Coluna

Ana Miranda: Escritores nas praças

Ana Miranda: Escritores nas praças

00:00 · 17.06.2017

O poeta Baudelaire atravessa a praça, no Papicu. Com sua dor, sua melancolia, sua poesia e seu "spleen" ele chega e observa as pessoas que, sob um caramanchão florido, ouvem a leitura de seus poemas.

Uma linda leitura feita por uma professora francesa, a Martine Kunz, e depois alguém lê a tradução. "Guiado por teu perfume a tais paisagens belas". Estamos sentados em bancos de madeira e ferro cuidados por moradores das vizinhanças. Há jardins, um sol monótono e dolente, vida.

Martine nos conta sobre como era instável a França no século 19, quando Baudelaire escreveu seus versos que fundam a percepção do homem das metrópoles, em relação ao isolamento, ao dar ou não dar conta de tudo, a nossa luta contra a angústia, à sensação de ser ninguém numa multidão.

De repente percebemos um novo modo de ver o que nos acontece, sentimos mais claro o que se passa dentro de nós. E nos emocionamos. Há tanto tempo não ouvimos poesia! E ela está em todo lugar. E a poesia de Baudelaire, na praça de Fortaleza, em voz alta, numa manhã mística e envolvente, parece um sonho.

"Os sóis orvalhados Desses céus nublados Para mim guardam o encanto Misterioso e cruel Desse olhar infiel Brilhando através do pranto"... Fleurs du Mal. As flores do mal do livro de Baudelaire estão ali e se tornam flores do bem. Chove de leve, um homem corre em torno da praça, um menino de uns três anos aprende a andar de bicicleta...

Uma mocinha pergunta: mas o que é "spleen"? E alguém explica: é uma palavra inglesa. Significa baço. Os gregos antigos e a Teoria dos Humores atribuíam os humores a certos órgãos do nosso corpo. No baço, segundo eles, estaria a nossa melancolia e a nossa irritação.

Então, o "spleen" que o poeta Baudelaire imortalizou com um belo poema é um estado de tristeza pensativa que nos acomete a todos, uma angústia sombria e poética, uma vaga infelicidade quase sem razão, e de repente vai embora. Saímos dali sabendo coisas novas, felizes pelo encontro, pelo toque das palavras em nossos verdadeiros humores.

Noutro domingo, noutra praça mais ampla, espalhada, mais solitária, um parque, as árvores se transformam em moinhos de vento e quem aparece ali é o fantasma do engenhoso fidalgo dom Quixote de la Mancha, montado em seu cavalo, armado com sua lança, na luta entre realidade e sonho, que é a luta nossa, ainda, nos tempos modernos.

Em abril foi lida na praça das Flores a peça de Cervantes, "O retábulo das maravilhas". Usando um conto do folclore espanhol, Miguel de Cervantes ironiza seu tempo, o fim do século 16, e o ambiente espanhol. Na trama, um charlatão ilude as pessoas mostrando-lhes uma pintura que só não vê quem é bastardo, ele anuncia. Ninguém vê a pintura, que não existe, mas para não serem considerados bastardos, todos dizem que estão vendo a pintura. Cervantes mostra a situação, satirizando os fundamentos de uma sociedade intolerante e cheia de hipocrisia. À sombra de uma árvore, na praça, os participantes ouvem, seguem, imaginam, riem.

São muitos os escritores que têm andado nas praças de Fortaleza. Um domingo sim, um domingo não. É uma ideia da professora Inês Cardoso, que com suas meninas lindas leva sabedoria, conhecimento, sonho, às praças da cidade. São leituras de textos literários, de poemas, são conversas que andam para onde quiserem. Conversas livres.

Os encontros são gratuitos, são abertos a todos. Sempre no primeiro domingo de cada mês. Algum professor, algum escritor, algum amante da literatura traz algum autor para ser lido. Cada pessoa recebe as páginas impressas do texto, e assim pode acompanhar, ou pelas palavras materiais, ou pelo som da voz.

Acontecem coisas diversas. Um mendigo ouve, acredita ser o maior conhecedor de dom Quixote, e talvez seja, mesmo. Um professor de grego lê com voz doce um trecho. Um professor italiano lê com sotaque. Um atleta para a corrida e alimenta sua mente. Uma psiquiatra faz teatro e quase se joga no chão abraçada ao livro. Cenas de Leitura na Praça, pela honrosa UFC.

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