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Ana Miranda: Fazer as malas

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Ana Miranda: Fazer as malas

00:00 · 30.09.2017

Vivemos agora sempre a fazer as malas. Uma viagem vem depois da outra, que vem seguida de outra, às vezes uma emenda na outra, sem pausa, sem descanso. Teresina, Curitiba, São Paulo, Brasília, Diamantina...

Macau, Paris, Califórnia, Frankfurt, Praga... Os escritores, hoje, são quase caixeiros-viajantes. Nômades. Ambulantes. Mascates de literatura. Em vez de escrever uma página de romance, estão a fazer as malas.

Fazer as malas é uma arte. Ainda mais agora, que as companhias estão cobrando pela bagagem. Acabou-se a festa da mala farta, com mudas de roupa para se escolher à vontade. Encontrei no aeroporto uma senhora que estava arrasada, teve de pagar oitocentos reais por uma mala extra, de uns vinte quilos.

Sempre viajei com uma mala média, nem tenho a grande. Levo uma mala dobrável que fica pequenina, para quando a bagagem aumenta, em geral com livros gentilmente presenteados. Os escritores sempre devem prever isso.

Preciso, precisamos, todos os viajantes, ser quase mestres ao arrumar a mala. Preciso, precisamos aprender a viajar só com a mala de mão, aquela que cabe dentro do caixotinho de papelão que as companhias tiraram do oblívio.

Boas aulas serão, de planejamento e austeridade. Para mim, a solução é levar umas roupas básicas e acessórios. A mesma roupa toda preta muda a cada echarpe que eu jogue sobre os ombros. Uma se transforma em cinco, seis. A arte do desdobramento. O milagre da multiplicação dos looks.

"Encha uma pequena mala com frases feitas, se puder, abençoe o rapaz e deixe-o ir", escreveu Machado de Assis. Ao viajar, claro, além da mala leve os assuntos, as pesquisas, os elogios, os poemas e os sonhos. Leve um sorriso, guarde as lágrimas dentro dos sapatos.

Viajei há anos com a Nélida Piñon, uma escritora elegante e minuciosa, para passarmos apenas dois dias numa cidade. Quando viu a minha quase masculina mala em sua sobriedade, ela me disse: Meu amor, não viaje com malas tão pequenas, as mulheres precisam ser caprichosas! Achei muita graça, só mesmo uma escritora como a Nélida para usar tão bem a palavra "caprichosa".

Uma história conhecida é a de John Updike, o escritor norte-americano. Ele chegou a Israel e viu que sua mala fora extraviada, ficou sem roupas, sem nada. Fez uma palestra no dia seguinte com o mesmo paletó da viagem. E saiu no jornal que ele era o escritor mais amarfanhado jamais visto.

Dez dicas para arrumar mala: 1, malas ou mochilas de rodinhas; 2, planejamento para o dia a dia da viagem; 3, roupas básicas, leves, cores neutras, tecidos que não amassam, e secam numa noite; 4, um kit de eletrônicos e cabos para viagens; 5, ponha as meias dentro dos sapatos; 6, roupas muito bem dobradas em rolinhos; 7, leve um cabide descartável para desamassar roupas no vapor do banho; 8, pequenas nécessaires: para maquilagem, para remédios, para cosméticos; 9, tenha um kit de pequenos frascos para shampoo etc. ; 10, um amigo ensinou: nunca viaje sem um par de tênis ultra confortável. Principalmente para as viagens com longas caminhadas. O aeroporto de Hong Kong por exemplo é quase uma maratona.

Viajar é mudar de alma, dizia o Mário Quintana. Então, vá de malas prontas e alma aberta. A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurarmos novas paisagens, mas em ver com novos olhos (Proust). Então, leve um bom par de novos olhos na mala.

Um amigo, um historiador inglês, viaja tanto e fica tão pouco tempo em cada lugar, que nem chega a desfazer a sua mala. Ele se apaixonou por uma escritora quando a viu lavando e passando a ferro as suas camisas que estavam socadas na mala.

"Esta vida é uma estranha hospedaria", diz o Quintana, "De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E nossa conta nunca está em dia". Ah, leve na mala uma cópia do seu documento e outra de seu cartão de crédito. Mala feita?

Alguém diria, Você não faz a mala, a mala é quem faz você. Lá vou eu, vou-me embora, mais uma vez, levando a minha maleta cinza repleta de saudades e com vontade de voltar.

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