.10.2017

Que me perdoem os insones desesperados. Podem dizer que a sensação de não ter um sono reparador vai causar vários prejuízos na minha vida.

Podem me dizer que a insônia nos traz mau-humor, cansaço, depressão, sono diurno, perda de memória e de reflexos, afeta nossa regeneração celular e estraga nosso sistema imunológico...

Mas a verdade é que, com tudo isso, eu amo muito a insônia. Amo. Se pudesse, se não fosse me enlouquecer ou acabar comigo, eu não dormiria nem um minuto. Adoraria ficar de olhos abertos, pensando, matutando, adoraria ficar acordada.

Acordada, mesmo deitada na cama descansando, leio um livro, desenho, escrevo uma poesia, penso, relembro, organizo o dia, decido... Enfadonho o momento em que adormeço.

Tivesse o dia todas as suas horas, eu faria tantas coisas mais! Escreveria meus romances à noite, no maior dos silêncios e em grande paz. Viveria mais.

Decerto que sentiria falta dos sonhos, os sonhos são espetáculos quase sempre absurdos de reposição de energias e até uma organização de nossa existência psíquica, mas digamos que eu pudesse sonhar sem dormir, seria maravilhoso. Lembraria de todos os meus sonhos.

Adoro a noite com sua Lua e suas estrelas flutuando em mistérios e adoro ainda mais o amanhecer, pudesse, assistiria a cada aurora, a cada nascer do dia porque adoro a manhã. Acordo bem cedinho, como se uma rosa caísse em meus lençóis.

Um escritor amigo me disse que dorme três horas por noite, e a sua literatura é completamente afetada por esse fenômeno: elétrica, muscular, sombria e assustadora.

O problema de quem sofre com a insônia é não sentir sono e querer dormir. O problema é ter medo da insônia. Os deuses são teimosos, e dizem que invejosos.

Camomila mais jasmim mais nogueira mais pitanga, são os florais da deusa, para afastar a insônia. Meditação, banho quente, leite morno, música suave, vinho, soníferos, contar carneirinhos...

Acho que por gostar tanto da insônia e não lhe sentir nenhum medo, ela quase nunca vem me visitar. Durmo quase sempre a noite inteira, um sono reconfortante, longo, completo, raramente entrecortado, e raramente demoro a adormecer.

Insônia familiar fatal, síndrome das pernas irrequietas, transtorno de ansiedade, João Pestana, Xica da Silva, Homem da Areia, luzes brilhantes, celular... Nada afeta meu sono. Café, talvez. Desamor.

Raramente tenho forças para resistir, o sono vem, eu vagueio, ele me vence, me domina, me derruba, logo sonho com acontecimentos recentes, daqui a pouco já nem acordo mais, meus sonhos se tornam histórias...

... Entro num sono profundo, meus olhos começam a se mover rapidamente, fabrico a minha nova força, a minha recuperação, um sono paradoxal com sonhos de fortes e grandes emoções.

E vou como um anjo para o reino de Hipnos, o deus do sono, filho da deusa da noite, jovem com roupas douradas, olhos e cabelos dourados. Ele tem asas, toca flauta, dorme numa cama cercada de cortinas pretas, onde, quando repousa, adota a forma de uma ave. Nas mãos de Hipnos, três papoulas e um chifre.

Hipnose, palavra criada pelo médico inglês James Braid, que induzia seus pacientes a um estado de sono, acreditando que era um tratamento e caminho para a cura de males. Morfeu, não, ele não é o deus do sono e sim o deus dos sonhos.

Hipnos, personagem de "Os cavaleiros do Zodíaco", criado por Masami Kurumada, é um dos deuses mensageiros de Hades. Tem mangá, anime, seriado, joguinho em que ele adormece os oponentes e os faz ter sonhos a seu bel-prazer, ou seja, terríveis pesadelos ou delícias paradisíacas.

Kafka dizia que tanto o adormecer como o despertar são totalmente irreais. Não sei se ele tinha insônia pois tudo nele lembra pesadelo.

Adoro, obviamente, acordar. São três tilintares apenas, para me trazerem as dopaminas da nova manhã.

O tempo mais longo que uma pessoa conseguiu ficar sem dormir foi de onze dias. Mas são muitas as pessoas que dormem a vida toda, sem jamais acordar.

Fassbinder, que quase nada dormia, gostava de responder a quem lhe dizia que precisava descansar: Posso descansar quando estiver morto.

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