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Ana Miranda: doce ilusão

Ana Miranda: doce ilusão

00:00 · 07.04.2018

Vejo algo que não roda, a rodar. Escuto no silêncio a voz de alguém que está distante. Sinto calor num dia frio. Um ramo de árvore é um animal no escuro. Vem o cheiro do mar quando me lembro do navio... Todos os sentidos podem nos iludir.

Posso sofrer uma ilusão de ótica, ou causada pelas saudades, ou térmica ou sonora, uma Ilusão causada por medo, por um desejo intenso, pelo desespero, por uma carência, uma esperança.

A realidade é tênue, a vida é árdua. Fácil, mesmo, nos deixarmos iludir. Boa a sensação de ilusão, parece até felicidade, mas se você abrir os olhos, qualquer ilusão desmorona, a ilusão é uma espécie de cegueira.

Amemos as pessoas que se deixam iludir, são quase sempre de bom coração, gente sonhadora, ou que acredita, tem fé em algo. Mas sinto tanto dó! O sofrimento não se faz esperar.

Dizem que a ilusão é um erro de percepção, um engano dos sentidos, ou da mente, mas talvez não seja apenas isso. Talvez a ilusão seja também uma defesa, um item de sobrevivência na selva da vida. Um produto do sentimento. Um descanso. Doce o seu embalo.

Triste é quando ela termina, e não há ilusão que dure para sempre, ela é acompanhada de desilusão. A sensação é de fracasso, perda, desencanto, fragilidade, desamor por si mesmo. Talvez tenha valido a pena se iludir, alguém pode avaliar, será que não?

Penso num viajante em um deserto, sedento, faminto, cansado, que vê bem adiante um oásis repleto de água fresca e tamareiras. Ele tem forças para chegar lá, mas o oásis é uma miragem. Ajudou-o a dar mais alguns passos, mas talvez passos na direção errada. Se o viajante olhar as estrelas, vai saber o rumo.

Sei que, quando não podemos viver algo na realidade, vivemos na imaginação, e isso não é propriamente uma ilusão. Muito tênue a fronteira. O efeito artístico produzido pelo ilusionismo, o efeito literário criado pela ficção, há ilusões que levam a verdades mais profundas, a novos conhecimentos.

A ilusão é uma esperança que não tem fundamento. Mas como saber se há fundamento na nossa esperança? Melhor jogar positivamente. Fazer o mais possível. Confiar no que fez. Mas não esperar demais.

Iludir-se é um risco. Risco até mesmo de não viver. Iludir-se é não observar os elementos de uma situação, trocar a situação real por uma ideia falsa que mais nos agradaria. Delírio, utopia, sonho, miragem, quimera, imaginação. Como vivermos sem nossas ilusões?

Há ilusões perdidas que são tão lindas, que apenas podemos sentir saudades delas. A melhor ilusão é a de que as pessoas que amamos são perfeitas. A ilusão amorosa é a mais dolorida. O mundo é cheio de armadilhas, príncipes encantados, reinos luxuriantes, Pasárgadas, lá tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei.

Um amigo sempre me dizia: alguém pode enganar outra pessoa a vida toda, alguém pode enganar todas as pessoas por algum tempo, mas nunca alguém poderá enganar todas as pessoas todo o tempo.

A política, o comércio, a propaganda, somos bombardeados por mensagens subliminares que produzem ilusões em nossas mentes. Há pessoas mais propensas à ilusão. As de coração bondoso, as ingênuas, sonhadoras, com alma de ficcionista, ou algum desespero interior. Um sonho que nunca se realiza é motivo para ilusões.

Poetas dizem que tudo é ilusão. Que a vida é rede de ilusões e desenganos. A realidade é meramente uma ilusão. Somos desiludidos cheios de ilusões.

Nove ilusões que nos impedem de viver com liberdade: 1. Ilusão da vida fácil; 2. A estrada para "algum dia" que leva a lugar nenhum; 3. O plano mágico; 4. A decisão errada;

5. O apego ao passado; 6. Medo de enfrentar os desafios; 7. Olhar para o que nos falta, e não para o que temos; 8. Desconectar-se do outro; 9. O caos interior. A vida é uma construção de realidades e sonhos, e nada é fácil, na vida.

Os grandes artistas, dizia Maupassant, são aqueles que impõem à humanidade sua ilusão particular. Seria a arte ilusão? Eclesiastes: Tudo é ilusão, tudo é passageiro. Não há nada debaixo do sol que não seja ilusão. A vida é correr atrás dos ventos.

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