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Ana Miranda: contos de fadas

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Ana Miranda: contos de fadas

00:00 · 26.05.2018

A vida não é um conto de fadas, mas em alguns momentos parece ser um conto de fadas, princesas despertam de um sono, mouras tortas espetam alfinetes em nossas cabeças, sapos se transformam em príncipes...

Era uma vez... Não apenas fadas, mas bruxas, elfos, dragões, gnomos, sereias... Sempre com magia, e para as crianças, mas quem não tem uma criança dentro de si? Ah como sonhei lendo contos de fadas na infância!

Tantas vezes fui Branca de Neve, tantas fui a Cinderela, viajei pelos reinos encantados, fui um gato de botas, vivi o pesadelo de ser abandonada numa floresta...

Uns acham que os contos de fadas são psicodramas da infância que teatralizam sentimentos, desejos, medos, as lutas da realidade e ajudam a lidar com o crescimento.

Mas os contos de fadas só se tornaram literatura para crianças quando já eram maduros, ricos, e foi um trabalho de Perrault, na França; ou quando mascates vendiam livros a um tostão, de cidade em cidade, e para serem mais fáceis de ler expurgavam as histórias. Os contos de fadas originais eram picantes, violentos.

Continham cenas de erotismo, estupro... Chapeuzinho Vermelho jogava suas roupas no fogo e pulava na cama do Lobo Mau. O príncipe fazia amor com a Bela Adormecida e ia embora, deixando-a grávida. Mesmo as versões atuais de contos de fadas contêm crueldades.

O terrível conto de João e Maria, que não é de fadas, mas de bruxas, surgiu do sentimento da Grande Fome na Europa, no século 14, que matou milhões de pessoas e fez muitos pais abandonarem seus filhos e os deixarem morrer.

Branca de Neve pode ser baseada numa história verdadeira, do século 16. Uma condessa bávara, Margarete von Waldeck, tornou-se amante do príncipe espanhol Filipe II. O pai e a madrasta de Margarete desaprovavam aquele amor, que desafiava questões políticas. Margarete apareceu morta, envenenada por ordens do pai de seu amado.

Uma moça inteligente escreveu uma tese mostrando que meus livros contêm elementos de contos de fadas, e assim descobri o que sempre percebi: sou sonhadora e acredito no impossível, no mágico.

Será que Shakespeare também? Ele mistura a seus personagens humanos alguns irreais: o rei dos duendes, a rainha das fadas, o duende Puck, em "Sonhos de uma noite de verão"; e a rainha Mab, uma espécie de fada, em "Romeu e Julieta". Mas... Shakespeare inventou a humanidade, dizem, então tudo está lá.

O movimento dos contos de fadas é quase sempre em quatro partes: 1, Travessia, o herói ou a heroína vão a uma terra marcada por acontecimentos mágicos e criaturas estranhas; 2, Encontro, um ser diabólico surge, ameaçador; 3, Conquista, uma luta de vida e morte leva à vitória do herói ou heroína; 4, a vitória é enaltecida e os heróis viverão felizes para sempre.

Os contos de fadas não têm, sempre, um final feliz, mas quando alguém diz que uma história tem um final de contos de fadas, isso quer dizer um final feliz. Também dizemos contos de fadas para histórias mentirosas, criadas apenas para encantar.

Há amores que são verdadeiros contos de fadas. Um jovem meio cigano se apaixona por uma garota estrangeira que se apaixona por ele, mas a vida os separa, e meio século depois eles se reencontram e descobrem que ainda se amam, que sempre se amaram... Serão felizes para sempre.

Minha avó dizia Contos da Carochinha, eu achava que carochinha era um besouro. O conto de fadas de que eu mais gostava era o daquela princesa que vai dormir num monte de colchões e sente de noite uma ervilha que a incomoda (Andersen), acho que era a minha sensação de que qualquer pequena ervilha me fazia sofrer, quando criança.

Mas também adorava a história do menino frágil, que tira a espada da pedra e vira rei; ou a do patinho feio que cresce e se torna um cisne (também Andersen). Eram as expectativas de minha fragilidade infantil se investir de poderes.

Acho que inventaram os contos de fadas para exprimir acontecimentos e sentimentos que realmente existem, e eles são a nossa capacidade de inventar e sonhar. Quem pode viver sem sonhar?

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