Coluna

Ana Miranda: Dizer adeus

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Ana Miranda: Dizer adeus

00:00 · 14.07.2018

Andamos dizendo adeus aqui, ali, andamos sempre com uma sensação de adeus, de um adeus a cada dia, a cada instante, a cada coisa. Adeus, dia, adeus noite! Adeus fim de semana, adeus domingo! Adeus lua cheia, adeus, chuva, adeus florzinha murchando. Adeus, meu amor!

Adeus é uma palavra danada de perturbadora, complexa, sutil; quer dizer na nossa língua uma separação longa, ou para sempre, encomendando algo a Deus, entregando algo em Suas mãos. Tão diferente de Tchau, Até mais, Até breve, Até amanhã!

Fique com Deus, que Deus te acompanhe, significa a palavra adeus; mas também pode ser uma expressão de lamento numa perda, numa lembrança, Ah, adeus juventude! Adeus férias! Adeus paraíso! Adeus solidão! Adeus sapato apertado.

Dizer adeus pode ser um recomeço. Pode ser um gesto de coragem, ou de generosidade, ou mesmo um gesto de amor. Se digo adeus a algo bom, a algo que amo, a algo que desejo, é um adeus triste; mas se digo adeus a uma tristeza, o adeus é não apenas bom, como precioso. Há adeuses e adeuses.

Linda, uma das minhas preferidas músicas na adolescência, Adeus, vou pra não voltar e onde quer que eu vá sei que vou sozinho (Torquato e Edu); eu a ouvia como uma música de amor perdido, Vem! Nem que seja só pra dizer adeus. Dizem que o Torquato estava se despedindo da vida. A primeira música que aprendi ao violão, eu tinha uns doze anos, foi Adeus, amor, eu vou partir...

Sei que é muito difícil dizer adeus ao que amamos. Minhas despedidas dos netos que moram lá no fim do mundo sempre foram momentos emocionais. Vovó I love you! Gritaram do outro lado do aeroporto, e ainda escuto, até hoje, anos depois. Queremos ter todos conosco, mas o mundo anda a cada dia mais repartido em pedaços.

Tão bom quando um amigo nos abraça e nos diz que nunca vai nos dizer adeus, Se depender de mim, nunca vamos nos separar. Ah muito bom imaginar algo perene, invertendo o sentido da natureza, da vida. Acreditar que nada muda, nada passa. Mas também é bom ir adiante, renovar, recomeçar, reencontrar...

Tem gente que vai logo dizendo adeus, com medo de ouvir alguém lhe dizer adeus. Tem gente que diz adeus e repete adeus, adeus, quando uma vez apenas não basta. Uma das mais lindas cartas de nossa história é a carta de adeus de dom Pedro I.

Ele diz, com emoção: "...Eu me retiro para a Europa, saudoso da Pátria dos filhos e dos meus verdadeiros amigos. Deixar objetos tão caros é sumamente sensível, ainda no coração mais duro; mas deixá-los para sustentar a honra, não pode haver maior glória. Adeus Pátria, adeus amigos e adeus para sempre..."

Na hora do adeus, você pode dizer: 1. Este adeus é pelos últimos dez mil anos e pelo que virá. 2. Do mundo nada se leva. 3. Para onde for, levarei o teu olhar, e levarás a minha saudade. 4. Este é um adeus ou uma curva do caminho? 5. Não se preocupe comigo, adoro ficar só.

6. Não saberei nunca dizer adeus. 7. Nada resta de mim que seja meu. 8. Viajo só com o meu coração. 9. Minhas velas ao mar. 10. Adeus.

Ou diga um poema de Vinicius, que tanto sabia do adeus: ...De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente...

Sutilezas de um rapaz escorregadio: Diga adeus se não quiser mais ver a pessoa. Ou diga Até logo, na esperança de um reencontro. Deixar nossa casinha, deixar nossa vidinha, nossa rotina, enfrentar uma viagem, uma mudança de rua, de bairro, de amor, de sonho, de desejo, de emprego, de um vestido velho tão confortável, de praia, de livro, todo adeus é difícil.

Um dos mais difíceis é terminar um livro que estamos adorando ler. Sempre podemos recomeçar a leitura e será novamente adorável, encantador, eletrizante, algo assim, mas nunca será como a primeira leitura de descoberta.

O adeus mais sábio, dizem no Suriname: Me go way, mai come backa, que significa, mais ou menos: o primeiro passo para fora de casa é também o primeiro passo de volta para casa.

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