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Ana Miranda: crianças ensinam adultos

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Ana Miranda: crianças ensinam adultos

00:00 · 12.05.2018

Meu neto ouviu a mãe dizer que precisava de novos pratos para a casa, mas não podia comprar no momento, estavam em fase de economia.

Um dia ele saiu com um amigo e a mãe do amigo, foram ao Salvation Army, uma espécie de bazar de caridade.

Lá estavam pratos de diversos tipos, tamanhos, cores. Todos usados.

Pediu algum dinheiro emprestado à mãe do colega, comprou uma dúzia de pratos que escolheu com cuidado. Os mais bonitos. Deu o presente à mãe, orgulhoso do gesto.

Ao ver os pratos, a mãe não pôde deixar de sorrir, mas disse, Não gosto de pratos usados! E o menino, num instante, lhe respondeu, E como você come num restaurante? Criança tem resposta para tudo. E as melhores respostas são perguntas.

Conto esta curiosa história porque, depois que conheci uma amiga ecologista, tenho tentado reciclar tudo o mais possível.

As roupas e sapatos, as cortinas, os panos de prato, as sacolas, o papel, envelopes, mesmo os antigos sonhos esquecidos.

Hoje de manhã caminhei nas ruas de Amsterdam, vi que há muitas lojas lindinhas de roupas e objetos usados, com vitrines cheias de ofertas. Até espelhos quebrados podem ser belos objetos. Chapéus desfiados, uma bolsa de retalhos. Reciclagem. Muito chique.

Minha mãe teve em sua casa um bazar, e com ela aprendi a olhar a beleza das velharias, e a reverie das belezas usadas. Guardo comigo.

Países que tiveram guerra, ou que têm frio e neve, aprendem a usar bem o que possuem. Alguns pagam recompensas a cozinheiros que nos restaurantes aproveitam tudo, os talos, as cascas, as bordas, as aparas. E quem provou um suco de casca de melancia não gostou? Hmmm...

Falava das crianças, elas estão aprendendo nas escolas muitas regras de reuso, e ensinam em casa aos adultos. Conheço uma menina de uns doze anos que sai apagando as luzes e fechando torneiras, ela ensina em casa muitas novidades ecológicas, e sabe argumentar para defender o planeta.

As crianças estão incríveis, deram agora para se organizar e fazer suas exigências, ou melhor, reivindicações. Estou pensando nas crianças que se uniram contra as armas, por sua conta própria, pacifistas e decididas. Temos esperança.

Maria a linda menina diz, Papai, não vamos mais comer os animais, está bem? E organiza um grupo de crianças para ajudarem aos animais da rua.

Na internet um menino bem pequeno deve comer um prato de batatas com polvo, e argumenta com pureza, com doçura e lucidez, contra a animalidade dos humanos. Para ouvi-lo basta escrever no Google: Luiz Antonio polvo. E chorar.

A linda Letícia de dez anos ouve o pai dizer que tem muitas cabeças, e comenta, Como a Hidra. Aula de mitologia! Crianças ensinam adultos. As cabeças se regeneram, se multiplicam.

Danielle diz ao pai, Não, papai, teus cabelos não são cinzentos, teus cabelos são prateados. Olhar amoroso, de poesia.

Se não somos como as crianças, não podemos entrar no Paraíso. Mateus 18:3 cercado de crianças.

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