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Ana Miranda: Fogueira das vaidades

Ana Miranda

Ana Miranda: Fogueira das vaidades

00:00 · 28.04.2018

 

Eu ouço, constantemente, alguém usando a expressão: Fogueira das Vaidades, e a considero sugestiva. Sempre gostei de fogueiras. Parece que a vaidade humana está sendo purificada pelo fogo.

Vaidade quer dizer aquilo que é vão, vazio, ou firmado em uma aparência ilusória. É alguém atribuir muita importância a sua aparência, a qualquer qualidade física ou intelectual, precisando que alguém reconheça ou admire essas qualidades.

O vaidoso, então, é um fraco, porque precisa da aprovação dos outros, que provavelmente também são vaidosos e precisam da aprovação dos demais, em um moto contínuo de leviandades humanas.

Um dos pecados capitais, a vaidade é condenada pela Bíblia como algo sem valor, que leva à ostentação e à idolatria. Todos falam mal da vaidade. Como se ela fosse mesmo algo muito indesejável.

Os artistas, dizem, são as pessoas mais vaidosas do mundo. Nenhum escapa. Se alguém luta para ser reconhecido, ou se encerra num mundo interior, tudo é vaidade. E os vaidosos tímidos são os piores, dizem.

Fogueira das Vaidades foi um movimento na Itália do século 15, dos seguidores do padre Savonarola. Com seu rosto de quasímodo, ele atraía milhares de seguidores, que iam ouvir seus sermões. Fascinados, cegos, acreditavam piamente em suas profecias.

Os sermões de Savonarola condenavam tudo o que pudesse levar ao pecado. Condenava livros não sagrados, livros considerados imorais; livros de magia, astrologia, adivinhação, enfim, com maior poder imaginativo, eram caminho para o pecado e foram condenados à fogueira, assim como baralhos, roupas de seda, espelhos, manuscritos de música secular, até instrumentos musicais.

Ovídio, Propertius, Dante, Boccaccio entre muitos, foram queimados nesses espetáculos. Adeptos furiosos de Savonarola recolhiam nas casas florentinas o que por conta própria julgassem merecedor da destruição.

Livros, pinturas, esculturas, desenhos e gravuras, cosméticos, que teriam o dom de incitar homens e mulheres ao pecado, foram queimados em praça pública. Os próprios burgueses e senhoras ricas atiravam à fogueira tudo o que possuíam que significasse luxo, vaidade, volúpia, numa festa na praça de la Signoria, repleta de gente. Era a grande festa da Fogueira das Vaidades.

Com sua catadura torva, Savonarola assistia, vitorioso, à destruição do pecado e da irreverência artística, à celebração ao seu ponto de vista, ao seu poder de dominar mentes humanas.

A arte, um campo de liberdade, sempre teve seus detratores. Ao fogo, tudo o que nos inquiete, provoque, ou liberte! Os fervorosos seguidores de Savonarola, chamados de Pranteadores, sempre existiram, e sempre combateram aqueles que criam, ou aqueles que são livres. Continuam existindo.

Na verdade, não foi Savonarola quem inventou as Fogueiras das Vaidades. Elas aconteciam depois dos sermões de são Bernardino de Siena, muitas décadas antes. E já existiam desde os tempos dos antigos egípcios.

Savonarola tinha o dom da palavra, era um fabuloso pregador, e com suas lúgubres profecias e ameaças cada vez mais violentas chegou a ter tanto poder como um rei; andava pelas ruas escoltado por homens armados e tinha, entre seus adeptos, artistas como Sandro Boticelli, que teria lançado ao fogo algumas de suas obras.

Boticelli era tão devoto de Savonarola que chegou a abandonar sua arte, passando por grandes pesares do corpo e da alma. Alguns outros artistas também queimaram suas próprias obras na célebre fogueira. Era uma reação contra a Renascença e seus “modos deletérios”, contra a devassidão do clero, contra o humanismo, propondo o retorno ao ascetismo cristão.

Preso, sob tortura, Savonarola confessou que havia inventado suas visões e profecias e foi condenado à morte por enforcamento e a ser queimado em praça pública – como os livros, os cosméticos, as obras de arte.

Sopro rápido, efêmero é a vida. Devemos meditar sobre a natureza passageira e vã do mundo e da vida humana e a inutilidade dos “prazeres”, ensina a expressão: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade (Eclesiastes).

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