Coluna

Ana Miranda: Eu te amo

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Ana Miranda: Eu te amo

00:00 · 09.06.2018

A frase mais conhecida, a mais repetida no mundo deve ser "Eu te amo!" E a mais bela. E a mais pacificadora, a mais calmante, a mais reveladora, às vezes provocante, às vezes desafio.

Eu te amo, yo te amo, je t'aime, I love you, ik hou van je, ich liebe dich, të dua, ti amo, Maite zaitut, Rakastan sinua, Gihigugma ko ikaw, linda em qualquer idioma!

Fiquei pensando em quantas vezes disse ou ouvi essa frase hoje, ontem, na semana, no ano. Ontem uma amiga se despediu e gritou do elevador, Eu te amo! Antes de ontem eu disse aos meus netos, Eu te amo! Minha filha escreveu, Eu te amo infinitamente. Meu filho se despede, Te amo, mãe.

Todos dizemos essa frase, seja com assiduidade, seja raramente, e a ouvimos. E mesmo quem nunca diz Eu te amo, convive com essa frase. Ela está por todo lado: nos filmes românticos, nos the ends hollywoodianos, nas novelas das televisões... Mais raro encontrá-la na literatura.

Os escritores buscam maneiras diferentes de dizer o que sempre foi dito. E, realmente, podemos dizer Eu te amo com outras palavras. Por exemplo, Parmigiano reggiano pode significar Eu te amo. Já explico.

Meu netinho estava de mau-humor, e nem provou, quando lhe dei um pedaço de Parmigiano reggiano e lhe disse, Acho que este é o melhor queijo do mundo. Um mês depois, quando nos despedíamos, ele me olhou bem sério e disse, numa perfeita pronúncia, Parmigiano reggiano. Desde então, quando eu lhe escrevo, Parmigiano reggiano, ele sabe que significa Eu te amo.

Cada um de nós tem a lembrança de uma declaração de amor que nos comoveu ou mesmo mudou nossa vida. Há pessoas que dizem com facilidade, Eu te amo, e repetem, eu te amo, eu te amo. Mas, outras, sentem uma imensa barreira para dizer essas palavras mágicas, e se as dizem, é murmurando.

Outras pessoas ficam tão comovidas quando ouvem que perdem o controle da reação. Uma vez uma moça disse ao seu namorado, Eu te amo, e ele, num impulso, disse, Obrigado!

O amor já foi uma pedra; depois, um deus de olhos vendados, ele atirava flechas que faziam alguém se apaixonar pelo primeiro que visse passar; depois, um deus primordial, uma criança do caos, que nos dá asas e nos tira o bom-senso. Platão dizia que amor é sentir a falta, é a busca constante.

Eu te amo. Seja gasta, seja lugar-comum, seja vazia de sentimento, seja lágrima de crocodilo, a frase é bela, sempre, e é sempre uma frase onde há amor, mesmo quando não há amor.

Dizem que a frase "Eu te amo" muda de significado com o tempo, numa relação de namorados: a um mês, significa, O amor que eu tenho vai durar para sempre; aos dois meses: Estou gostando de como tudo está acontecendo; aos cinco meses, significa, Você é importante para mim.

Aos seis meses: Somos perfeitos quando estamos juntos; aos sete, significa, Somos nós; oito meses, Te amar é como mudar de cidade; aos nove meses: Você é o meu melhor amigo; e aos quatro anos: Passa o açúcar, por favor? Dizem que vai se desgastando e perdendo o significado.

O tema mais difícil para os poetas e para os escritores é o amor, embora digam que estamos sempre escrevendo ou sobre o amor ou sobre a morte, quando não, sobre amor e morte. Aliás, a mitologia diz que ambos tiveram as flechas trocadas por engano, numa caverna, à noite. Eros carrega flechas de Tânatos e Tânatos, flechas de Eros. Quem nunca morreu de amor?

Acho que todos os poetas escreveram sobre as razões e as desrazões do amor; o Chico tem a música "Eu te amo", me conta agora como hei de partir; o Vinicius amava tanto que morria de amor a cada novo amor; o Drummond explicou muito bem, "eu te amo porque te amo", Neruda num porto, com a alma úmida, disse, Aqui te amo, esquecido nas areias como uma velha âncora...

A Clarice disse que uma mulher disse Eu te amo, com ódio, ah, Clarice, sempre pelo avesso; a mulher disse "Eu te amo" a um homem cujo crime impunível era o de não querer aquela mulher.

Mas a melhor, de todas as declarações de amor, é do poeta Mário Quintana: Senhora, eu vos amo tanto Que até por vosso marido Me dá um certo quebranto.

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