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Ana Miranda: Chante, Hanifa!

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Ana Miranda: Chante, Hanifa!

00:00 · 01.09.2018

Ah como foi bela a minha viagem ao Marrocos! O Marrocos fica mesmo para lá de Marrakesh, para lá do sonho, e para lá da nossa realidade. Parece outro tempo, outro planeta. Outros cheiros, sabores, formas, sons... Ainda ressoa em mim a linda voz da menina Hanifa. Haialaia...

Chegamos de trem a Casablanca, onde todas as casas são brancas, uma cidade com ar de metrópole e algumas ruínas, pelo menos na suja parte periférica que percorremos, diante de um imenso porto atlântico e seus guindastes. Luar e canções de amor nunca serão obsoletos... Lalala... Impossível entrar em Casablanca e não lembrar do filme.

Lá estava Humphrey Bogart no café, o avião partia entre o amor e o dever, deixando íntegra a virtude, e soava na memória: Você deve lembrar-se disto, um beijo é sempre um beijo, as time goes by... E a lágrima, e o olhar de Ingrid Bergman... Ia-se o tempo, logo fomos tomar um ônibus para Berkane, no interior, ao norte.

Eu tinha imaginado aqueles ônibus pequenos, repletos de pessoas e cestas, bagagens sobre o teto, mas era luxuoso, seguro, rodou sobre estradas aveludadas e ladeadas de alamedas de árvores, jardins, cortadas por praças redondas com chafarizes. Logo se percebe que a Monarquia cumpre o seu dever.

O rei Maomé VI, um modernizador, está por toda parte, em fotografias. Tem um sorriso bondoso, e às vezes aparece ao lado de esposa, a princesa Lalla Salma e dos filhos. Ele é também o miralmiminim, ou seja, o chefe religioso. Tudo é religião e tudo tem um toque de reino. Plin.

Tudo se falava em francês. Quase todos falam essa bela língua do colonizador. Mas o árabe ressoava para mim como uma música sedutora. As paisagens eram distantes, repletas de prateados olivais, tuias, bosques de argânias. Montanhas, aldeias, ovelhas, muralhas...

No caminho passamos por uma cidade suntuosa, Oujda parecia feita de mármore claro, mesmo o piso das praças repletas de palmeiras. Berkane ficava a doze horas de viagem, com parada para uma sopa marroquina, a harira, que se toma de manhã, à tarde, à noite. Lentilhas e grão de bico. Hmm.

Laialará, Berkane é toda em tons de terra, apenas edifícios baixos, de dois andares ou três, uma cidade pequena, nada turística; muitos carros, uma rua larga de comércio ladeada por ruelas e mais ruelas de casas geminadas, quase desertas, silenciosas. Gatos preguiçosos, crianças a brincar.

Ficamos numa dessas casas, dos pais do noivo. Ampla, paredes cobertas por azulejos trabalhados com geometrias. Uma austeridade completa, quase nenhum móvel, quadro, enfeite. Numa sala os sofás baixos em torno de uma mesa baixa, e ali estava a primeira refeição de muitas, todas maravilhosas. O chá era um ritual de gestos femininos.

Minha curiosidade sobre as mulheres revelou que elas não são submissas: fortes, determinadas, alegres, dançam e riem, trabalham, mandam. Vestem roupas longas, intensamente coloridas, cobrem os cabelos com lenços estampados, floridos, cores sobre cores, estampas misturadas, djellabas, caftans, os pés em babouches de pele.

Ganhei muitos vestidos, a mãe do noivo nos presenteava com roupas belas, típicas e ela mesma, naquela casa austera, trocava de roupa diversas vezes ao dia, entrava cantando e batendo palmas, rindo, trazendo presentes. Para eles a família é tudo. Família e religião. O Islã na sua face mais moderada e tranquila. Quem já foi a Meca é uma pessoa especial, tratada com mais reverência.

Em Berkane foi o casamento da minha sobrinha com o jovem marroquino. Era a época dos casamentos ritualísticos, com tronos dourados para a noiva, caravanas nas ruas e homens de smoking saindo pelas janelas dos carros, com gritos de alegria.

Mas o casamento nosso foi apenas uma reza, uma longa recitação cantada do Corão, respondida com belos murmúrios entoados por todos, em torno da mesa de refeições da sala grande. Ao fim, os noivos estavam casados e abençoados. Pratos e mais pratos de comidas, pães deslumbrantes, doces. O chá. E fomos para uma casa de praia no Mediterrâneo, a meia hora apenas de Berkane.

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